
Muito do que deixamos de marca, como humanidade, está no mundo físico. Mesmo o conhecimento, que no início foi passado de gerações em gerações de forma oral, em algum momento se materializa de forma ordenada em bibliotecas, centros de documentação e universidades. Evidente que o vivemos e sentimos de forma imaterial é o que nos torna nós mesmos e, ao fim e ao cabo, o que realmente importa para nos tornarmos quem somos.
Mas a materialização às vezes nos ajuda a preencher lacunas que surgem com o tempo e tornam-se memórias vivas e que ajudam a criar algum senso de pertencimento. Toda metrópole tem seus monumentos que contam histórias por meio das formas do concreto ou dos momentos emblemáticos que testemunharam suas paredes silenciosas.
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Por isso a comoção causada pela implosão do Torre Palace, no coração da capital, não é à toa. Como qualquer construção que abriga o sono de forasteiros, visitantes regulares ou moradores em busca de descanso, os hotéis de Brasília guardam história. No caso dos mais antigos, elas vêm desde a construção, geralmente pensada por grandes nomes da arquitetura que se aventuravam no plano de Juscelino.
E o pioneirismo da cidade se confunde com o de vários momentos da história do Brasil, tendo como pano de fundo e referência justamente seus hotéis. Durante participação no Altas horas especial em homenagem a Caetano Veloso no ano passado, por exemplo, Ney Matogrosso contou onde conheceu o ícone da MPB: foi na recém-inaugurada Brasília, na década de 1970.
"Eu fui ao único hotel que existia na cidade e à única sorveteria que existia na cidade, que era em frente a este hotel. Aí surgiu Caetano, lindo, com cabelo aqui (aponta para os ombros), todo de cor-de-rosa", detalhou Ney. No mesmo período, ele conheceu, ainda em Brasília, Gilberto Gil e Rita Lee. O cantor não chegou a mencionar o nome do hotel, mas ele está na lista de visitantes ilustres do Brasília Palace, primeiro inaugurado na cidade, em 1958.
O Brasília Palace resiste firme e elegante às margens do Lago Paranoá. Já o Hotel Nacional, no centro da cidade, quase amargou o mesmo destino do Torre Palace, mas, no ano passado, sete anos depois de encerrar as atividades, o grupo que assumiu sua gestão anunciou a retomada, com uma obra que promete devolver o ícone da hotelaria com luxo e restauração histórica.
Por ali passaram a Rainha Elizabeth II e o príncipe Philip, da Inglaterra, o presidente francês Charles De Gaulle e os americanos Jimmy Carter e Ronald Reagan, além de astros do cinema como Catherine Deneuve e John Travolta. A história da capital grita em alguns cantos mais destacados, e sussurra em outros inesperados, basta manter os sentidos atentos.

Diversão e Arte
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