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No ar em série de terror, Gustavo Vaz reflete sobre as relações humanas

O ator carioca premiado Gustavo Vaz detalha sua participação na série "Reencarne", do Globoplay, e comenta sobre a reflexão social que embala os projetos que tem no cinema e no teatro. "Estamos perdendo tempo de amor, de escuta, de troca", avalia

O ator, dramaturgo e criador multimídia Gustavo Vaz, com 21 anos de carreira, vive um momento de efervescência artística, transitando com fluidez entre o streaming, o cinema e o teatro. O carioca detalha a experiência de protagonizar a nova e arrojada série de terror da Globoplay, Reencarne, e revela a relevância social de seus próximos projetos no cinema e nos palcos.

Em Reencarne, Gustavo Vaz dá vida a Ricardo, o companheiro da protagonista Bárbara Lopes (Taís Araújo), um pai dedicado à filha Bela (Júlia Reis) e que se sente confortável na inversão de papéis, cuidando da casa. No entanto, o novo caso policial assumido por Bárbara traz experiências perturbadoras que invadem a rotina familiar, tornando a linha entre o sobrenatural e a realidade cada vez mais tênue.

Gustavo confessa que a temática de terror o intrigou, já que é um gênero pouco explorado no audiovisual brasileiro, e gerou dúvidas sobre a abordagem na interpretação. Sua experiência, contudo, revelou uma chave importante para a atuação: "Descobrimos que o invólucro da obra é o terror — mas o conteúdo, o coração da série, são as relações humanas. A atuação cria identificação, mas é esse diálogo entre interpretação e técnica que faz a série alcançar o tom que ela propõe", defende o ator.

Uma coincidência da vida real intensificou sua conexão com o personagem: a descoberta de que se tornaria pai durante a preparação para a série. "Estava me preparando para viver um personagem profundamente dedicado à paternidade e, ao mesmo tempo, atravessava uma transformação enorme na minha vida pessoal. De alguma forma, o Ricardo que aparece na tela também é um espelhamento desse meu momento de descoberta...", conta ele, que é conhecido no audiovisual por trabalhos em Coisa mais linda e Só se for por amor, ambas da Netflix; Os homens são de Marte..., no GNT; e Aruanas, da Globoplay.

Caio Oviedo - Gustavo Vaz, ator

O ator aponta que o conflito de Ricardo, dividido entre a dedicação familiar e a ausência da parceira consumida pelo trabalho, ecoa uma crise social mais ampla: a produtividade que nos consome. "O que nos define, no fundo, é quem somos para além — e apesar — do trabalho. E acho que o desconforto do Ricardo... toca num ponto central da nossa época: estamos perdendo tempo de amor, de escuta, de troca — que é justamente o que dá sentido à experiência humana."

Sobre a parceria com Taís Araújo, a segunda após a série Aruanas, Gustavo Vaz é categórico: "Ela tem uma trajetória linda... e sempre que estou com ela — além de me divertir — eu aprendo alguma coisa... Trabalhar com a Taís é muito especial porque cada take com ela é realmente novo, fresco. Ela renova a cena a cada repetição, e isso contagia todo mundo ao redor."

Mesmo não sendo um fã confesso de terror, o ator recomenda a série, garantindo que Reencarne é "arrojada, arriscada" e que o resultado de fotografia, direção e roteiro é de "primeiro nível".

Cinema e teatro

Além do streaming, Gustavo Vaz tem dois projetos importantes engatilhados. O ator retorna aos sets de cinema após 2020 para filmar Justino, sob a direção de José Eduardo Belmonte, na Bahia, no mês de novembro. "Eu estava há muito tempo longe do cinema, então estou felicíssimo de voltar e trabalhar nesse projeto com o José Eduardo Belmonte, um cineasta que eu admiro e sempre quis estar junto."

Em Justino, inspirado no livro Em busca do reino, o ator interpretará um pastor evangélico que tem sua fé confrontada ao ver a igreja operar também como empresa. Gustavo Vaz destaca a urgência do debate proposto pelo filme: "Falar sobre a aproximação entre fé e política é urgente. Vivemos a corrosão do pacto republicano que sustenta o Estado laico... Quando uma religião se impõe politicamente sobre uma sociedade múltipla, isso traz danos profundos à democracia."

Ele defende que o filme "olha para o passado" (décadas de 80 e 90) para "iluminar o presente e imaginar futuros em que a fé seja preservada como busca de sentido, e não como ferramenta de manipulação política."

Nos palcos, o vencedor de importantes prêmios como o Shell e o Cesgranrio (por Tom na fazenda, além da indicação ao Prêmio APTR) retomou a segunda temporada de Terminal, espetáculo que ele mesmo escreveu e estrela ao lado de Kelzy Ecard. O texto nasceu de uma "inquietação antiga": como lidar com a noção de verdade na era das deepfakes e discursos autoritários? "Vivemos hiperconectados, mas com pouca capacidade real de escuta. Terminal é, no fundo, uma reflexão sobre nosso desejo de conexão e sobre o desafio de abrir mão das próprias verdades para construir algo comum", argumenta Gustavo.

O próximo desafio

Por fim, Gustavo Vaz revela o início da escrita de seu primeiro monólogo, um processo que o instiga a explorar um lado autoral mais solitário no palco e que deve estrear entre 2027 e 2028. O novo projeto será desenvolvido na ExCompanhia, grupo que ele fundou e dirige, e trará uma reflexão profundamente contemporânea. "O que mais me provoca é o surgimento recente da inteligência artificial e seus impactos — simbólicos e concretos — nas relações humanas. Também pretendo olhar para a crise ambiental e para como essas forças moldam nossa existência no contemporâneo", finaliza o carioca, que também é autor do romance Como não morrer de uma só vez, lançado em 2023.

 


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