
Por Erika Palma* — Mulheres vivem mais, mas chegam à velhice com menos renda e patrimônio. A combinação entre longevidade, desigualdade salarial e sobrecarga de cuidado exige planejamento previdenciário desde cedo.
Essa vantagem na longevidade é uma grande conquista da sociedade, reflexo de avanços na medicina, na qualidade de vida e nas condições sociais. Viver mais, no entanto, também significa precisar sustentar uma vida mais longa, muitas vezes com rendas que não acompanharam essa longevidade.
O paradoxo é evidente: apesar de viverem mais, as mulheres frequentemente chegam à velhice com menos renda, menos patrimônio e maior vulnerabilidade econômica. Isso não acontece por acaso.
Grande parte dessa desigualdade começa muito antes da aposentadoria e tem raízes profundas na forma como o trabalho das mulheres é organizado e valorizado na sociedade. Um exemplo claro é o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado.
Historicamente associado ao papel feminino, ele continua amplamente invisível nas políticas públicas e nas estruturas econômicas. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, as mulheres realizam cerca de 76% do trabalho de cuidado não remunerado no mundo — cuidar de filhos, familiares idosos, organizar a casa e sustentar a vida cotidiana.
Se essa atividade fosse contabilizada economicamente, seu valor poderia ultrapassar US$ 11 trilhões por ano, algo próximo de 9% do PIB global. Trata-se de uma das maiores "economias" do planeta — mas ainda invisível.
Dados internacionais mostram que as mulheres recebem aposentadorias significativamente menores do que os homens. Em média, nos países da OCDE, o valor das aposentadorias femininas é cerca de 23% inferior ao dos homens.
Esse número reflete desigualdades que se acumulam ao longo de décadas, resultado de menores salários, menor participação no mercado de trabalho e menos horas trabalhadas ao longo da carreira.
Interrupções na carreira para cuidar de filhos ou familiares reduzem tempo de contribuição e renda acumulada. Muitas mulheres passam parte da vida profissional em atividades informais ou em jornadas reduzidas para conciliar trabalho e cuidado familiar.
Embora socialmente essenciais, essas escolhas têm impacto direto na formação da poupança previdenciária. Essa diferença é o principal fator que explica a chamada gender pension gap — a desigualdade de renda na aposentadoria.
Justamente quem vive mais é quem frequentemente chega à velhice com menos recursos. Portanto, quando se fala em longevidade feminina, não se trata apenas de celebrar uma conquista demográfica. Estamos também diante de um desafio econômico e social que exige planejamento. Viver mais significa financiar mais anos de vida.
Dessa realidade surge a necessidade de estratégias de longo prazo — cenário em que a previdência complementar desempenha um papel cada vez mais relevante.
Sistemas previdenciários modernos combinam diferentes fontes de renda futura, como previdência pública, planos ocupacionais e poupança individual. Essa estrutura contribui para diversificar as fontes de renda na aposentadoria e aumentar a segurança financeira ao longo da vida.
Contudo, nenhum sistema consegue compensar sozinho desigualdades estruturais acumuladas ao longo da vida profissional. Por isso, o planejamento financeiro precisa começar cedo e considerar a realidade específica das mulheres.
É essencial contribuir de forma contínua sempre que possível, buscar instrumentos de acumulação previdenciária, compreender os impactos de interrupções de carreira e, principalmente, incorporar a longevidade nas decisões financeiras.
Planejamento previdenciário não é apenas sobre aposentadoria. É sobre autonomia. É sobre garantir que décadas adicionais de vida sejam vividas com segurança, dignidade e liberdade de escolha.
Se queremos uma sociedade em que mulheres vivam mais e melhor, precisamos reconhecer o valor econômico do cuidado, reduzir desigualdades ao longo da vida laboral e ampliar instrumentos de proteção previdenciária. Caso contrário, continuaremos celebrando uma conquista demográfica sem enfrentar suas consequências econômicas.
Especialista em previdência complementar, presidente da OABPrev-SP*
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