Artes visuais

'Quero que ela se popularize', afirma Tarsilinha do Amaral sobre a tia

A pintora Tarsila do Amaral é hoje a artista mais cara do Brasil. Ao Correio, a sobrinha-neta da pintora, Tarsilinha do Amaral, detalha os planos para tornar a tia um ícone pop internacional

Roberta Pinheiro
postado em 24/01/2021 06:05 / atualizado em 24/01/2021 11:41
 (crédito: AFP / TIMOTHY A. CLARY )
(crédito: AFP / TIMOTHY A. CLARY )

Do município de Capivari, interior do estado de São Paulo, a “caipirinha vestida de Poiret”, como escreveu Oswald de Andrade, se tornou hoje a artista mais cara do Brasil. O título da paulista Tarsila do Amaral (1º de setembro de 1886 — São Paulo, 17 de janeiro de 1973) veio após a venda da obra Caipirinha (1923), por R$ 57,5 milhões para um colecionador brasileiro. Contudo, antes disso, a modernista dava sinais de que conquistaria o público brasileiro, bem como o estrangeiro.

Pesquisadores apontam que, a partir de uma grande retrospectiva da pintora em 1969, no Rio de Janeiro e em São Paulo, seguida da presença das obras da brasileira em exposições na Europa e nos Estados Unidos no século 20, Tarsila voltou a ganhar os holofotes. Conquistar altos valores no mercado de arte também não é novidade. Em 1995, o quadro Abaporu, um dos mais importantes da arte brasileira e pintura desencadeadora do movimento antropofágico, foi vendido para uma coleção argentina — a de Eduardo Costantini, hoje Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires (Malba) —, pelo maior valor já pago a uma obra de arte brasileira até então (US$ 1,35 milhão).

“O primeiro grande passo para que Tarsila fosse redescoberta pelo mercado foi a compra do Abaporu. A obra entra para uma coleção privada internacional, vai para um museu de um colecionador da América Latina e começa a circular como empréstimo para os Estados Unidos e a Europa de uma maneira mais forte. Vale ressaltar que ela nunca foi esquecida no Brasil por professores e pesquisadores, mas entra definitivamente para um circuito internacional e chama a atenção”, explica o historiador da arte da Universidade de Brasília (UnB) Emerson Dionísio.

Mais recentemente, além de Caipirinha, em 2019, o quadro A Lua (1928), considerado um marco da pintura antropofágica de Tarsila, foi comprado pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), por aproximadamente US$ 20 milhões. Um ano antes, em 2018, o museu, um dos mais importantes do mundo, realizou a primeira grande retrospectiva da brasileira em Nova York. No Brasil, a mostra foi a responsável por levar mais de 400 mil pessoas ao Museu do Estado de São Paulo (Masp). A mostra Tarsila popular, realizada em 2019, superou o público de Monet, exposição feita em 1997 com obras do impressionista francês.

People look at the artwork during a press preview for artist Tarsila do Amaral: Inventing Modern Art in Brazil at the Museum of Modern Art on February 6, 2018 in New York
People look at the artwork during a press preview for artist Tarsila do Amaral: Inventing Modern Art in Brazil at the Museum of Modern Art on February 6, 2018 in New York (foto: AFP / TIMOTHY A. CLARY )

“Tem uma valorização muito rápida e, no meio do caminho dessa valorização, precisamos destacar alguns aspectos”, pontua Dionísio. O primeiro deles é um projeto agressivo do MoMa e de algumas instituições museológicas americanas de eleger o que se pode chamar de “os inventores do modernismo da América Latina”. Até então, os olhos estavam voltados para o México e, no caso do Brasil, para os concretistas e construtivistas, além de Cândido Portinari. Tarsila também oferece, na visão estrangeira, uma arte lírica primitiva e modernista. “Consegue oferecer o lirismo que é muito próprio do trabalho dela, essa condição do olhar mais onírico, e oferece uma espécie de identidade brasileira que é também latina”, acrescenta o historiador. Outro fator que contribuiu nesse processo seria um interesse do mercado pelas mulheres.

Para Dionísio, o último recorde da venda de Tarsila, com Caipirinha, reúne todas as condições perfeitas. “Estão sobrando poucas obras dessa artista, que é singular para o entendimento da arte da América Latina e é crucial para o entendimento de todo o processo híbrido das vanguardas históricas europeias e do manifesto antropofágico. Essa é a leitura que o mercado faz”, justifica.

Pintora do Brasil

Apesar da formação fora do Brasil, a artista traduziu em cores e formas desconstruídas a essência do país. Pintava com alta sensibilidade o que viu e viveu. “Ela criou a pintura ‘pau-brasil’. Se nós, modernistas de 1922, anunciamos uma poesia de exportação, ela foi quem ilustrou essa fase de apresentação de materiais, plasticizada por Di Cavalcanti, mestre de Portinari. Foi ela quem deu, afinal, as primeiras medidas de nosso sonho bárbaro na Antropofagia de suas telas da segunda fase, A Negra, Abaporu, e no gigantismo com que hoje renova seu esplêndido apogeu”, escreveu Oswald de Andrade em 1945. Tarsila representou tudo isso e se tornou pilar do movimento sem ter participado da Semana de 22. Ela apenas compartilhou os acontecimentos, enquanto estudava em Paris, por meio de cartas trocadas com Anita Malfatti.

Ao Correio, Tarsilinha do Amaral, sobrinha-neta que comanda o espólio da artista, comenta sobre a evidência ganha pela paulista. Nos últimos anos, a parente homônima se inspira na construção do ícone Frida Kahlo para tornar a obra e a história da brasileira mais conhecidas. “Aqui, no Brasil, a gente tem poucos exemplos disso. Olhei muito para a Frida Kahlo. Depois do filme dela e a venda de um quadro dela para a Madonna, ela realmente mudou de patamar e virou um ícone pop no mundo inteiro. Claro que a Frida tem uma tragédia pessoal muito grande, que ela coloca nas obras, e isso é muito diferente da Tarsila”, comenta.

Além de exposições nacionais e internacionais da tia — estão em negociação uma mostra de Tarsila no Pompidou, em Paris, e outra no Tate Modern, em Londres —, Tarsilinha tem uma lista de planos. Entre eles, um longa-metragem biográfico sobre a pintora, cuja produção-executiva é do inglês Simon Egan, o mesmo de O discurso do Rei (2011), filme vencedor de quatro Oscars. “Está na fase de roteiro e captação, que não são coisas muito fáceis. Vai ser lindo”, conta animada a sobrinha-neta.

Em fase mais adiantada, está o lançamento de Tarsilinha, animação inspirada nas obras da modernista. “Como ainda não dá para lançar no cinema, estamos negociando com o streaming”, detalha a sobrinha-neta da artista. Também este ano deve ser retomada uma exposição no Farol Santander, em Porto Alegre, voltada para o público infantil. "É o futuro. São as pessoas que vão apreciar a arte, que vão gostar das obras da minha tia e que vão consumir arte. Também tem uma associação muito forte da obra dela com as crianças. Pelos temas e cores. Para mim é muito bacana cativar esse público e essa exposição é para crianças, mas é toda tecnológica para justamente chegar perto deles, do que eles gostam", justifica Tarsilinha sobre os projetos envolvendo crianças e adolescentes.

Muito questionada sobre o desejo de trazer as mais importantes pinturas de Tarsila de volta ao Brasil, tendo em vista que obras maestras do portfólio da artista pertencem a acervos internacionais, Tarsilinha afirma que fica dividida. "Seria um sonho ter essas obras aqui, só que também é muito importante estarem lá fora. Dá uma dor no coração ver o Abaporu e A Lua lá fora, mas para a arte brasileira e para a minha tia é muito importante. Gostaria que ela tivesse feito muito mais obras para ter uma parte aqui e outra lá fora".

Tarsilinha do Amaral
Tarsilinha do Amaral (foto: Bob Wolfenson/Divulgação)

» Entrevista / Tarsilinha do Amaral

O que significa transformar Tarsila em ícone pop internacional? Qual a importância desse processo e como fazer isso sem vulgarizar sua obra?

Quando vi um camelô vendendo um monte de camiseta do Abaporu, próximo ao Masp, mesmo sem a nossa autorização, me chamou a atenção: opa, ela está virando um ícone popular. Na exposição do Masp, foi possível ver o olhar do público em relação a obra dela, o feedback, as pessoas se viam representadas. As cores brasileiras, as obras que mostram o Brasil, a fauna e a flora, o povo. Ela dizia que queria ser a pintora do Brasil e conseguiu virar. Mas, o aspecto mais bacana, é a popularização da arte não só dela, mas vai puxando para outros artistas. É importante para a arte brasileira. Sobre a não vulgarização, esse é o meu grande desafio e perco noites de sono com ele, porque durante muito tempo eu fui atrás das empresas para fazer parceria, agora é o contrário. Ai penso: será que faço isso? Como posso fazer para não vulgarizar? Está sendo um desafio constante por conta dessa procura tão grande que tem por ela para os mais diversos fins. Cada caso é avaliado com todo o cuidado, com toda a dedicação para que isso não aconteça. Quero que ela se popularize, mas é minha obrigação mantê-la nesse patamar tão alto da arte brasileira.

Ano que vem, será celebrado os 100 anos da Semana de Arte Moderna. Qual foi o papel e a importância de Tarsila para o Brasil e para o modernismo?

A minha tia não participa da Semana, mas é a artista mais lembrada e se tornou um dos pilares do movimento modernista. Os desenhos dela, por exemplo, inspiraram todas as poesias do Oswald de Andrade. A partir do olhar pictórico dela, de uma viagem para Minas Gerais, eles se inspiraram para fazer os poemas e depois os livros. Oswald ficou pirado com o Abaporu e escreveu o manifesto do movimento antropofágico. Ou seja, a obra dela vai influenciar o movimento literário, algo que é raro no Brasil e no mundo. A história dela para a arte brasileira também é muito importante. Os modernistas todos queriam trazer as novidades que estavam acontecendo fora, mas principalmente queriam valorizar o Brasil, e a Tarsila foi o grande símbolo disso. Ela trouxe a técnica do Cubismo, mas ela fez uma coisa totalmente brasileira. Você olha para Picasso e outros grandes mestres cubistas e não tem nada a ver com a obra dela. Ela cria algo totalmente novo. Ela representa a valorização do país e de tudo que o movimento como um todo queria.

A senhora fala que se inspira na construção do ícone Frida Kahlo. Acha que Tarsila também inspira questões ligadas ao feminismo?

Com certeza. A minha tia, tudo o que ela fez, ela nunca fez para levantar uma bandeira, fez pela felicidade dela, só que foi pioneira. A partir do momento que conheçam mais a história dela, as pessoas vão se sentir representadas. Ela era uma mulher independente e livre.

A que você associa a valorização das obras da Tarsila atualmente?

Em modéstia parte, ao meu trabalho. Consegui, nesses 20 anos, levar a obra dela para diversas exposições no Brasil e fora do Brasil, além de diversos livros e isso gera um interesse da imprensa e valoriza a obra dela. O resultado vem. No Masp, foram 400 mil pessoas em três meses. Fora do Brasil, as exposições também tiveram muito sucesso. Tudo isso, joga o nome dela lá em cima e os museus e grandes colecionadores estão querendo comprar essas obras. Outro fator é que ela tem poucas obras. A Tarsila pintou muito pouco. Não chega a 240 obras.

Tarsila é a cara de qual Brasil?

Se eu pensar na obra, vai mostrar o Brasil rural e urbano, mas acho que ela tinha uma visão muito bonita do país. Tinha uma esperança de que era um país muito bom e queria mostrar isso para o mundo inteiro. Acho que essa visão otimista atrai as pessoas, a gente se sente representado e tem orgulho.

Como seria a relação de Tarsila com a arte brasileira hoje?

A arte no mundo inteiro mudou demais. A arte contemporânea é muito diferente. E é muito difícil trazer uma pessoa que viveu há mais de 100 anos para agora. Talvez ela olhasse um trabalho do Tunga e, de repente, não gostasse. Mas ela viveu uma outra época. Se ela tivesse vivido todos esses anos, com a sensibilidade que ela tinha para a arte, o conhecimento profundo artístico e a visão artística privilegiada, e ela fosse acompanhando todas essas mudanças, ela ia olhar para a arte brasileira hoje, e ia compreender todo mundo. Ela saberia entender a transformação da arte.

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