Música

Ana Cañas traz a Brasília último show de turnê dedicada a Belchior

Ana Cañas faz última passagem por Brasília com a turnê em que canta os sucessos do rapaz latino americano

Ana Cañas: 
mais de 180 shows 
com sucesso 
de público e 
de crítica -  (crédito: Flávio Charchar/Divulgação)
Ana Cañas: mais de 180 shows com sucesso de público e de crítica - (crédito: Flávio Charchar/Divulgação)
postado em 03/04/2024 10:41 / atualizado em 03/04/2024 10:50

"Viver é melhor que sonhar." Em 1976, esse verso era cantado ao mundo por Elis Regina na eterna composição de Belchior Como nossos pais. Ana Cañas levou o verso ao pé da letra, assim como tantos outros de Belchior nos últimos anos, e agora vive o sonho de interpretar as canções do cearense pelo Brasil. Nesta sexta-feira (5/4), ela fará o último show em Brasília da turnê Ana Cañas canta Belchior, experimenta  esse intenso amor e uma forte despedida.

Foram quatro anos tocando o repertório, desses, dois anos e meio em turnê apenas com o repertório de Belchior. Mais de 180 shows de sucesso com o público e aclamação da crítica, visto que em 2022 venceu o importante prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de Melhor show do ano. Ana Cañas ainda desenvolveu uma relação próxima com os filhos do cantor e é intérprete de uma das últimas músicas inéditas do compositor, Um rolê no céu, gravada em 2023 em um DVD ao vivo na cidade natal do músico, Sobral , no Ceará. "Belchior mudou minha vida", avalia a artista, em entrevista ao Correio.

A cantora aponta que foi profunda a alteração que sentiu no dia a dia pessoal. Porém, no profissional, viveu uma reviravolta quando decidiu, em 2020, transformar um amor que desenvolveu pela obra de Belchior em uma live. "Tudo mudou graças a ele, desde a parte da própria carreira, na qual eu consegui chegar a muitos lugares que eu nunca cheguei, com os meus projetos autorais. Até a um aspecto pragmático do business da música. Eu aprendi muito sobre o mercado da música brasileira", conta a cantora.

A ideia de tocar o projeto veio em um momento em que tudo estava difícil para Ana. Na pandemia, ela não tinha fonte de renda e a live foi uma forma de tentar ganhar dinheiro para se sustentar na música. "Sempre quando achei que ia desistir, a vida me trouxe uma opção. Deu tudo errado agora, mas aparece uma luz no fim do túnel e faz 20 anos que é assim", revela a cantora, que teve uma vida muito difícil e relata algumas dessas situações durante o show em uma relação de confidência com público e Belchior. "Belchior me ensina a olhar pra trás e falar: 'Cara, você é isso, você veio daí, olhe para isso, tenha orgulho disso'", comenta.

Belchior reacendeu o desejo que a cantora sentia dentro da música. "Belchior me deu uma esperança na perenidade da canção e na força da poesia. Vi que existe um público afim de uma experiência com outras camadas, de lágrimas e de participação", reflete. O desafio de lidar com o público de um cantor memorável também a fez ter ainda mais ímpeto. "Belchior não tem um público, tem um culto. Todo mundo é aficcionado por ele. Fiquei numa berlinda de responsabilidade muito maior, o que me fez evoluir, essa pressão me fez crescer artisticamente até apontando para projetos futuros que eu já estou trabalhando", conta Ana. "Eu já vejo os resultados práticos dos ensinamentos belchioranos na minha existência. Então, realmente o Belchior mudou mesmo a minha trajetória existencial", completa.

Um pai musical

A cantora teve a primeira grande guinada na carreira após uma série de shows que fazia no Baretto, um bar no Hotel Fasano em São Paulo muito frequentado pela classe artística. Há quase 20 anos, acompanhada do virtuoso pianista Mário Edson, Ana Cañas fez um show muito popular em que cantava os grandes nomes do blues, do jazz e da MPB. Foi a partir desse show que desenvolveu uma carreira autoral, assinou o primeiro contrato e teve mais oportunidades.

Ana faz um paralelo entre duas fases muito distintas da própria trajetória. Atualmente, ela vive um grande momento também como intérprete, dessa vez exclusivamente de Belchior. Para ela, essa relação com a interpretação e com grandes artistas homens, mais velhos do que ela, traz algo diferente. "Como eu perdi meu pai cedo, acho que quando desenvolvo uma relação de paternidade, me parece que alguma coisa acontece mágica. Precisaria fazer terapia ou estudar psicanálise para entender melhor, mas eu acho que o Belchior tem um lugar meio paternal artístico, assim como o Ney Matogrosso e Mário Edson."

Na etapa que segue na carreira, ela pretende se desprender dessas figuras paternas e fazer algo com a própria cara, em vez de distribuir o DNA de canto em outras obras. "Eu tenho um novo desafio, que é retomar o autoral, tentando praticar essa mágica que acontece nos momentos de intérprete."

O novo vem

"Se tem uma coisa que Belchior me ensinou é que o novo sempre vem", diz Ana em referência a um dos versos da composição Como nossos pais, feita por Belchior e muito popularizada por Elis Regina. A cantora já pensa e vive o futuro, graças a tudo que conseguiu com a turnê que encerra em maio no Rio de Janeiro. "Quando eu fiz aquela live, não imaginei que nada disso ia acontecer. Agora, graças a esse processo, estou fazendo um novo disco, com um novo empresário e um novo produtor. Estou muito feliz, gravando canções que eu escrevi ao longo de toda a minha vida, que nunca tive coragem de gravar", conta.

Ana entende que os ciclos acabam e que chegou a hora de buscar coisas novas. "Tenho um desejo, um anseio por me desafiar novamente de ver se eu consigo avançar na minha história, no sentido de usar esses aprendizados para um próximo projeto, se eles vão funcionar. Eu sou uma pessoa que não se acomoda", diz a cantora que se prepara para mergulhar com coragem em um futuro que não consegue prever. "Vamos em frente, eu vou fazer um disco radical, como eu nunca fiz antes. Falando de muitas dores, de muitos amores, amores não vividos, colocando muita verdade. Todas as canções que eu estou gravando são histórias da minha vida. Afinal de contas, o que é o Belchior? Se não, as histórias da vida dele", antecipa

No entanto, o rapaz latino americano sempre morará no coração da cantora paulista, por mais que tudo mude após esses quatro anos de relação próxima dessas duas obras e carreiras. "O Belchior sempre vai fazer parte da minha vida. Em um próximo show meu, haverá uma ou duas músicas dele, com certeza. As pessoas já ligam até o meu nome ao dele", pontua a cantora. Ana Cañas terá Belchior sempre como um guru, um amigo que nunca conheceu. "Eu acho que vou ter muita saudade desta época".

 


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