Visão do Direito

Guerra no Irã pressiona indústria do plástico

"Segundo a Associação Brasileira da Indústria do Plástico, o custo das resinas chegou a subir até 60% desde o início das tensões no Oriente Médio"

Por Giovanna Michelleto* — A escalada das tensões envolvendo o Irã vem pressionando a indústria brasileira de plásticos. A razão é direta: o setor depende da cadeia petroquímica, ligada ao petróleo e ao gás natural, cuja oferta global passa pelo Oriente Médio. O risco de interrupções em rotas estratégicas, como vem acontecendo com o Estreito de Ormuz, afeta a produção e o transporte de resinas plásticas, elevando custos e reduzindo a disponibilidade de matéria-prima. 

Os efeitos já são visíveis. O setor enfrenta alta de preços, restrição de oferta, postergação de pedidos, revisão unilateral de contratos e redução de volumes disponíveis. Segundo a Associação Brasileira da Indústria do Plástico, o custo das resinas chegou a subir até 60% desde o início das tensões no Oriente Médio. Como cerca de 35% da demanda brasileira depende de importações, a indústria nacional se torna especialmente exposta a choques externos.

O cenário difere do observado durante a pandemia. Naquele momento, a pressão vinha da demanda, permitindo repasses de preços e recomposição de margens. Agora, o problema está na possível dificuldade de acesso à matéria-prima. Em muitos casos, clientes aceitam reajustes, mas fornecedores não conseguem garantir entregas por falta de insumos.

Esse contexto pressiona contratos e obrigações financeiras. Renegociações, revisões de preços e riscos de inadimplência passam a integrar a rotina das empresas do setor de plástico, especialmente aquelas que não têm fácil acesso a créditos. A experiência recente mostra que o Judiciário tende a admitir flexibilizações quando há comprovação concreta do impacto econômico de eventos externos, configurando o chamado "evento de força maior".

A situação atual exige o mesmo tipo de demonstração. Não basta apontar genericamente o conflito internacional, é essencial comprovar aumento de custos, interrupções de fornecimento, redução de estoque e impactos diretos na operação.

Em março de 2026, a Vara de Cotia (SP) concedeu liminar suspendendo, por seis meses, o pagamento de dívidas bancárias de uma empresa de embalagens plásticas afetada pelo fechamento do Estreito de Ormuz. O juiz reconheceu que a interrupção da rota marítima comprometeu o fluxo de caixa da companhia e criou risco efetivo de insolvência.

A pressão também alcança a operação industrial. Empresas já adotam redução de turnos, férias coletivas e reprogramação da produção. Distribuidoras e companhias com menor capital de giro enfrentam dificuldade adicional para absorver aumentos abruptos de custo na aquisição de matéria-prima.

Nesse ambiente, instrumentos de reestruturação precisam ser estudados, sejam eles judiciais ou extrajudiciais, exigindo muita cautela: antecipar demais a renegociação pode gerar distorções; agir tarde demais reduz a capacidade de negociação com credores.

A crise expõe a dependência das cadeias globais e a vulnerabilidade da indústria a choques geopolíticos. Para o setor de plásticos, a questão já não é prever se haverá impacto, mas administrar seus efeitos sobre contratos, produção e estrutura financeira.

Advogada especializada em reestruturação empresarial e operações estruturadas. Fundadora do Mit Advogados *

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