Jornal Correio Braziliense

LITERATURA

Atriz e poeta Elisa Lucinda reúne escritores e artistas na 1ª Festa da Palavra

Evento literário feito direto de Itaúnas (ES) conta com a participação de 23 artistas que propõem o debate sobre a importância e a força da palavra em suas diversas manifestações

Depois de viajar Brasil afora para participar de dezenas de festas literárias, Elisa Lucinda ficou pensando como poderia fazer para incluir Itaúnas, um pequeno paraíso litorâneo no norte do Espírito Santos no roteiro dos encontros entre autores e leitores. Seria uma forma de oferecer à cidade, que ela adotou como pouso, um presente à altura do acolhimento encontrado na comunidade. O afeto da poeta brotou para dar origem à 1ª Festa da Palavra — em formato on-line em virtude da pandemia — que estará acessível a todos a partir de hoje. “Nesse lugares que andei, eu pensava em como fazer para levar as pessoas para conhecer esse paraíso que é Itaúnas, esse lugar maravilhoso, parque ecológico, conhecida como a cidade do forró, vila pacata, balneária, que me inspirou muitos poemas. Itaúnas não poderia ficar sem uma festa dessa ordem”, diz Elisa, que nasceu em Cariacica (ES) e viveu no Rio de Janeiro.

Na lista de 23 convidados da festa estão personalidades como o ator Lázaro Ramos, o escritor e professor Daniel Munduruku, o cantor Chico César, as escritoras Maria Valéria Rezende e Bernadette Lyra, o poeta cabo-verdiano Filinto Elísio e o capixaba Caê Guimarães. No título da festa, Elisa quis celebrar para além da literatura. “Eu queria que as pessoas soubessem que estão ali pela palavra. A palavra é mágica, está na nossa cara, é trivial, corriqueira. Não dá pra se escusar. E ela tem poder de ação”, garante.

Itaúnas se transformou em cenário para a festa, assim como a casa de Elisa Lucinda na cidade. A igreja e os coqueiros aparecem ao fundo enquanto a autora conversa com convidados por meio de um telão. Tudo foi gravado e ficará disponível no canal da festa no YouTube. “Filmamos várias coisas da cidade, fizemos um audiovisual mesmo. Eu faço a direção artística da minha peça, então usei isso a meu favor. Fizemos cenas na praia, na rua”, avisa Elisa, que também filmou os espetáculos Na ponta da palavra e A palavra é poder, em casa, para serem exibidos durante o evento.

Sobre a curadoria dos artistas que participam do evento, Elisa explica que privilegiou a diversidade. “Eu quis tirar toda a formalidade para atrair os jovens e fazer formação de leitor. Eu quis ser híbrida dando sentido à diversidade, então tem vários pretos, tem indígena, é equilibrado. Estou fazendo a festa dos meus sonhos, cansei de ser a única preta entre os convidados”, conta.

Formação de leitor é algo que a escritora e atriz encara como urgente e necessário para o país. Ela ficou surpresa e entristecida com os números do Enem deste ano, que teve baixa adesão de candidatos. “Isso significa que nossos jovens estão sem esperança, sem sonho. O Brasil se tornou inviável para o sonho, mas o jovem precisa ver que o sonho dele é o planejamento do que ele quer. E a gente tem que descentralizar os saberes, esse negócio dos saberes ficarem só no sudeste não tem graça. Levar uma festa literária para Itaúnas é sinal de que estou incluindo uma professora de lá, um estudante de lá. Quero estar incluída no projeto de desenvolvimento do país”, afirma.