Música

Funk brasileiro vira referência musical e projeta o país internacionalmente

Gênero musical supera preconceitos e chega aos rankings das músicas mais ouvidas no Brasil em diferentes plataformas como YouTube, Spotify e até mesmo Tik Tok.

» Pedro Ibarra*
» Fernanda Gouveia*
postado em 26/06/2021 06:00
Mc Rebecca, um dos destaques do atual momento do funk brasileiro, destaca que o lugar de mulher é onde ela quiser -  (crédito:  Luan Gadelha/Divulgação)
Mc Rebecca, um dos destaques do atual momento do funk brasileiro, destaca que o lugar de mulher é onde ela quiser - (crédito: Luan Gadelha/Divulgação)

“O funk do meu Rio se espalhou pelo Brasil / Até quem não gostava quando ouviu não resistiu”, já cantava MC Marcinho no final dos anos 1990. Mais de duas décadas depois, os versos da nostálgica canção Glamurosa, que antes só faziam sucesso nos bailes fluminenses, atualmente são considerados uma realidade.

Rotulado como música das periferias no Rio de Janeiro, o funk fez um intercâmbio com outros guetos e saiu do seu reduto. Enquanto descia os morros, subia cada vez mais as paradas de sucesso e ganhava espaço na cultura dos brasileiros, a sonoridade logo se tornou um produto rentável e chamou a atenção do mercado fonográfico internacional. Um caminho parecido com o samba no início do século 20.

Nomes como Anitta, Ludmilla e Kevin O Chris, atualmente, dominam os rankings das músicas mais ouvidas no Brasil, em plataformas como YouTube, Spotify e, mais recentemente, Tik Tok. Eles, ao lado de centenas de MCs, colocaram o funk no topo, um pódio comumente ocupado por músicos sertanejos, tanto que, pela primeira vez, ficaram de fora do top cinco mais ouvidos do YouTube, desde a criação da lista em 2018.

Um dos maiores fenômenos dessa expressão, Kevin O Chris foi o artista homem mais escutado do Spotify Brasil em 2019. O funkeiro chegou a dezenas de milhões de reproduções em plataformas como YouTube, cantou no palco do Lollapalooza durante o show do trapper Post Malone e gravou um remix de uma composição autoral com o ícone do rap Drake.

Para o MC, o funk atingiu esse patamar por ser um gênero popular. “Acho que o funk abraça todo mundo. Quem não tá envolvido profissionalmente curte o som ou, pelo menos, já se viu dançando alguma música”, afirma Kevin O Chris. Com apenas 23 anos, o músico destaca que é grato pelas conquistas obtidas. “Vejo como a realização de um sonho e a recompensa por tanto trabalho. Esse reconhecimento de nomes tão grandes só confirma que estou no caminho certo e não posso parar”, comenta o músico em entrevista ao Correio.

Em 2021, o MC emplacou mais um hit. Com Tipo gin, ele alcançou o Top 200 Global do Spotify e liderou a lista brasileira e a portuguesa na plataforma, além viralizar no TikTok com mais de 260 milhões de interações na rede social. “Procuro, cada dia, inspirar os que estão começando a não desistirem, a continuarem acreditando nos sonhos deles, estou sempre com meus crias, não saio da minha comunidade e procuro ser exemplo por lá, o máximo que eu puder”, explica o artista sobre o que pretende com o próprio trabalho.

Kevin abriu caminho para outros nomes se destacarem nesse cenário. Atualmente, quem carrega o posto de artista brasileiro mais ouvido no Spotify é Mc Don Juan. “Estamos vivendo a melhor fase da história no que diz respeito ao funk”, avalia o artista, que tem mais de oito milhões de ouvintes mensais e músicas com mais de 50 milhões de reproduções na plataforma. “O funk é o ritmo mais versátil e mais aberto do mundo, isso fez nosso movimento evoluir, sem marra, sem ser prepotente. O funk está aberto para a música, e o nosso ritmo envolve, nossas letras encaixam em tudo. Acho que ainda vamos dominar o mundo”, brinca.

Outra cantora dessa safra de novos talentos é a Mc Rebecca. A artista, que ficou famosa com as colaborações em Repara, ao lado de WC no Beat e Kevin O Chris, e Combatchy, com Luísa Sonza, Anitta e Lexa, agora está fazendo a promoção do seu novo EP, com o lançamento dos singles Outro lado e Pussy gang. A artista aponta que a diversidade é um dos trunfos do gênero. “Estamos literalmente em todos os lugares e com diferentes abordagens, o funk não é ‘tudo igual’, como alguns dizem, temos muitas expressões artísticas dentro dele”, explica a cantora. “Acredito que esse seja um dos diferenciais para o seu desenvolvimento, ele é diverso”, completa.

Rebecca também ressalta que o lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive no funk. “Hoje, vejo as mulheres demonstrando essa emancipação e esse empoderamento. São letras que expõem seus próprios desejos, assim como os homens já faziam. Sou muito realizada por integrar esse movimento”, conta a cantora. “Em relação ao machismo, sempre há, em todos os ambientes. E esse é um dos pontos da importância das mulheres estarem inseridas em todos os espaços. Hoje, no funk, temos muitos nomes femininos e com carreiras sólidas, o que nos faz sermos mais respeitadas”, adiciona.

Influências

Originado na década de 1960, da soul music norte-americana, o funk não é o único som “importado” que ganhou contornos nacionais próprios. O hip-hop, que também surgiu nos Estados Unidos, na década de 1970, e chegou ao Brasil nos anos 1980, influenciou o funk brasileiro como o conhecemos hoje. Outros ritmos, como o rap e o trap, que trazem mensagens de crítica social, também deixam sua colaboração no gênero brasileiro e ganham cada vez mais destaque entre diferentes públicos.

“Eu costumo dizer que o rap e o funk são dois filhos da mesma mãe. Eles são irmãos, cada um com a sua identidade e estilo, mas sempre juntos”, explica Delacruz, um dos grandes nomes da nova geração do rap nacional e que começou a carreira no funk. Recentemente, o rapper lançou a música Romântico 90, em parceria com o MC Marcinho, autor da canção que abre essa reportagem. “Existem caminhos melódicos que o Marcinho usa e que eu aplico demais nas minhas músicas”, conta Delacruz, ao dizer que, como cantor de rap, ele traz referências do funk nas canções.

“A música brasileira com mais acessos no YouTube é um funk, a música mais ouvida no Spotify Brasil hoje é um funk”, fala Mc Don Juan que, atualmente, está nas três primeiras posições do ranking das mais ouvidas do Spotify Brasil. “Acho que o movimento está no caminho certo”, complementa o músico.

“O entretenimento é a arma do funk”, assim define Filipe Alemar, produtor executivo da Obi, selo de música hip hop de Brasília. Com batidas cativantes e letras acessíveis, que representam boa parte da população brasileira, o ritmo é capaz de agradar a diferentes tipos de públicos. “A estratégia do funk está mais ligada ao apelo estético, de conseguir deixar claro o seu posicionamento político, por meio de uma musicalidade que tem o entretenimento como potência. Até pelo fato de ser essencialmente brasileiro, ele conseguiu atingir a massa de uma forma diferente”, diz Filipe.

O sambista Péricles reconhece e avalia a projeção da expressão. “O funk hoje exerce a função de inspirar, faz com que as pessoas queiram ascender socialmente e tentarem ser melhores. Assim como fez o pagode dos anos 1990, o samba, o forró e, mais recentemente, a pisadinha”. O músico também afirma que o gênero já deve ser considerado consolidado na cultura do país. “É uma realidade há muito tempo, e tem gente que ainda não parou para prestar atenção nisso”, aponta o ex-Exaltasamba.

*Estagiários sob a supervisão
de Juliana Oliveira

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