
Autor, roteirista, diretor, pesquisador e articulador de histórias que desafiam o imaginário hegemônico, Elisio Lopes Jr. construiu, em poucos anos, uma trajetória que une profundidade teórica, coragem estética e um compromisso visceral com a humanidade de seus personagens. Coautor da série Reencarne, já disponível no Globoplay, e da próxima novela das seis da TV Globo, A nobreza do amor, ele é também o responsável pela adaptação teatral do clássico Torto Arado, que chega a Brasília neste fim de semana em versão musical — um feito artístico que sintetiza o alcance e a ousadia de sua obra.
Elisio fala com a firmeza de quem sabe que criar, para um autor negro, é sempre também um gesto político. Mas sua política nasce da sensibilidade. Em Reencarne, série que navega pelo terror e pelo suspense, ele conta que o medo existe, sim — mas o que sustenta a trama é outra camada, “uma discussão importante sobre identidade”. A série pergunta quem somos quando nosso corpo muda, o que permanece quando o rosto não coincide com a memória, e até que ponto o amor resiste ao deslocamento da matéria. Esses dilemas existenciais desaguam em melodrama, não em artifício. Há susto, mas há vida.
O Cerrado — quente, seco, amplo — tornou-se cenário não por acaso. O roteiro queria o indivíduo no centro da paisagem, e poucas geografias brasileiras dão tanto destaque ao sujeito quanto a vastidão avermelhada da região. A paisagem, diz Elisio, transforma-se em personagem. A série só assusta porque, antes, emociona.
Princesa preta
O mesmo raciocínio orienta sua chegada à novela A nobreza do amor. Depois de ter sido o primeiro autor negro a assinar uma novela como titular na Globo, com Amor perfeito, Elisio retorna agora como parte de um trio criativo ao lado de Duca Rachid e Julio Fischer. E repete que representatividade não se faz só com imagem. Ele quer mudar o campo simbólico, alterar a percepção do público sobre quem são os protagonistas possíveis das grandes histórias brasileiras.
É nesse gesto que surge a decisão de colocar na tela “uma princesa negra e africana” — papel que será defendido por Duda Santos — como centro da narrativa. O enredo, que desenha uma ponte ficcional entre o continente africano e o Nordeste brasileiro, toma como ponto de partida rotas marcadas pela dor da colonização para reinventá-las como palco de um amor pleno, vivido por um casal preto com final feliz. O gesto é simples e revolucionário: “Ser amado e ter final feliz é transformador”.
Essa revolução se sustenta em técnica e afeto. Para ele, humanizar personagens pretos significa dar-lhes passado, família, complexidade — algo que por décadas não lhes foi concedido. “Ninguém acorda com o objetivo de sofrer racismo”, diz. O personagem precisa ter vida, não função; sonhos, não apenas feridas.
Laços ancestrais
No teatro, a sensibilidade se aprofunda. Adaptar Torto Arado, romance de Itamar Vieira Junior, para musical parecia impossível — até que não foi. A decisão mais decisiva, afirma o autor, foi escolher uma perspectiva: a da ancestralidade feminina. Ao juntar Donana, a avó, e as irmãs que protagonizam o livro, Elisio construiu um fio narrativo que ilumina como as vidas de uma geração alimentam e determinam as próximas.
A pergunta que o guiou — “onde eu estou nessa história?” — levou-o a buscar sua própria família. O desejo por um teto, tão urgente para os personagens do romance, ecoa na lembrança de seus pais, primeiros de suas linhagens a conquistarem casa própria. Essa experiência comum, quase universal, tornou-se ponte entre o texto literário e o espetáculo.
No musical, que cumpre temporada no Sesc Ceilândia desta sexta-feira (21/11) a domingo (23/11), a ancestralidade vibra também na música. Jarbas Bitencourt, coautor das composições, trabalhou lado a lado com Elisio, Aldri Anunciação e Espírito Santo, criando canções que não apenas ilustram a cena, mas estruturam o sentido profundo do espetáculo. O canto, a imagem, o gesto — tudo se amarra em um laço que toca plateias de diferentes gerações em todo o país.
"Elas podem tudo"
Em suas histórias, as mulheres surgem como figuras de imensa potência — e não é coincidência. Ele enxerga nelas complexidade, curiosidade, nuances que hoje lhe interessam mais do que as antigas formas de representar o masculino. “Há uma crise do masculino”, afirma. Mas não vê nisso um problema: vê a chance de reinventar essa figura.
A formação universitária em comunicação e o mestrado em cultura e sociedade funcionam como fundamento para essa visão ampla. Como diretor, ele se define como um grande comunicador, alguém que olha para o público e tenta entender como chegar até ele. Agora, escreve seu primeiro romance — mais um território que se abre, mais um gesto de ampliar repertórios.
Ao final da entrevista, quando fala sobre suas três filhas, sua voz ganha outra textura. Elisio quer deixar para elas uma herança de imaginação e liberdade. Que possam sonhar mais, que se reconheçam nas histórias que o pai ajudou a colocar no mundo. E quando tenta resumir esse desejo em uma frase, ele escolhe a mais simples e a mais luminosa: “Elas podem tudo”.

Diversão e Arte
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