Música

Baco Exu do Blues imprime os próprios sentimentos no novo disco

Baco Exu do Blues lança 'Quantas vezes você já foi amado?' e fala ao Correio sobre o processo deste álbum que alcançou a marca de quinto mais escutado do mundo

Pedro Ibarra
postado em 07/02/2022 07:16 / atualizado em 07/02/2022 13:45
 (crédito:  Roncca/Divulgação)
(crédito: Roncca/Divulgação)

Em um processo de reencontro com o público mas também de falar o que sente, o rapper baiano Baco Exu Blues está de volta aos streamings. O cantor, natural de Salvador, apresentou ao mundo o disco Quantas vezes você já foi amado?, terceiro trabalho de estúdio da carreira. O álbum tem 12 faixas que transitam pelos tormentos internos do músico, conhecido por unir relevância social com temas do cotidiano, no intuito de, por meio das canções, questionar o significado do amor e do afeto para o ouvinte.

O rapper de 26 anos é um dos principais fenômenos da música brasileira dos últimos anos. Tendo se lançado na música em 2016, mas conquistando relevância em 2017 com o primeiro disco, Esú, Baco Exu do Blues começou a ver as casas de shows lotadas a partir de 2018, quando apresentou ao mundo o álbum Bluesman, trabalho que o transformou no artista de rap que mais acumula prêmios na atual cena. Nos últimos três anos, lançou o EP Não tem bacanal na quarentena, mas se manteve distante dos palcos, principalmente por conta da pandemia. Com o lançamento de Quantas vezes você já foi amado?, ou QVVJFA? na sigla como o disco foi conhecido, o rapper pretende não só voltar aos shows, como também colocar para fora tudo que estava entalado na garganta durante esse tempo que se manteve distante.

"Eu faço música para mim. É o lugar que eu uso como terapia, não que eu não faça terapia, eu faço, mas antes de qualquer coisa chegar na minha terapeuta, chega na minha música primeiro", conta Baco sobre o próprio processo que encontrou para escrever os próprios álbuns. "É minha válvula de escape real, o lugar que eu falo as coisas que eu tenho vergonha de falar, as coisas que não conseguiria expressar em um papo aberto até alguém ouvir no meu som e me questionar sobre", adiciona o artista.

O mesmo processo que o cantor passa ao compor, ele tenta transmitir para o público. "Todos os meus álbuns eu estudo muito. Eu vejo cada um deles como um TCC. Nunca fiz faculdade, mas imagino que seja mais ou menos dessa forma", brinca o músico. "O que eu estudei de psicologia e psicanálise para fazer o novo disco não está no papel. Eu tomei muito cuidado para ter certeza que tudo que eu estava falando ali não ia destruir a mente de uma pessoa de uma forma irresponsável", complementa o artista.

O cantor está ciente da responsabilidade em  razão do alcance que tem. QVVJFA? foi o quinto disco mais ouvido no mundo na semana que estreou e bateu o recorde do Spotify de álbum brasileiro mais ouvido em 24 horas com mais de 2 milhões de reproduções. "É um tema muito delicado, então eu tenho que ter muito cuidado. Eu sou responsável por aquilo que as pessoas sentem ouvindo a minha música. Não posso só jogar lá e falar que não estou nem aí para o que as pessoas sentiram ou falar: 'lidem com isso'", explica Exu do Blues

O sentimento que propôs no álbum, Baco também quer transmitir nos shows. "Nos shows,  entendo o sentimento mais puro que eu trago com a música para as pessoas e não tem coisa mais linda que isso. Não é sobre o tamanho que eu tenho, mas sim o quanto eu consigo afetar a vida das pessoas", explica o músico. "Quando faço música, eu quero que as pessoas sintam. Se for para chorar, chore muito; se for para sentir raiva, sinta muito e saia revigorado daquilo", complementa o artista, que acredita que o trabalho terapêutico que sente com as próprias canções também chega ao público. "Da mesma forma que a música me trata, quero que trate os outros também", finaliza.

Por mais que todo esse sentimento de amor e afeto seja questionado e transmitido pelo disco, Baco não está dando uma resposta para pergunta que fez no título, afinal ele não pode falar sobre uma coisa que não sabe. "Enquanto não me traduzirem o amor da forma certa e correta e me explicarem o que é o amor sem ser o amor católico, vai ser difícil te responder quantas vezes eu já fui amado", pontua.

Jovem, preto e rico

Baco Exu do Blues também se autointitula jovem, preto e rico, frase que virou título de música no EP lançado 2020. Porém, ele fez questão de relembrar no novo disco que o dinheiro não mudou quem ele é; "Fiz milhões e continuei negro", canta o rapper em Sinto tanta raiva…, faixa que abre Quantas vezes você já foi amado?. "Existe uma temática muito louca de que o dinheiro é um agente embranquecedor. Eu não me sinto diferente, muito menos branco por estar fazendo dinheiro, me sinto feliz e contente por fazer dinheiro e, principalmente, pelo acesso às outras coisas que o dinheiro dá", analisa o cantor.

"Vejo muita molecadinha falando que o Baco está fazendo som para playboy branco. Porém, é o que  sempre falo, não conheço nenhum playboy que se pareca comigo e eu to falando de mim", afirma Baco. "Não tem um playboy que ande como eu ando, que fala como eu falo o que se porte como eu me porto ou que tenha a minha aparência.Pelo menos não conheço, se alguém conhecer que me apresente, por favor", continua.

O músico acredita que está inserido em um mundo em que o privilégio branco sempre falará mais alto. E, pelo fato de ter nascido negro, passará sempre pelos problemas que o racismo estrutural impõe. "Tratamentos e olhares não mudaram em nada pelo fato de que eu tenho uma outra condição financeira. Afinal, não é todo mundo que sabe que eu tô com medo de mim", completa.

Contudo, Baco vê que há um movimento de retomada, ainda muito inicial, mas que mostra que há esperança de que o espaço de poder seja ocupado por pessoas diferentes das que lá estão. "Eu acho doido que por mais a gente esteja vendo pessoas negras no poder, ainda me parece muito pouco quando a gente vai pensar na ocupação de grandes marcas, agências, produtoras, em tudo", reflete o rapper, que acredita que para conseguir mais é necessário parar de pedir aceitação e começar a ocupar os espaços. "A movimentação de rotular isso ou aquilo como coisa de branco, de ir expulsando traz o questionamento: Vocês querem que eu seja dono de que? Tudo é para os caras e a gente tem que ficar só com o resto? A gente só tem sempre duas opções música ou esporte, até quando vai ser isso?", questiona Baco.

 

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