Música

Beyoncé cai na pista de dança e movimenta a indústria em 'Renaissance'

Beyoncé mergulha em ritmos dançantes em um disco inclusivo e radiofônico e, mais uma vez, é capaz de mudar o curso da música pop atual, leia a crítica

A Beyoncé continua com a capacidade de mudar o jogo. A cantora, que não lançava nenhum álbum solo desde 2016, apresentou nesta sexta-feira (29/7) Renaissance, o nono trabalho de estúdio da carreira. Um disco com alto potencial de sucesso, devolve a diva ao pop que a transformou em uma entidade e mostra que ela não entra nunca no jogo para brincar. Beyoncé quer fazer mais uma reviravolta na música popular contemporânea.

Com 16 faixas e 1h02 de duração, o lançamento da Queen B é muito diferente dos espaços que ela andou explorando nos últimos anos. O disco explora gêneros da música eletrônica nas bases, com canções que facilmente vão embalar bailes de vogue em todo o mundo. É um conjunto de músicas dançantes por propósito envelopado por uma estética que casa muito bem com o conceito proposto.

Do house a flertes com tecno, com toques de ritmos de matriz africana e um pézinho que nunca sai do hip-hop e R&B, Beyoncé faz uma obra autêntica e diferente, sem soar experimental de forma presunçosa. Renaissance é um disco que, apesar de muito trabalhado e cheio de camadas, tem uma essência extremamente mercadológica. É uma porta que a cantora escancara para o que parece ser uma nova tendência do mercado musical.

Em junho, o público viu Drake rimar em cima do house, dando um vislumbre de que uma reviravolta aparecia no horizonte. O ritmo, que foi muito explorado nos anos 2000, chegaria junto com a estética e moda da época novamente à superfície do mainstream. Porém, o que o rapper fez não se aproxima nem um pouco da relevância que tem o trabalho da cantora.

Beyoncé evita usar um único ritmo do gênero como base. Ela dá a própria cara ao gênero. Assim como tudo que ela faz, existe um house antes de Beyoncé e outro depois de Beyoncé. Ela se apropria do ritmo e faz misturas inovadoras. Assim como Janis Joplin mudou o rock nos anos 1960, Beyoncé vem mudando o pop, por sua vez , por três décadas seguidas.

A cantora constrói o futuro enquanto vive o presente e olha para o passado. É possível ver referências de Marvin Gaye, Donna Summer e Diana Ross, somadas a beats que remetem à música africana ou ao trap. Bey consegue, em um disco coeso, viajar por vários momentos da própria trajetória e traçar o caminho do que vem pela frente. O álbum não parece uma continuação do que fez, mas leva nele pílulas de tudo que passou. Nele está contidas as ideias espalhadas por todos os álbuns, do primeiro, Dangerously in love, ao mais recente e aclamado Lemonade. Tudo isso com cara de que você nunca ouviu nada parecido antes.

Nos temas, a artista vai atrás da diversidade, da própria visão de negritude.Ela faz um álbum, que mesmo nem sempre no comentado “local de fala”, dialoga com o público que a ela é fiel. Sem contar uma história só como em discos anteriores ela transmite uma mensagem poderosa de auto-aceitação e de abraçar a diferença. Ela ainda dedica o trabalho ao tio, que morreu em decorrência de complicações do HIV, em um relato poderoso da relação dela com a comunidade LGBTQIA+.

A diva já tinha dado a dica logo quando anunciou o trabalho. Renaissance em tradução direta para o português é renascimento. O foco do disco é de juntar punhados de todas as Beyoncés que o público amou durante esses quase 20 anos de carreira para formar uma só, renovada, Beyoncé. O disco é maduro como se esperava, inventivo como de costume, inovador como de praxe, mas vai além e parece mostrar que tudo que Bey fez antes foi para se preparar para esta fase que está agora. Renaissance abre uma já anunciada trilogia e a expectativa é de que nada pode impedir a Beyoncé de mudar o mundo.