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Da quebrada de SP à Netflix: quem é o ator que vive assassino no 1º drama jurídico brasileiro da plataforma

Leo Sobrinho, de 28 anos, encarna Helinho em 'Habeas Corpus', série inspirada em um caso real ocorrido em Brasília, em 2009

Ator Leo Sobrinho está no elenco da série 'Habeas Corpus' -  (crédito: Divulgação)
Ator Leo Sobrinho está no elenco da série 'Habeas Corpus' - (crédito: Divulgação)

Antes de chegar ao elenco de 'Habeas Corpus', primeiro drama jurídico da Netflix Brasil, o ator Leo Sobrinho, de 28 anos, já carregava uma trajetória marcada por deslocamentos, recomeços e uma certeza que faz questão de repetir sempre que pode: a de que sua história começa muito antes do streaming.

Nascido e criado na quebrada da Zona Leste de São Paulo, passando por bairros como São Mateus e Carrãozinho, Leo trata a própria origem não como detalhe de biografia, mas como parte central da identidade artística que construiu até aqui.

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“Sempre digo que sou um ator nascido e crescido na Zona Leste de São Paulo. O lugar de onde eu vim é muito importante pra mim. Se hoje eu sou o que eu sou, é muito por conta do lugar de onde eu vim”, afirma.

Na série que estreou há duas semanas e agora aparece no Top 1 do streaming, Leo interpreta Helinho, um dos personagens centrais da uma trama inspirada em casos reais do Innocence Project Brasil, organização que investiga e reverte erros judiciários no país.

A produção acompanha Inez, vivida por Marjorie Estiano, uma professora de Direito que lidera um grupo de revisão criminal para provar a inocência de um jovem condenado por um crime que afirma não ter cometido.

No meio dessa engrenagem, Helinho carrega o peso de sustentar a tensão que move a história e praticamente decidir sobre a vida de um inocente.

“O que mais me impressionou no meu personagem foi a complexidade. Quando ele chega no prédio, nunca tinha feito nada daquilo. Quando ele sai de lá, é um assassino”, resume o ator.

O início da trajetória nos palcos

A relação de Leo com a arte começou ainda criança, quando os pais o colocaram em uma agência e ele passou a fazer testes, campanhas, catálogos e trabalhos de publicidade.

Quem sustentou essa primeira fase, na prática, foi a avó, figura central na vida e na carreira do ator. Costureira, ela atravessava a cidade levando o neto para testes quando ele ainda tinha 6 anos, em uma São Paulo bem menos acessível do que a atual.

“Minha avó é um pilar dessa história. Ela me carregava pra lá e pra cá, pegava ônibus, subia escada, perguntava pras pessoas como fazia pra chegar nos lugares. Ela fez tudo por mim”, conta.

Na pré-adolescência, Leo se afastou da arte para perseguir outro sonho: o futebol. Jogou, treinou, tentou levar o esporte a sério e chegou a cursar Educação Física, imaginando que, se não desse certo dentro de campo, ainda poderia seguir ligado ao futebol de alguma maneira. O plano mudou com duas lesões importantes, entre elas uma ruptura de ligamento no joelho.

Foi nesse período que a arte reapareceu de forma decisiva. Primeiro, com novos trabalhos em publicidade e, depois, pela escolha de cursar Jornalismo, quando concluiu que queria ser, antes de tudo, “um comunicador”. O encontro definitivo veio no teatro.

“Quando eu apresentei a primeira peça, falei: não tem jeito. Eu vou me profissionalizar enquanto ator, porque é isso que eu vou ser”, lembra.

Ele se formou em Jornalismo, tirou o DRT e, mais adiante, encarou o passo que define como o mais difícil da carreira até hoje: largar a CLT para viver exclusivamente de arte.

“Foi o momento mais difícil. Eu tinha um bom salário, benefícios, estabilidade. E olhei pra algo incerto. Mas era a única coisa à qual eu nunca tinha me dedicado 100%”, diz.

O ator que trata personagem como apuração

Se a passagem pelo jornalismo ficou para trás como profissão, permaneceu como método. Leo fala da formação universitária como parte importante da construção do ator que é hoje, especialmente no modo como pesquisa e organiza cada papel.

“O jornalismo me ensinou muito sobre a forma que eu conto a história por meio de um personagem. O ator também é um contador de histórias”, afirma. “Me ensinou, principalmente, a pesquisar. Eu não posso fazer um personagem mentiroso. Ele precisa ter base, estudo, verdade”.

A chamada da Netflix

O processo até Habeas Corpus foi longo e cheio de etapas: o primeiro teste foi um monólogo sem relação aparente com a trama, seguido de cenas de outros personagens, até que surgiu Helinho.

A aprovação veio em um dia exaustivo, dentro do camarim de um teatro, depois de horas de ensaio de uma peça que, segundo Leo, vinha sendo vivida com desgaste.

Ao pegar o celular, viu várias ligações das agentes. “Fica aquele pensamento: das duas, uma. Ou uma coisa muito boa, ou alguma coisa muito ruim”, brincou.

“Foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Foi uma confirmação de: é isso aqui, segue”, diz.

Nos bastidores

Se para o público Leo surge agora como um novo nome do elenco da Netflix, por trás da câmera a construção de Habeas Corpus foi vivida por ele com uma intensidade que passa longe do glamour automático que costuma cercar grandes produções.

Para interpretar Helinho, o ator mergulhou em um processo de preparação que envolveu leitura de processos criminais, reportagens, consumo de material sobre o caso real que inspirou a narrativa, filmes, documentários e laboratórios pessoais.

Entre as referências que mobilizou, estão o documentário Crime 113 Sul (2025), no Globoplay, e os filmes Fruitvale Station (2013) e Luta por Justiça (2019), ambos interpretados por Michael B. Jordan.

“Eu fui ler primeiro sobre o crime real, ver matérias antigas e atuais, fui assistir documentário, filme, fui pesquisar tudo. Eu não posso fazer um personagem sem entender o universo dele”, diz.

“Às vezes eu pensava: será que esse cara treinaria? Será que ele se cuidaria? Será que comeria isso? Vou experimentando pra fechar chaves da construção”, explica.

“Eu não quero chegar no set e perguntar qual cena a gente vai gravar. Eu preciso saber. Eu estudava todo dia. Decorava, revisava, anotava, voltava, revisava de novo”.

O dia em que desabou no ensaio

Um dos momentos mais fortes da preparação aconteceu antes mesmo das gravações, em uma dinâmica corporal feita com outros atores do elenco. No exercício, eles precisavam reconstruir, em cena e imaginação, a relação entre os personagens ligados ao crime e suas consequências.

Em determinado momento, Leo olhou para os atores que interpretavam o homem preso injustamente na trama e desabou em choro.

“Eu olhei pro cara que a gente incrimina e pro irmão dele e me debulhei de lágrimas, porque passou na minha cabeça que a gente tinha acabado com a vida de uma família”, conta.

Foi ali que ele entendeu, de forma visceral, a dimensão humana do personagem que pisaria no set.

Segundo Leo, as sequências mais difíceis de Habeas Corpus foram justamente as que exigiram mais precisão física e entrega emocional.

Uma delas foi a recaptura de Helinho, gravada de madrugada na região da represa de Guarapiranga, em São Paulo. A cena envolvia correr, trocar tiros, escapar, saltar um balcão e acompanhar a coreografia dos dublês sem perder a naturalidade.

“Quando eu vi os dublês fazendo, falei: parece facinho. Quando fui fazer, falei: caralho. Era muito complexo, porque não era só fazer, tinha que ficar esteticamente legal”, lembra.

Outra cena decisiva foi a do assassinato de uma funcionária da casa, sequência que exigia marcação precisa, faca cenográfica, efeito de sangue e um nível de concentração em que qualquer erro comprometeria toda a tomada.

“Eu tinha uma faca e uma responsabilidade na mão. Se desse errado, ia ter que limpar tudo, trocar roupa, preparar tudo de novo. Quando veio o ‘ok’, todo mundo bateu palma. Foi muito foda”, conta.

Já o momento mais emocionante veio em uma cena de tribunal, quando Helinho é confrontado com o impacto real do crime e de suas mentiras. Antes mesmo de gravá-la, Leo passou o texto ao lado de Vladimir Brichta diante de colegas de elenco e sentiu o peso da cena se impor ali.

A vivência com os veteranos

Nos bastidores, Leo também encontrou algo que considera raro: veteranos generosos e um set onde o aprendizado vinha tanto da cena quanto da postura. Sobre Marjorie Estiano, com quem dividiu o projeto, ele não economiza admiração.

“Quando alguém fala que a Marjorie é uma das melhores atrizes da geração, eu entendi por quê. A concentração dela é bizarra. Ela segura o personagem do começo ao fim da cena e só larga quando corta. Aquilo foi uma aula”, afirma.

De Marisa Orth, ele destaca a troca em cena e a generosidade. De Vladimir Brichta, a leveza e a escuta. E, no conjunto, diz ter visto de perto algo que também pretende levar para a própria carreira: talento sem arrogância.

“É uma aula atrás da outra. De atuação, de humildade, de como ser no set. Isso pra mim é lei: não importa o tamanho do papel, todo mundo tem a mesma importância”, diz.

O que vem depois

Depois de Habeas Corpus, Leo fala em cinema, prêmios, personagens complexos e histórias que façam o público sair transformado da sala. Mas há um sonho popular e afetivo que aparece com força especial: fazer novela. Muito por ele. Muito pela avó.

“Eu quero muito fazer novela. Um dia, ver minha avó me assistindo numa novela vai ser foda”, afirma.

“Eu sei de onde eu vim e nunca vou deixar de ir pro lugar de onde eu vim. Se eu esquecer isso, eu começo a me perder”, resume.

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MM
postado em 06/10/2026 07:15 / atualizado em 06/10/2026 14:03
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