
O comércio exterior brasileiro encerrou 2025 em um cenário histórico. As exportações atingiram US$ 349 bilhões, o maior resultado já registrado desde o início da série histórica, enquanto as importações ultrapassaram US$ 280 bilhões. O superávit da balança comercial alcançou US$ 68,3 bilhões, consolidando o setor como um dos principais motores da economia nacional.
Apesar dos números positivos, especialistas avaliam que milhares de empresas brasileiras ainda operam com baixa eficiência tributária em operações internacionais. Em muitos casos, tributos pagos de forma desnecessária acabam reduzindo margens, comprometendo competitividade e limitando capacidade de expansão.
Segundo Lucas Congo, CEO do Grupo Platina 8, o problema não está apenas na alta carga tributária brasileira, mas principalmente na falta de planejamento estratégico aplicado às operações de importação e exportação.
“O Brasil possui instrumentos legais capazes de reduzir significativamente os custos no comércio exterior, mas boa parte das empresas ainda desconhece essas possibilidades ou não possui estrutura técnica para utilizá-las corretamente”, afirma.
De acordo com levantamentos do setor, apenas 30% do potencial de utilização de regimes aduaneiros especiais é efetivamente explorado pelas empresas brasileiras. Além disso, cerca de 45% das empresas que atuam no comércio exterior não utilizam qualquer regime especial disponível.
Para Lucas Congo, isso cria um cenário em que empresas do mesmo segmento operam com diferenças relevantes de custo simplesmente por adotarem estruturas tributárias distintas.
O peso da tributação nas operações internacionais
A carga tributária brasileira atingiu 32,4% do PIB em 2025, maior nível registrado desde 2010, segundo dados do Tesouro Nacional. No comércio exterior, a complexidade tributária se torna ainda mais sensível devido à incidência acumulada de impostos sobre importações.
Entre os principais tributos envolvidos estão o Imposto de Importação (II), IPI, PIS/COFINS-Importação e ICMS estadual. Em muitos casos, os tributos incidem em efeito cascata, aumentando consideravelmente o custo final da operação.
Simulações do setor indicam que a carga tributária em determinadas importações pode ultrapassar 70% do valor aduaneiro da mercadoria, dependendo da classificação fiscal do produto, do estado de destino e do regime tributário utilizado pela empresa.
“A classificação fiscal correta é um dos pontos mais importantes. Um enquadramento inadequado pode gerar pagamento excessivo de tributos ou até riscos fiscais relevantes”, explica Lucas Congo.
Segundo ele, muitas empresas concentram esforços apenas na negociação comercial da mercadoria e deixam de avaliar fatores estratégicos como benefícios fiscais, incentivos estaduais, regimes especiais e créditos tributários.
Regimes especiais seguem subutilizados
O ordenamento jurídico brasileiro prevê diversos mecanismos de desoneração tributária para estimular competitividade, industrialização e exportações. Ainda assim, a adesão permanece baixa.
Dados do setor apontam que, entre mais de 55 mil empresas importadoras registradas no país, apenas cerca de 2.500 utilizam o regime de Drawback. O número de empresas operando com Recof também permanece reduzido.
Entre os principais instrumentos disponíveis estão:
Drawback, que permite suspensão ou isenção de tributos para insumos utilizados em produtos destinados à exportação. Ex Tarifário, utilizado para redução do Imposto de Importação em bens sem produção nacional equivalente. Recof, voltado para industrialização com suspensão tributária mediante controle informatizado. Incentivos estaduais de ICMS em estados como Santa Catarina, Espírito Santo e Pernambuco. Certificação OEA, que oferece maior agilidade e previsibilidade operacional no desembaraço aduaneiro.
Segundo Lucas Congo, a baixa adesão normalmente está ligada à percepção de burocracia excessiva ou à ausência de orientação especializada.
“Muitas empresas acreditam que planejamento tributário é algo restrito a grandes corporações, quando na verdade ele pode representar uma diferença importante de margem até para operações menores”, afirma.
Economia pode chegar a 40%
Especialistas do setor apontam que um planejamento tributário estruturado pode gerar economia de até 40% nos custos operacionais do comércio exterior.
Na prática, a redução ocorre a partir da combinação estratégica de diferentes fatores, como:
Enquadramento fiscal adequado. Utilização de regimes aduaneiros especiais. Aproveitamento de créditos tributários. Definição estratégica do estado de nacionalização da mercadoria. Utilização de acordos comerciais internacionais. Revisão da estrutura operacional e tributária da empresa.
Em estados com incentivos específicos para importação, por exemplo, empresas conseguem reduzir significativamente a carga de ICMS incidente na nacionalização de mercadorias.
“A competitividade internacional não depende apenas da qualidade do produto. Hoje, eficiência tributária e inteligência operacional fazem parte da estratégia de crescimento das empresas”, destaca Lucas Congo.
Reforma tributária exige adaptação das empresas
A implementação gradual da reforma tributária em 2026 também deve alterar a dinâmica das operações internacionais.
A substituição do PIS e da COFINS pela CBS e a criação do IBS exigirão revisão de processos, controles fiscais e estruturas operacionais das empresas que atuam no comércio exterior.
Entre os principais pontos observados pelo mercado está a possibilidade de aproveitamento integral de créditos financeiros sobre tributos pagos na importação, medida considerada positiva por especialistas.
Para Lucas Congo, o novo cenário pode representar tanto oportunidade quanto risco.
“As empresas que começarem agora a revisar seus processos tributários terão vantagem competitiva nos próximos anos. O comércio exterior brasileiro tende a se tornar cada vez mais técnico e estratégico”, afirma.
Segundo ele, o planejamento tributário deixou de ser apenas uma ferramenta de redução de custos e passou a integrar diretamente as estratégias de crescimento, competitividade e expansão internacional das empresas.
