Consciência negra

Em entrevista, Babu Santana fala da importância de "mais pretos" no audiovisual

Em entrevista ao Correio, ator, cantor e ex-BBB Babu Santana fala da experiência como homem negro no mundo do entretenimento, do racismo e da importância de vermos produções negras no audiovisual

Naum Giló*
postado em 21/11/2021 06:00
 (crédito: Caio Gomez)
(crédito: Caio Gomez)

O divisor de águas da carreira dele foi quando encarnou Tim Maia na fase adulta no cinema, em 2014. O trabalho lhe rendeu um prêmio Grande Otelo de ator protagonista. O personagem Bujiú, em Estômago (2007), deu-lhe o primeiro Grande Otelo, mas como coadjuvante. A carreira de ator começou ainda na segunda metade dos anos 1990, no Teatro Nós do Morro. "Trabalhei com pouquíssimos diretores e roteiristas negros. Mas é sempre um grande prazer, porque me sinto acolhido, sem medo de ser eu mesmo, com mais vontade de ser ousado nos meus papéis. Por isso, sempre peço que tenham pessoas pretas na minha equipe", revela o Paizão. Seu nome de nascimento é Alexandre da Silva Santana. O apelido de infância preconceituoso, que vem de babuíno, foi apropriado por ele como forma de protesto.

Nascido no Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, Babu Santana trabalhou em barraca de praia em Ipanema, fez faxina, foi pedreiro, aderecista de escola de samba e eletricista antes de se entregar de vez para a arte. Foi participando do "Big Brother Brasil 2020" que o país conheceu melhor o artista. A passagem pela "casa mais vigiada do Brasil" foi marcante, tanto pelo recorde do número de paredões que enfrentou, quanto pelas discussões acerca do racismo levantadas por ele durante o programa. O contrato com a Globo veio após a sua saída da casa, em maio de 2020.

Hoje, além de ator, Babu também tem uma banda chamada Babu Santana e Os Cabeças de Água-Viva, que mistura samba, reggae, soul e funk. Como cantor, recentemente, lançou o single e o clipe de Morrão, um feat com Papatinho e Lennon, ultrapassando a marca de 3,5 milhões de visualizações no YouTube. O seu selo musical, Paizão Records, segue a todo vapor.

Na época do seu confinamento no "BBB20", houve um viral que mostrava os papéis que você tinha feito no cinema. Chamava a atenção a quantidade de personagens como "bandidos" e "sujeitos mal-encarados" na sua carreira. Isso chegou a te afetar ou fazer você questionar o seu lugar no mundo da atuação?

Desde que comecei a atuar profissionalmente, em 1998, era claro, para mim, o quanto estereotipados eram os personagens dos atores pretos. O espaço dos pretos no audiovisual era muito escasso, e ainda é, mas buscamos amplitude o tempo inteiro e as resistências são enormes. Sabemos do nosso potencial e força. Alguns personagens que interpretei, sim, estavam sob esses estereótipos, mas meu pensamento, coragem, determinação, estava acima desse lugar de subalternidade no qual a sociedade tenta colocar um corpo preto. Mas, claro, tais personagens foram, também, oportunidades para eu me inserir no audiovisual. E uma vez na área, a luta era para se manter forte, sempre me aperfeiçoando como ator, estudando e trabalhando muito, para que quando a oportunidade surgisse eu estivesse pronto para agarrá-la.

Racismo é um assunto que tem ganhado bastante espaço nos últimos anos. Como você tem visto a evolução da questão do racismo no mundo do entretenimento?

O racismo é estrutural. Romper com isso é, eu diria, uma das tarefas mais árduas da humanidade. Claro que temos tido avanços, mas que ainda não colocam todos os pretos no topo. É importante que a arte inclua mais corpos como o meu, porque isso é reparação histórica, é validação, é fomento de autoestima. Considero que os questionamentos são necessários e urgentes, isto é, se metade da população brasileira é negra, por que elas são minoria na tevê, teatro, cinema? Temos um longo caminho a percorrer até que a gente possa falar em igualdade racial de fato, principalmente porque isso tem a ver com termos uma sociedade que seja capaz de fazer lutas antirracistas na prática, porque a teoria já tem gente demais falando.

Interpretar Tim Maia no cinema te fez descobrir coisas novas sobre você mesmo enquanto homem negro?

Quando eu tinha 12 anos, me entendi como homem preto, mas, nessa época, a negritude era um assunto pouco debatido nos lares e escolas, então você costumava — e acho que acontece com muitos —, não olhando para dentro e nem para sua ancestralidade. Somos pretos, mas somos múltiplos. Sobre Tim Maia, não há dúvidas do quão emocionante foi todo esse processo, desde o aprofundamento em sua história até as gravações. Ele, e seu jeito de ver a vida, bem como suas batalhas em relação às questões sociais, muitas delas violentas para com um homem preto e gordo, me inspiraram, me ajudaram na composição. Tim foi meu primeiro protagonista, e isso é algo que a gente leva para a vida toda.

Falar de racismo ainda é delicado em um país cheio de contradições como o Brasil e foi um assunto que você levantou durante sua participação no "BBB" e que também atingiu o público. Como você enfrentou as acusações de vitimismo ao sair da casa mais vigiada do Brasil?

Fui o participante que mais vezes foi para o paredão em 20 edições do "BBB". Isso é um fato. Esse lugar de vitimismo que tentam pôr os pretos e pretas é, simplesmente, um racismo cruel. As pessoas pretas são vítimas de um sistema perverso, que as coloca às margens da sociedade, que impõe violências diárias. E ainda temos que ouvir isso!

Ainda é pequena a quantidade de diretores negros no Brasil. Se falarmos de mulheres negras, a situação fica ainda mais complicada. O que falta para que finalmente vejamos produções negras por aí em abundância?

Precisamos contar histórias de pretos, narradas por pessoas pretas, dirigidas por pretos, com protagonistas pretos. Como eu disse, mais da metade da população brasileira é preta, mas a grande maioria das histórias são sobre coisas que não falam de nós, que não refletem a veracidade das nossas dores, muito menos nos colocam num lugar de exaltação, vigor, intelectualidade, realeza. Além disso, as crianças pretas precisam ter grandes aspirações, ser diretores, escritores, roteiristas… Essas crianças precisam ocupar esses espaços que são delas por direito. Falta mais incentivo, mais disposição em celebrar a pretitude.

Na sua visão, como o mercado tem impedido esse movimento de inserção do negro no universo do entretenimento?

Trabalhei com pouquíssimos diretores e roteiristas negros. Mas é sempre um grande prazer, porque me sinto acolhido, sem medo de ser eu mesmo, com mais vontade de ser ousado nos meus papéis. Por isso, sempre peço que tenham pessoas pretas na minha equipe. Porém, ainda me deparo com o argumento de que não encontraram essas pessoas. É um argumento frágil, ridículo, porque em uma rápida pesquisa você encontra muitos profissionais negros, em todos os seguimentos. Isso me deixa numa tristeza profunda e, com certeza, impede o movimento de fluir os trabalhos para os pretos, mas, claro, sabemos que há muitos com o desejo disso nunca fluir. Então a gente vai para luta com mais força!

*Estagiário sob a supervisão
de José Carlos Vieira

 

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