
A recente morte da influenciadora chinesa Yingying, em agosto, reacendeu alertas sobre trends relacionadas à alimentação nas redes sociais. A criadora de conteúdo online de 24 anos ficou famosa por vídeos conhecidos como Mukbang (combinação das palavras “comer” e “transmissão”, em coreano), onde filmava a si mesma enquanto comia grandes porções de comida.
Yingying morreu após uma parada cardíaca. Em um dos últimos vídeos publicados, a influenciadora afirmou estar hospitalizada devido aos baixos níveis de potássio no sangue causados pela dieta desbalanceada e o hábito de vomitar frequentemente. Segundo ela, não foi a primeira vez que a deficiência do mineral no organismo a levou para o hospital.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
A nutricionista Ana Clara Cruz explica que o caso clínico da chinesa, conhecido como hipocalemia grave, pode comprometer o funcionamento dos músculos e a atividade cardíaca, provocando arritmias graves.
- Leia também: 'O que aprendi ao ter um AVC aos 26 anos'
“O vômito provocado repetidamente também leva à perda de líquidos e eletrólitos e pode causar alterações no equilíbrio ácido-base do organismo”, acrescenta. “Com a repetição desse comportamento, podem surgir desidratação, fraqueza muscular, alterações gastrointestinais, erosão do esmalte dentário e inflamação do esôfago”.
Ela também alerta que o hábito de vomitar para “compensar” o excesso de comida é um erro perigoso. “Mesmo quando a pessoa vomita logo após comer, parte dos nutrientes e da energia já pode ter sido absorvida, enquanto os prejuízos provocados pelo comportamento permanecem”, aponta.
Não é só um ‘lanchinho’
A trend Mukbang se tornou conhecida mundialmente durante a pandemia e com forte apelo do público asiático. Como o aumento de pessoas vivendo sozinhas na Coréia do Sul - país que popularizou o fenômeno - e com o isolamento social durante os períodos críticos da crise do covid-19, assistir transmissões ao vivo de influenciadores fazendo refeições se tornou rapidamente uma febre online.
Porém, ao chegar em países como Estados Unidos e Brasil, o Mukbang passou de uma forma de obter companhia na hora de comer para sinônimo de quantidades alarmantes de comida.
Com desafios e receitas curiosas, youtubers viralizam com vídeos onde aparecem preparando e ingerindo doces e salgados extremamente açucarados e gordurosos. Em um dos vídeos publicados, Yingying chegou a comer entre 60 e 70 ovos em conserva. Antes de morrer, ela chegou a afirmar que os criadores de conteúdos sofriam pressão para ingerirem quantidades cada vez maiores nos vídeos.
@yingyingmukbang2 MUKBANG CHICKEN P2 #mukbang #mukbangkorea #xuhuongtiktok #garan #asmr ? âm thanh g?c - YingYing Yummy
Ana Clara Cruz afirma que conteúdos como esse representam um grave risco para o público e que o consumo excessivo de comida não deve ser reproduzido como desafio ou influência das redes sociais.
“Comer em excesso provoca uma grande distensão do estômago, podendo causar dor, náusea, refluxo, vômitos e intenso desconforto”, alerta. “Quando esse comportamento é repetido, principalmente quando seguido de vômitos provocados, jejuns ou uso de laxantes para compensar a ingestão, aumenta o risco de desidratação e de alterações importantes nos eletrólitos, como o potássio, que podem comprometer o funcionamento do coração”.
Além dos efeitos físicos da prática, conteúdos assim também podem normalizar comportamentos alimentares prejudiciais, segundo a nutricionista. Para ela, é importante frisar que o entretenimento das redes sociais não deve ser usado como referência para a hora das refeições.
Como o potássio age no organismo?
No caso da chinesa Yingying, a queda dos níveis de potássio pode ter sido um dos agravantes que levou à parada cardíaca. Um dos principais eletrólitos do organismo, o mineral age na manutenção do equilíbrio de líquidos, da transmissão de impulsos nervosos e da contração muscular, incluindo a musculatura cardíaca, como explica Ana Clara.
“A hipocalemia não costuma acontecer simplesmente porque uma pessoa comeu pouco potássio em determinado período. Ela está mais frequentemente relacionada a perdas aumentadas ou alterações na distribuição do mineral no organismo”, afirma. “Vômitos e diarreia prolongados, uso excessivo de laxantes ou alguns diuréticos, determinadas doenças e alterações da função renal estão entre as possíveis causas”.
Quando a redução do mineral no organismo é acentuada, sintomas como cansaço, fraqueza muscular e constipação aparecem. Nos casos mais graves, a hipocalemia leva a alterações no ritmo cardíaco, paralisa e dificuldade respiratória.
Saiba Mais
Ciência e Saúde
Ciência e Saúde
Ciência e Saúde