Maternidade

Estudo relaciona intervalo entre gestações ao envelhecimento materno

Revisão de estudos sugere que gestações muito próximas podem impedir que o organismo se recupere das muitas mudanças que ocorrem durante o período, com impactos negativos no envelhecimento molecular e celular a longo prazo

As alterações relacionadas à gravidez podem refletir uma remodelação fisiológica normal e adaptativa, em vez de danos celulares acumulados   -  (crédito: PixBay/Divulgação )
As alterações relacionadas à gravidez podem refletir uma remodelação fisiológica normal e adaptativa, em vez de danos celulares acumulados   - (crédito: PixBay/Divulgação )

Gestações muito próximas podem impactar negativamente a saúde da mulher a longo prazo, contribuindo para a aceleração do envelhecimento biológico. Segundo um estudo da Harvard Medical School e do Brigham and Women’s Hospital, nos Estados Unidos, o tempo entre o nascimento de um filho e a concepção do próximo oferece uma explicação plausível para a relação entre número de gravidezes e qualidade de vida materna na velhice, algo extremamente variável entre as populações. 

Publicado na revista Trends in Endocrinology & Metabolism, o artigo reúne evidências científicas de diferentes estudos sobre gestação, envelhecimento biológico e histórico reprodutivo. “Nossas pesquisas anteriores descobriram que a idade biológica aumenta transitoriamente durante a gravidez, atingindo o pico por volta do terceiro trimestre ou no momento do parto”, diz Jesse Poganik, da Harvard Medical School, um dos autores do estudo. “Se aceitarmos a ideia de que essas mudanças de curto prazo na idade biológica ocorrem, a questão é como podemos relacionar essas mudanças à trajetória geral do envelhecimento ao longo da vida.”  

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O envelhecimento biológico não corresponde necessariamente à idade indicada pela data de nascimento. Ele é estimado por meio de indicadores que refletem mudanças moleculares e celulares, como padrões de metilação do DNA, processo que se assemelha a um “interruptor” que liga ou desliga um gene. Os chamados relógios epigenéticos utilizam essas informações para estudar aspectos do ritmo de envelhecimento.

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Nos estudos reunidos pelos pesquisadores, foi identificado aumento de determinados marcadores da idade biológica durante a gestação, seguida de uma redução parcial no período posterior ao parto. O fenômeno foi observado em diferentes populações e por meio de métodos distintos de avaliação.

Uma pesquisa publicada em 2023, por exemplo, identificou aumento da idade epigenética durante a gestação, com redução após o parto. Em um estudo longitudinal com aproximadamente 120 mulheres, de 2024, o índice de envelhecimento biológico aumentou na gravidez e diminuiu substancialmente nos primeiros três meses após o nascimento. O trabalho também encontrou associação entre amamentação exclusiva e maior redução de determinados marcadores, independentemente do índice de massa corporal (IMC) antes da gestação.

Os resultados não significam, porém, que a gravidez envelheça a mulher de maneira uniforme ou que as alterações identificadas representam necessariamente danos permanentes. "Durante a gravidez, o corpo passa por uma ampla reorganização metabólica, imunológica e endócrina. O volume sanguíneo aumenta aproximadamente 50%, o débito cardíaco se eleva e a placenta passa a desempenhar papel central na regulação hormonal. Também ocorrem mudanças na atividade imunológica e no estresse oxidativo", descreve Leonardo Coelho, obstetra especialista em gestação de alto risco e coordenador da emergência da Maternidade Brasília, da Rede Américas. 

As mudanças cardiovasculares, hematológicas e metabólicas estão relacionadas com a preparação para o parto. "Depois, a maioria dos parâmetros hemodinâmicos retorna a valores pré-gestacionais em cerca de duas semanas, mas estudos laboratoriais mostram que sistemas diferentes se recuperam em ritmos distintos: função renal e metabolismo do ferro apresentam até uma espécie de 'rejuvenescimento' transitório, enquanto marcadores metabólicos, hepáticos e musculoesqueléticos podem levar mais de um ano para normalizar completamente", explica Coelho. 

Recuperação

Outros fatores também podem interferir na recuperação. O IMC antes da gravidez foi associado a níveis mais elevados de determinados marcadores biológicos, enquanto o sono insuficiente e o estresse crônico são apontados como possíveis obstáculos. Nesse último caso, os pesquisadores destacam que faltam estudos que avaliem diretamente como o estresse psicossocial interfere na recuperação biológica no período pós-parto. 

“Existe uma distinção importante entre a observação relativamente bem fundamentada de que os marcadores de idade biológica se alteram durante a gravidez e o pós-parto, e a hipótese ainda não testada de que a recuperação insuficiente entre gestações causa envelhecimento biológico cumulativo e duradouro”, pondera Laura Etzel, pesquisadora do Departamento de Saúde Biocomportamental da Universidade Estadual da Pensilvânia, que não participou do estudo publicado ontem. “As alterações relacionadas à gravidez podem refletir uma remodelação fisiológica normal e adaptativa, em vez de danos celulares acumulados ou envelhecimento irreversível.

Recomendação 

Atualmente, a Organização Mundial da Saúde recomenda esperar no mínimo 24 meses após o nascimento de um filho com vida antes de engravidar novamente, como forma de reduzir os riscos à saúde tanto da mãe quanto do bebê. Jesse Poganik explica que, para estipular novas recomendações específicas com base no envelhecimento biológico, seriam necessárias pesquisas adicionais, que ele pretende conduzir em breve.

Para o pesquisador, o estudo tem implicações para a melhoria da saúde materna durante e após a gravidez. "O que me motiva a curto prazo é abordar os desafios clínicos atuais, incluindo a enorme crise de mortalidade materna nos Estados Unidos em comparação com outros países industrializados", diz Poganik. "Qualquer conhecimento que possamos obter e que possa melhorar a saúde das mães torna esse um esforço de pesquisa valioso."

Duas perguntas para

Jesse Poganik, pesquisador
Jesse Poganik, pesquisador (foto: Universidade de Harvard/Divulgação )

Quais as principais conclusões do estudo? 

Nossos principais resultados foram três. Primeiro, a evidência de que a idade biológica aumenta temporariamente durante a gravidez e se recupera parcialmente depois é notavelmente consistente: aparece em estudos da Europa, dos Estados Unidos e das Filipinas, e se repete em diversos tipos de medição, desde a estrutura cerebral até modificações químicas no DNA. Em segundo lugar, a recuperação pode levar de alguns meses a um ano ou mais e parece ser influenciada por fatores como o peso antes da gravidez, a amamentação e possivelmente o sono. Por fim, evidências iniciais sugerem que engravidar novamente durante o período pós-parto pode interromper a recuperação.

 Quais são as implicações práticas desses resultados?

Este artigo reformula o período pós-parto como uma janela potencialmente importante para a saúde a longo prazo da mulher, e não apenas como um período de recuperação do parto. Nossa abordagem considera as demandas físicas da gravidez e como ajudar as mulheres a se recuperarem completamente delas. Diversos fatores que parecem favorecer a recuperação — como amamentação, sono e saúde metabólica — podem ser influenciados por melhores cuidados e apoio no pós-parto. Se nossas previsões se confirmarem, as futuras orientações sobre o espaçamento entre gestações poderão levar em consideração a saúde da mãe a longo prazo, além dos resultados do parto, e poderão eventualmente ser personalizadas com base em medidas de idade biológica. No entanto, é importante ressaltar que esse trabalho não altera as recomendações médicas atuais: desde 2005, a Organização Mundial da Saúde recomenda um intervalo mínimo de dois anos entre as gestações.

 Palavra de especialista 

Leonardo Coelho, obstetra especialista em gestação de alto risco e coordenador da emergência da Maternidade Brasília, da Rede Américas
Leonardo Coelho, obstetra especialista em gestação de alto risco e coordenador da emergência da Maternidade Brasília, da Rede Américas (foto: Arquivo pessoal )

Benefícios reais

Independentemente das novas descobertas sobre envelhecimento biológico, já temos evidências consistentes de que alguns cuidados durante o pós-parto são fundamentais para a saúde da mulher. O primeiro é garantir uma recuperação nutricional adequada, com alimentação equilibrada, ingestão suficiente de proteínas, vitaminas e minerais e identificação de possíveis deficiências, especialmente de ferro, quando houver indicação. Também é importante recuperar gradualmente o condicionamento físico e acompanhar alterações metabólicas que tenham surgido durante a gestação. O estudo discute pesquisas que encontraram associação entre amamentação exclusiva e maior recuperação de determinados marcadores de idade biológica. Entretanto, ainda não podemos afirmar que amamentar seja capaz de prevenir ou reverter o envelhecimento. Outro aspecto fundamental é o descanso. A privação de sono e o estresse prolongado podem comprometer a saúde física e emocional. Por isso, a rede de apoio familiar, a divisão das responsabilidades com o bebê e a identificação precoce de sintomas de ansiedade ou depressão são medidas extremamente importantes. Também precisamos reforçar a continuidade do acompanhamento médico. Mulheres que apresentaram diabetes gestacional, pré-eclâmpsia, hipertensão ou outras complicações precisam de atenção especial, porque algumas dessas condições estão comprovadamente associadas a maior risco de doenças metabólicas e cardiovasculares no futuro. Talvez essa seja a principal mensagem prática do estudo: ainda estamos investigando o impacto dessas transformações sobre o envelhecimento, mas já sabemos que investir na saúde física, emocional e metabólica da mulher durante e após a gravidez traz benefícios reais, independentemente de qualquer marcador de idade biológica. 

Leonardo Coelho, obstetra especialista em gestação de alto risco e coordenador da emergência da Maternidade Brasília da Rede Américas

 

 

 

  • Jesse Poganik, pesquisador
    Jesse Poganik, pesquisador Foto: Universidade de Harvard/Divulgação
  • Leonardo Coelho, obstetra especialista em gestação de alto risco e coordenador da emergência da Maternidade Brasília, da Rede Américas
    Leonardo Coelho, obstetra especialista em gestação de alto risco e coordenador da emergência da Maternidade Brasília, da Rede Américas Foto: Arquivo pessoal
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postado em 23/10/2026 05:02
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