Por Tiago Lobão Cosenza* — A geopolítica internacional atravessa um momento de inflexão e está se redefinindo em ritmo acelerado. Após a Ordem Internacional pós-Guerra Fria, agora assistimos a tensões crescentes entre potências mundiais que competem por influência, recursos e liderança econômica e tecnológica. Operações militares recentes na América Latina — notadamente a intervenção dos Estados Unidos em território venezuelano — reacenderam debates sobre soberania, interesses estratégicos e reconfiguração de esferas de influência.
Esse movimento tem sido metaforicamente comparado a um "Novo Tratado de Tordesilhas": não desenhando meridionalmente um mapa colonial, mas delimitando zonas de interesse sobre recursos naturais e capacidades tecnológicas que definirão o poder no mundo que emerge.
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O mundo voltou a falar a linguagem do poder. Depois de décadas em que a globalização foi apresentada como um caminho inevitável de integração econômica e cooperação internacional, a realidade impôs um ajuste: recursos estratégicos, infraestrutura crítica e energia voltaram ao centro da geopolítica. Não por acaso, os principais conflitos e tensões atuais orbitam em torno de petróleo, minerais críticos, cadeias de suprimento e capacidade industrial.
É nesse contexto que a ideia de um "novo Tratado de Tordesilhas" deixa de ser apenas uma metáfora provocativa e passa a funcionar como lente de leitura do presente. Assim como no século XVI o mundo foi dividido entre potências a partir de interesses estratégicos, hoje assistimos a uma divisão informal, silenciosa e pragmática do poder global. Não se traçam mais linhas em mapas coloniais, mas sobre quem controla energia, tecnologia, minerais críticos e infraestrutura.
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Durante parte das últimas décadas, o debate energético foi conduzido majoritariamente sob a ótica ambiental, regulatória ou de mercado. Esses elementos permanecem relevantes, mas tornaram-se insuficientes. A energia, nesse novo tabuleiro, voltou a ser instrumento de soberania nacional. Prova disto é o retorno do debate sobre energias firmes, inclusive com a volta do debate sobre a energia nuclear. Em um mundo mais fragmentado e sujeito a choques — climáticos, geopolíticos ou tecnológicos —, a capacidade de gerar energia de forma contínua, previsível e em larga escala passa a ser um ativo de Estado.
A energia nuclear, em particular, ressurge como elemento estratégico não apenas por sua densidade energética, mas por seu papel indutor de tecnologia, capacitação industrial e soberania regulatória.
Trata-se menos de uma escolha ideológica e mais de uma decisão estrutural sobre resiliência nacional.
É nesse tabuleiro que o Brasil precisa se posicionar com clareza. Poucos países reúnem tantas vantagens estruturais: uma matriz elétrica predominantemente limpa, abundância de recursos naturais, escala territorial, agricultura robusta, uma indústria ainda relevante e uma diplomacia historicamente respeitada. Ainda assim, essas vantagens não se convertem automaticamente em influência geopolítica.
O risco brasileiro não é a escassez, mas a ausência de uma estratégia integrada que transforme abundância em poder efetivo. O país corre o risco de permanecer como espectador de um rearranjo global que exige protagonismo.
Os acontecimentos recentes no cenário internacional nos oferecem lições claras. A primeira é que energia precisa ser tratada como política de Estado, e não apenas como política setorial. Segurança energética, hoje, é indissociável de segurança nacional. Isso implica planejamento de longo prazo, proteção de infraestrutura crítica e capacidade de resposta a crises. Implica, também, reconhecer que uma matriz excessivamente dependente de fontes intermitentes, sem lastro firme adequado, fragiliza a economia e expõe o País a riscos desnecessários.
A segunda lição diz respeito à necessidade de uma política nacional consistente para minerais estratégicos. O Brasil tem a oportunidade de deixar de ser apenas fornecedor de matéria-prima e assumir papel relevante na agregação de valor, na industrialização e na construção de cadeias tecnológicas associadas à economia do futuro. Isso exige coordenação institucional, ambiente regulatório previsível e visão de longo prazo.
A terceira lição é diplomática, que precisa ser enfrentada com maturidade. O Brasil sempre construiu sua política externa com base no diálogo e no multilateralismo — um ativo importante, mas que não pode ser confundido com passividade. Em um mundo menos normativo e mais transacional, autonomia estratégica não significa isolamento, mas capacidade de decidir com base em interesses nacionais claros, especialmente em temas como energia, tecnologia e infraestrutura.
Por fim, há uma dimensão regional incontornável. A estabilidade da América do Sul é um ativo estratégico para o Brasil. Crises prolongadas no entorno regional tendem a gerar efeitos econômicos, migratórios e de segurança que impactam diretamente o País. Liderança regional, nesse contexto, não é ideológica; é estratégica. Países que não estabilizam seu entorno acabam importando crises.
O chamado "novo Tratado de Tordesilhas" não será formalizado em acordos ou discursos. Ele se consolida todos os dias, à medida que alguns países transformam recursos em poder e outros se limitam a fornecê-los. Para o Brasil, a escolha está posta. Tratar energia como soberania, estruturar políticas industriais associadas aos seus ativos estratégicos e assumir postura pragmática no cenário internacional não é uma agenda de governo — é uma agenda de Estado.
A pergunta, portanto, não é se o mundo mudou. Ele já mudou. A pergunta real é se o Brasil pretende ocupar uma posição relevante nesse novo tabuleiro ou se aceitará, mais uma vez, que outros tracem as linhas.
Advogado especializado em energia e sócio fundador do LCFC+ Advogados. Vice-presidente para assuntos de energia da Comissão de Infraestrutura da OAB/SP*
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