Alimentos ultraprocessados e processados ficaram mais baratos no Brasil nos últimos anos, enquanto produtos in natura ou minimamente processados, considerados essenciais para uma alimentação saudável, tiveram aumento de preço. A mudança ocorreu principalmente durante e depois da pandemia de Covid-19 e reduziu a capacidade de famílias de menor renda de manter uma dieta adequada, segundo estudo coordenado por pesquisadores do Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Entitulado Food Price Trends and Projections in Brazil (2018–2026): Implications for Access to Adequate and Healthy Food, o estudo foi publicado em julho de 2026 no periódico científico Applied Economic Perspectives and Policy.
A pesquisa, liderada pela pesquisadora Thaís Caldeira e coordenada pelo professor Rafael Moreira Claro, analisou a evolução dos preços dos alimentos no país entre 2018 e 2026 e as projeções para o período. Os pesquisadores utilizaram dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e concluíram que o custo dos alimentos avançou acima da renda familiar nominal, dificultando o acesso a refeições mais saudáveis.
Para Thaís, a alta dos preços dos alimentos considerados saudáveis não é um fenômeno restrito ao Brasil. A pesquisadora relaciona o movimento a fatores econômicos, ambientais e geopolíticos que afetam diferentes etapas da produção e do abastecimento.
“A pandemia de COVID-19 reforçou as alterações na dinâmica do sistema agroalimentar, que vem afetando a produção, a distribuição, a disponibilidade, os preços e a qualidade dos alimentos. Essas interrupções agravaram as tendências já existentes de aumento da pobreza e da insegurança alimentar moderada ou grave”, disse à agência de notícias da UFMG.
Diferença entre os preços diminuiu
A trajetória dos grupos de alimentos analisados foi diferente ao longo do período. Entre 2018 e 2024, o preço médio por quilo dos alimentos in natura e minimamente processados permaneceu próximo da estabilidade quando comparados os extremos da série: passou de R$ 18,90 para R$ 18,60. O comportamento, porém, não foi linear. Durante a pandemia, esse grupo sofreu uma forte alta e chegou a R$ 21,30 por quilo em 2021, antes de recuar gradualmente.
Enquanto isso, os alimentos processados registraram queda de R$ 26,10 para R$ 22,60 por quilo entre 2018 e 2024. Entre os ultraprocessados, a redução foi de R$ 22,20 para R$ 18,80 no mesmo intervalo, o que representa uma diminuição de aproximadamente 16%.
Com a evolução dos preços, a distância entre os grupos também diminuiu. Em 2018, um quilo de ultraprocessados custava, em média, R$ 22,20, contra R$ 18,90 dos alimentos in natura e minimamente processados. Seis anos depois, os valores estavam praticamente equiparados: R$ 18,80 e R$ 18,60, respectivamente.
Entre os fatores associados a esse movimento estão a desvalorização do câmbio, a valorização de commodities como soja e milho, eventos climáticos extremos, a exemplo de secas e enchentes, mudanças na regulamentação da publicidade de ultraprocessados e a carga tributária incidente sobre alimentos considerados saudáveis.
Impacto sobre a alimentação
Na avaliação de Rafael Moreira Claro, a diferença de preços observada no período representa um obstáculo adicional para quem depende da renda familiar para definir a qualidade da alimentação. O pesquisador afirma que o encarecimento relativo dos alimentos saudáveis pode repercutir tanto sobre a segurança alimentar quanto sobre indicadores de saúde.
“O aumento dos preços dos alimentos saudáveis, sem um crescimento correspondente da renda, comprometeu a qualidade da dieta e contribuiu para a piora dos indicadores de saúde, dificultando o progresso em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Esses resultados ressaltam a necessidade urgente de medidas estruturais para tornar as dietas sustentáveis financeiramente acessíveis e viáveis para todos os grupos sociais”, contou à UFMG.
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Os pesquisadores defendem ainda a ampliação de estruturas destinadas a facilitar o acesso à alimentação para populações em situação de vulnerabilidade. Entre as alternativas mencionadas estão bancos de alimentos, cozinhas comunitárias e restaurantes populares. Além de ampliar a oferta de comida saudável, essas iniciativas podem contribuir para diminuir o desperdício, criar postos de trabalho, aumentar a renda e integrar ações de diferentes políticas sociais.
Políticas para reduzir o custo da alimentação saudável
Para Thaís Caldeira, acompanhar o comportamento dos preços é particularmente importante diante de um cenário de instabilidade econômica, alterações climáticas e possibilidade de novas crises sanitárias e geopolíticas. A pesquisadora defende que os dados sejam utilizados para orientar medidas capazes de reduzir as barreiras econômicas à alimentação adequada.
“Diante do atual contexto de incerteza econômica, mudanças climáticas e risco de futuras crises sanitárias e geopolíticas, o monitoramento e a previsão contínuos dos preços dos alimentos são essenciais para subsidiar políticas públicas oportunas que promovam a segurança alimentar e nutricional. Essas políticas incluem subsídios para frutas, verduras e outros alimentos frescos, bem como a tributação de produtos ultraprocessados com base em seus impactos negativos à saúde. Além disso, o apoio à agricultura familiar e o fortalecimento dos sistemas alimentares locais são fundamentais para garantir o fornecimento de alimentos frescos, culturalmente adequados e ambientalmente sustentáveis”, destacou.
