Obituário

Morre Jean Luc Godard: 9 curiosidades sobre o homem que reinventou o cinema 

O cineasta franco-suíço ganhou fama no final dos anos 1950 como uma dos protagonistas do movimento francês conhecido como Nouvelle Vague

BBC
Thom Poole - BBC News
postado em 13/09/2022 11:10 / atualizado em 13/09/2022 11:11

Jean-Luc Godard, que morreu nesta terça-feira (13/09) aos 91 anos, foi um dos diretores mais influentes da história do cinema.

O cineasta franco-suíço ganhou fama no final dos anos 1950 como uma dos protagonistas do movimento francês conhecido como Nouvelle Vague, dirigindo dezenas de filmes em uma carreira que durou mais de meio século.

A seguir, confira nove curiosidades sobre Godard:

1. Ele mudou o cinema com uma garota e uma arma

Tudo o que você precisa para fazer um filme, escreveu Godard certa vez, é uma "garota e uma arma". Ele provou isso durante sua estreia em 1960, com Acossado.

A garota, Patricia, está envolvida com um criminoso, Michel, que está fugindo por ter atirado em um policial. Ela o trai, e a polícia o mata na rua.

Acossado lembra um drama policial, mas como em muitas de suas obras, o enredo era apenas uma moldura para Godard explorar a cultura, experimentar a imagem e analisar o próprio cinema.

Teve um impacto instantâneo, sendo aclamado e gerando um enorme lucro sobre seu parco orçamento.

Quase 60 anos depois, é amplamente reconhecido como um clássico — e sua força ainda surpreende.

2. Ele rompeu com a convenção

Um dos elementos mais radicais de Acossado foi o uso proeminente da técnica de edição conhecida como jump cut.

A produção cinematográfica antes e depois da estreia de Godard favorece em grande parte a edição suave para dar a ilusão de tempo contínuo.

Em contrapartida, em Acossado, Godard cortava a cena bruscamente, fazendo o tempo parecer saltar para a frente.

É desconcertante, como Godard certamente pretendia que fosse. No mínimo, prende a atenção do espectador, mas também foi interpretado como reflexo do tédio de Michel ou como uma tentativa de Godard de forçar seu público a refletir sobre a natureza do cinema.

Ao longo de sua carreira, Godard brincaria com a gramática da produção cinematográfica.

3. Ele reescreveu o roteiro

Tiveram outras inovações. Acossado foi filmado em locações, usando câmeras portáteis de mão, com Godard escrevendo o roteiro no dia e fornecendo as falas aos atores enquanto gravavam.

Esta foi outra ruptura com a tradição, diante dos filmes caros liderados por estúdios que dependiam de roteiros bem amarrados, grandes equipes e storyboards.

Jean-Luc Godard durante as filmagens do filme 'O Desprezo'
Getty Images
Godard concebeu novas formas de fazer cinema, mas eram uma dor de cabeça para os outros envolvidos

A técnica usada por Godard dá a Acossado uma grande espontaneidade e uma sensação de documentário.

Ele a usaria em muitos de seus filmes, enfurecendo as estrelas que chegavam ao set de filmagem ainda sem saber quais seriam suas falas.

Godard e seus contemporâneos da Nouvelle Vague viam os verdadeiros grandes filmes como aqueles carimbados com a visão do diretor — e que melhor maneira de controlar um filme se você está de fato criando à medida que acontece.

4. Ele era um grande cinéfilo

Godard pode ter sido um iconoclasta, mas veio de um lugar de profundo conhecimento e afeição pelo cinema.

Antes de se tornar diretor, ele era um ávido cinéfilo — às vezes, assistia ao mesmo filme várias vezes no mesmo dia nos clubes que ele e outras figuras da Nouvelle Vague frequentavam.

Como outras figuras da época, ele foi primeiro crítico, desenvolvendo suas ideias sobre o que ele achava que deveria ser o cinema que ele foi capaz de realizar na prática.

Seus filmes estão repletos de referências a outras obras e, mesmo quando ele buscava fazer o cinema avançar, ele não conseguia deixar de olhar para trás.

5. Ele continuou inovando

Acossado por si só teria garantido seu lugar na história do cinema, mas sua carreira foi prolífica. O site IMDB lista mais de 100 obras, entre curtas, documentários, séries de TV e mais de 40 longa-metragens.

A década de 1960 testemunhou seus trabalhos mais celebrados e amplamente assistidos — desde Uma Mulher É Uma Mulher (1961), que ele chamou de "musical neorrealista", até a ficção científica distópica Alphaville (1965) e a comédia de humor ácido Week-end à Francesa (1967), em que Emily Bronte é incendiada.

Jean-Luc Godard e Brigitte Bardot em um carro
Getty Images
Godard e Brigitte Bardot (à direita), que foi a protagonista de 'O Desprezo', filme de 1963

Depois de Week-end à Francesa, ele abraçou o radicalismo político, fazendo uma série de filmes com temas marxistas que culminou com Tudo Vai Bem (1972).

Nas décadas que se seguiram, ele recontou o nascimento virginal, provocando uma reclamação do então Papa João Paulo 2º (Eu Vos Saúdo, Maria), tentou e falhou em recrutar Richard Nixon como ator (Rei Lear) e lançou uma história pessoal épica do cinema (História(s) do cinema). Em 2014, já na casa dos 80 anos, lançou um filme experimental em 3D estrelado por seu cachorro Roxy (Adeus à Linguagem).

6. Ele botou o público para trabalhar

Não há como fugir disso — os filmes de Godard vão do desafiador ao quase incompreensível.

Ele teve sucesso comercial, mas trabalhos posteriores tiveram lançamentos limitados, apesar da adoração da crítica.

Godard era um leitor voraz, além de apaixonado pelo cinema — e o peso das referências pode ser desconcertante. Com apenas 70 minutos de duração, Adeus à Linguagem, por exemplo, está repleto referências ao pintor abstrato Nicolas de Staël, ao autor modernista americano William Faulkner e ao matemático Laurent Schwartz.

Também está em cena uma das influências mais importantes de Godard, o dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

Brecht queria que seu público permanecesse criticamente engajado em sua obra e, por isso, empregou vários métodos para desestabilizá-lo e lembrá-lo de que está assistindo a algo artificial.

Vários dos filmes de Godard usam artifícios brechtianos, como A Chinesa (1967), que inclui legendas lúgubres e atores quebrando a chamada "quarta parede", com Godard deixando até a claquete no início das cenas.

7. Ele se colocou em sua arte

Em muitas de suas obras, o protagonista pode ser visto como um representante do próprio Godard.

Em O Desprezo (1963), Michel Piccoli interpreta um dramaturgo francês encarregado de retrabalhar uma adaptação cinematográfica de Ulisses.

O filme explora as tensões entre mercantilismo e criatividade e retrata um casamento em ruínas, inspirado na relação de Godard com Anna Karina, a estrela de vários de seus filmes.

Jean-Luc Godard com Anne Wiazemsky
Getty Images
Godard com Anne Wiazemsky, sua ex-mulher e estrela de vários de seus filmes

Os personagens no filme são muitas vezes um porta-voz para ele próprio, mas em anos posteriores ele se tornou um elemento dos seus filmes.

Em 1995, lançou o autobiográfico JLG/JLG - Autorretrato de Dezembro, e seus ensaios apresentam sua própria voz, mais recentemente Imagem e Palavra (2018).

Uma resenha do crítico americano Roger Ebert sobre Godard o descreveu em 1969 como "profundamente dentro de seu próprio universo", uma boa explicação de por que os filmes de Godard podem ser tão distintos e tão frustrantes.

8. Ele podia ser um 'merda' às vezes

Não injustificadamente Godard tinha a reputação de ser difícil tanto pessoal quanto profissionalmente.

Seus dois casamentos, primeiro com Anna Karina e depois com Anne Wiazemsky, foram tempestuosos, algo que transbordou em seus filmes.

Irritado com a edição feita pelo produtor Iain Quarrier de seu documentário dos Rolling Stones, Sympathy for the Devil (1968), Godard deu um soco na cara dele quando o filme foi exibido em Londres.

Grupo de rock Rolling Stones durante as filmagens de 'Sympathy For the Devil'
Getty Images
As filmagens de 'Sympathy For the Devil', também conhecido como 'One Plus One'

Houve uma briga extraordinária com seu amigo, outro grande diretor da Nouvelle Vague, François Truffaut.

Em 1973, Godard escreveu para Truffaut atacando seu último filme, A Noite Americana, e pedindo financiamento para dar uma resposta. Truffaut escreveu uma resposta furiosa, acusando Godard de se comportar "como um merda" e listando anos de má conduta de Godard. Sem surpresa, Truffaut se recusou a pagar pelo filme de Godard. O relacionamento da dupla nunca se recuperou.

Mas a colaboração também foi uma parte importante de sua carreira.

Seus primeiros filmes não seriam os mesmos sem Karina ou Wiazemsky, tampouco sem Jean-Paul Belmondo

Ele estabeleceu uma estreita parceria com o pensador de esquerda Jean-Pierre Gorin e o diretor de fotografia Raoul Coutard, que disse: "Ele pode ser um merda... mas é um gênio".

Desde a década de 1970, sua colaboradora mais importante era sua parceira de vida, a cineasta suíça Anne-Marie Miéville.

9. Mas ele também foi uma inspiração

As indústrias cinematográficas de todo o mundo viveram suas próprias Nouvelle Vagues. A Nouvelle Vague americana nos deu obras como Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Bala, Chinatown e Tubarão.

O trabalho de Godard — seja pessoal, experimental, político ou todos os três — teve um impacto enorme.

O diretor americano Quentin Tarantino chamou sua produtora de A Band Apart, uma referência ao filme de Godard Bando à Parte (1963). O diretor italiano Bernardo Bertolucci incluiu uma homenagem a ele em seu filme Os Sonhadores.

A influência de Godard pode ser vista na ambiguidade entre documentário e ficção do diretor iraniano Abbas Kiarostami ou na obra tematicamente e formalmente provocativa do dinamarquês Lars Von Trier.

Quatro filmes de Godard fizeram parte da lista dos 50 melhores filmes de todos os tempos da revista de cinema britânica Sight and Sound — Acossado, O Desprezo, O Demônio das Onze Horas e História(s) do cinema.

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