Relembre a trajetória de uma das cantoras mais marcantes do Brasil

O Correio relembra a trajetória de uma das cantoras mais marcantes da história da música popular brasileira

Naum Giló*Pedro Ibarra
postado em 21/01/2022 06:00
Elza Soares no Desfile das Escolas de Samba do Rio em 2020, homenageada pela Mocidade IIndependente de Padre Miguel -  (crédito: CARL DE SOUZA)
Elza Soares no Desfile das Escolas de Samba do Rio em 2020, homenageada pela Mocidade IIndependente de Padre Miguel - (crédito: CARL DE SOUZA)

Elza não tinha medo de ousar na sua música, sempre misturando ritmos e firmando parcerias com artistas de diferentes gerações. Em seu último álbum de estúdio, Planeta fome (2019), um dos destaques é a canção Libertação, com participação de BaianaSystem e Virgínia Rodrigues, e que integrou a trilha sonora da novela da Globo Amor de mãe. Na letra, Elza assume o seu lugar de mulher forte, bem como as protagonistas da trama de Manuela Dias. "Eu não vou sucumbir!", avisa a letra.

O nome do último disco da carreira de Elza Soares tinha um significado além da denúncia do problema da fome que assola uma parcela desprezada da população brasileira, da qual ela mesma fez parte. O início de sua vida foi marcado por muitas dificuldades causadas pela pobreza. Aos 12 anos, foi forçada a se casar. Aos 13, já havia perdido um filho e outro estava entre a vida e a morte. "Eu não tinha um tostão", lembrou Elza durante o Agency Women Leadership Day, evento promovido pelo Facebook.

A situação extrema a levou a se apresentar pela primeira vez em público, no programa de calouros de Ary Barroso, na Rádio Tupi. Ao ver a roupa da jovem toda improvisada com alfinetes, causando risadas na plateia, Barroso perguntou em tom de chacota: "De que planeta você veio, minha filha?". Todos os presentes riram mais ainda, mas a resposta pegou as pessoas de surpresa. "Do mesmo planeta que o senhor, seu Ary. Do planeta Fome". Ali, todos perceberam que o assunto era sério e se calaram para ouvi-la cantar Lama, uma canção forte de Paulo Marques e Ailce Chaves.

Grandes Sucessos

Elza Soares começou no samba, mas principalmente começou do nada. Nascida na favela Vila Vintém, no Rio de Janeiro, em 1930, Elza Soares ascendeu meteoricamente após a participação no programa de Ary Barroso e em 1960 já ganhava a vida com a música. O início da carreira foi no samba, se tornando o nome feminino mais proeminente da época no gênero. Em 1961, estava lançando o disco O samba é Elza Soares, nome que mostrava exatamente o que ela representava para a música brasileira na época.

Foi no samba que se criou e o gênero que mais explorou no início da carreira, mergulhando nos diversos estilos e nuances que o gênero traz. Elza, além de samba, também foi carnaval. Tendo sido convidada em 1969 para ser a primeira mulher a puxadora de samba na avenida de um desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Entoando o samba Bahia de todos os deuses, de Bala e Manuel Rosa, a cantora fez história no carnaval tendo sido a primeira a abrir as portas para que mulheres pudessem puxar sambas. Posteriormente, cantou para a escola que torcia, Mocidade Independente de Padre Miguel, além da Acadêmicos do Cubango, Estácio de Sá e União da Ilha. No último desfile da Sapucaí, em 2020, Elza foi homenageada pela Mocidade e atravessou a avenida em um trono como forma de representar toda a grandeza que tem para a cultura brasileira.

As dificuldades que Elza Soares viveu ao longo da vida são impressionantes. Desde a miséria que ameaçava a sua vida e a de seus filhos, até a violência cometida pelos maridos, ela nunca baixou a cabeça para as adversidades. Em 2018, durante uma entrevista no programa do Fábio Porchat, ela relembrou outro episódio de violência que sofreu, dessa vez por parte dos militares no período da ditadura (1964-1985), quando a casa onde morava com seu marido, Garrincha, e os filhos, no elegante bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, foi metralhada por agentes do regime. Nenhum deles se feriu, mas o piano que ficava na sala, onde estavam os filhos pequenos, ficou destruído. O atentado deixou Elza e Garrincha apavorados ao ponto de decidirem ir embora para a Itália, onde foram recebidos por Chico Buarque de Hollanda.

"Nós estávamos dentro da casa (na hora do ataque). Eu morava no Jardim Botânico e brincava com as crianças na rua. Depois, entramos e começamos a ouvir um barulho de tiroteio. Minha casa foi toda baleada. Fiquei completamente apavorada por causa dos filhos, das crianças. Eu tinha um piano na sala, e o piano foi aberto no meio", relembrou a cantora.

Em 2015, Elza Soares ganha um novo caráter ao conquistar os jovens do país com o lançamento do disco Mulher do fim do mundo. Entoando os versos: "Eu quero cantar até o fim/Me deixem cantar até o fim/Até o fim eu vou cantar/Eu vou cantar até o fim/Eu sou mulher do fim do mundo/Eu vou, eu vou, eu vou cantar, me deixem cantar até o fim", a artista deu o recado para o público que jamais seria calada e recebeu o reconhecimento por esse feito histórico com um disco que discute racismo, feminicídio e machismo, lembrado em listas de melhores do ano dos veículos internacionais The New York Times e Pitchfork e tendo conquistado o Grammy Latino de Melhor disco de música popular brasileira também.

Pouco depois, em 2018, a cantora recebeu uma grande homenagem em forma de musical: Elza. Premiada, a produção retrata a vida e carreira da artista passando, principalmente, pelas alegrias da trajetória do ícone da música brasileira. Larissa Luz assinou a direção e protagonizou uma das fases de Soares, que ganhou também interpretações de outras atrizes durante o espetáculo. A última temporada da peça foi feita de forma virtual em 2021, em junho, mês da comemoração do aniversário de 91 anos da estrela.

Ainda em 2018, Elza Soares lançou o disco Deus é mulher, que foi sucedido pelo último lançamento, Planeta fome, em 2019. A cantora seguiu até o final cantando e lutando pelo que acreditava. Consolidada como uma figura que representou a obstinação, a luta, o foco e a coragem, mas sobretudo milhões de brasileiros que queriam ter suas vozes ouvidas por um país que não os dava oportunidades. Elza Soares, como ela mesmo dizia, cantou até o fim para que tantos outros conseguissem encontrar no timbre metálico da cantora um lugar no tão injusto Brasil em que estavam inseridos.

 

*Estagiário sob a supervisão de José Carlos Vieira

 

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  • Elza em registro de 1985
    Elza em registro de 1985 Foto: Joaquim Firmino/CB/D.A Press
  • Na Sapucaí em 1985
    Na Sapucaí em 1985 Foto: Joaquim Firmino/CB/D.A Press
  • Elza Soares em Brasília
    Elza Soares em Brasília Foto: Antonio Pullgás/CB/D.A Press
  • Na inauguração do Estádio Mané Garrincha
    Na inauguração do Estádio Mané Garrincha Foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press
  • Elza Soares em show no Rock in Rio 2017
    Elza Soares em show no Rock in Rio 2017 Foto: MAURO PIMENTEL

"Não gosto da palavra saudade"

 (crédito: Stèphane Munnier/Divulgação)
crédito: Stèphane Munnier/Divulgação

»José Carlos Vieira

Numa tarde de outubro de 2009, Elza Soares atendeu a reportagem do Correio para uma entrevista, que foi publicada no segundo domingo daquele mês. O bate-papo por telefone durou 45 minutos e permanece atual, como se fosse feita agora. Alegre e dona si, Elza falou dos amores do orgulho de ser mulher negra e das lembranças que tinha de Brasília, dos encontros com Juscelino Kubitschek e com Louis Armstrong, entre outros temas. Nunca esteve nem aí para o que as pessoas falavam. "Não tenho medo de nada. Só tenho medo de ter medo", dizia, com a voz rouca e inconfundível, cheia de humor. Elza Soares, a cantora do milênio, título dado pela BBC de Londres, conversou com o Correio e falou das coisas que pensa. Confira trechos.

O ensaísta e compositor José Miguel Wisnik disse que você canta como se cada sílaba fosse um parto. Como você analisa essa declaração amorosa?

Eu acho que comecei a tirar o parto muito cedo e eu sei o que é um parto: ao mesmo tempo dor e carinho. E quando canto, eu canto o amor.

Diga uma coisa boa que
marcou sua vida...

Dinheiro para matar
a fome e filhos.

Agora uma ruim...

Perder um filho e ter de sair do meu país.

Foi na Copa do Mundo, eu fui madrinha da Seleção Brasileira e o conheci nos eventos da Copa. Quando o vi, achei que fosse o Monsueto. Para mim, ele é a cara do Monsueto (o sambista é autor de clássicos como A fonte secou e Mora na filosofia). E me perguntei: o que o Monsueto está fazendo aqui, meu Deus do céu? (risos) Louis Armstrong era uma simpatia, usava muitos lenços de linho branco nas mãos, um sorriso lindo.

Como você o encantou?

Foi pela voz rouca. O que mais o assustou foi que eu fazia as minhas frases musicais roucas e em seguida voltava ao normal. Disse que nunca tinha visto aquilo. Armstrong pensava que eu falava rouco e cantava rouco igual a ele. Para ele, era impossível fazer aquela voz rouca e em seguida voltar falando ao normal. Isso o encantou. Eu senti ainda a ciumeira da cantora dele, da crooner que estava com a banda de Armstrong. Ela me olhava assim como quem dizia: "Lá vem mais uma para tomar o meu lugar (risos). A mulher ficava danada da vida.

E teve essa possibilidade?

Teve. Ele me chamou para ir com a banda para a Geórgia (EUA).

E por que você não foi?

Eu tinha meus filhos. Apesar de ser menina, com cara de criança, eu era uma mãe. Não podia sair do Brasil. Não sabia nada da vida, as coisas eram muito difíceis. E hoje entendo que a vida é a vida que se leva, que a gente tem de apanhar muito para crescer. Se soubesse naquele dia o que sei agora, como dizia Dolores Duran, eu iria.

Defina Garrincha em uma palavra.

Alegria.

Jazz ou samba?

Os dois. Amo os dois. Um, eu amo muito, porque nasci dentro dele. O outro, porque me fascina. Os dois são negros.

Elza Garrincha

 (crédito: Arquivo O Jornal/JCom/D.A Press)
crédito: Arquivo O Jornal/JCom/D.A Press

Um grande amor em uma conturbada relação: é dessa forma que pode ser classificado o relacionamento de 17 anos entre Elza Soares e Mané Garrincha. O jogador de futebol, bicampeão do mundo pela Seleção Brasileira e ídolo do Botafogo, terminou um casamento para ficar com a cantora, que se referia a ele como "marido da Elza Soares". Os dois tiveram altos e baixos durante todo o relacionamento, principalmente devido ao alcoolismo do futebolista. Em 1976, tiveram um filho, Manoel Francisco dos Santos Júnior, o Garrinchinha, que morreu aos 9 anos em um acidente de carro. Em 1983, Garrincha morreu, no mesmo dia 20 de janeiro em que Elza também se despede do Brasil em 2022. "Como prometido em sua música, ela cantou até o fim. Elza se despede hoje, coincidentemente no mesmo dia 20 de janeiro em que Mané também nos deixou. Uma lenda da nossa música, histórica, genuína, ímpar e inigualável. Hoje ela nos deixa, mas no coração, ela sempre será eterna", escreveu Pelé, eterno parceiro de campo de Garrincha, sobre a morte de Elza Soares.

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