Além do destaque de Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura na temporada de premiações, outro brasileiro tem brilhado. O diretor de fotografia Adolpho Veloso participou do filme Sonhos de trem e seu trabalho impecável foi reconhecido na premiação do Critics Choice Awards. Adolpho também foi premiado pela Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles por Melhor cinematografia. O brasileiro está trabalhando com o diretor Clint Bentley pela segunda vez e contou ao Correio sobre a relação dos dois, o set de filmagem de Sonhos de trem, a experiência em premiações e como ele avalia o momento atual do cinema brasileiro.
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Sonhos de Trem foi seu segundo trabalho com o Clint Bentley. Como vocês começaram a trabalhar juntos?
Quando foi fazer o primeiro filme dele, ele tinha visto o documentário que eu fiz com o Heitor Dhalia, que é On Yoga. Ele queria fazer um filme, o Jockey, que transitasse entre documentário e ficção. E foi assim que a gente se conheceu. Foi um prazer fazer esse filme. Como era uma coisa no estilo guerrilha, a gente se aproximou muito, além da relação de trabalho. Quando chegou a hora de ele começar a pensar no próximo filme, a gente conversava bastante. Produtores ofereceram para ele adaptar Sonhos de Trem. Ele topou e começou a escrever. Foi incrível porque, como eu já estava na conversa, ele queria fazer comigo. Eu acompanhei essa evolução e a gente conversava desde o começo, não só sobre fotografia, mas sobre o filme em si, o significado da história e o roteiro. Eu acho que isso é o mais incrível de uma parceria, você não parte da estaca zero toda vez. Você já tem uma linguagem. A gente olhava para trás para pensar no que funcionou no Jockey e o que a gente queria repetir. Uma dessas coisas foi o fato de que, apesar de ter sido um filme muito difícil de filmar pelo tamanho dele, o Jockey tinha algo incrível. Por ter uma equipe muito pequena, a gente tinha uma liberdade muito grande. Isso seria muito benéfico para trazer para Sonhos de Trem.
Me conta um pouco da sua experiência no set. Foi quanto tempo de gravação?
A gente teve 29 dias de filmagem, o que é muito pouco, na verdade, para um projeto desse, principalmente filmando aqui nos Estados Unidos. Era muito assustador ter só esse tempo, principalmente porque a gente estava em várias locações no meio do nada, floresta. Teve locação que a gente só achou perto da fronteira com o Canadá, então demorava cinco horas só para chegar lá. Tinha toda uma logística muito difícil, mas muito essencial para o filme, porque é muito sobre esses lugares que as pessoas habitam, sobre essas florestas que precisavam parecer completamente intocadas, como eram lá atrás, como se nenhum ser humano nunca tivesse derrubado uma árvore ali. Ao mesmo tempo, a gente precisava de florestas que, em um momento do filme, já parecessem mais devastadas. Era uma diversidade tão grande de locações que a gente teve que procurar pelo estado inteiro. A gente perdia muito tempo nesses deslocamentos, mas, como esse ambiente de filmagem era muito protegido, era muito rápido filmar a partir do momento em que a gente estava ali.Porque não precisava esperar duas horas para iluminar o outro lado e mover todo mundo de um lado para o outro. Quando a gente estava fazendo acontecer, era o momento dos atores.
Depois do nervosismo, as premiações foram chegando, e o filme estava aparecendo em todas elas. Como foi sua reação com o reconhecimento, especialmente ao vencer o Critics Choice Awards?
Isso tudo foi uma loucura também, porque a gente fez um filme independente e, em Sundance, a Netflix comprou o filme. Só que, basicamente, o que a Netflix faz é engavetar o filme por oito meses para lançar na época certa, que é essa época de premiações. Então, por oito meses, o filme deixou de existir. Você esquece ele por um tempo. E, aí, de repente, o filme volta quando eles decidem lançar. E tudo voltou, as reações incríveis, conversas sobre chances em premiações. E você vai muito cético para isso tudo, porque, sinceramente, quando você está fazendo o filme, a última coisa que você espera é que ele funcione. De repente, você entra nesse papo. Você começa a fazer entrevistas, screenings, jantares. Você vai indo, mas ainda muito cético. Quando vieram as indicações do Critics Choice, já foi surreal, porque é aquela sensação de ver seu nome numa lista com um monte de gente que você admira. Tudo isso ainda é muito surpreendente para mim. Eu fico muito feliz, mas ainda parece irreal. Parece que uma hora eu vou acordar e ver que era tudo mentira. A primeira grande surpresa foi quando saiu o prêmio da Associação dos Críticos de Los Angeles. Um jornalista que eu conheci aqui em Los Angeles me mandou uma mensagem falando que eu tinha ganhado, e eu não sabia nem o que. E é um prêmio importantíssimo. Um dos dois maiores círculos de crítica, junto com Nova York. Eu fui ver e, realmente, tinha ganhado. Sem entender absolutamente nada.
Como foi a sua experiência no dia da premiação do Critics Choice Awards?
Eu fiquei muito feliz só de estar lá, de conhecer as pessoas, ver todo mundo ao vivo. Cheguei lá, conheci o Kleber, o Wagner Moura, um monte de gente. Eu já estava muito feliz. A gente sentou na mesa do filme e a primeira coisa que a gente falou foi que o filme concorria em cinco categorias e a gente tinha certeza absoluta de que não ia ganhar nenhuma. Todo mundo estava feliz só de estar ali. É um filme pequeno perto de tudo aquilo. A gente estava competindo com filmes de diretores superestabelecidos, com orçamentos de mais de 100 milhões de dólares, com diretores que já ganharam Oscar, com Paul Thomas Anderson e Leonardo DiCaprio. Sonhos de trem era um filme de 8 milhões de dólares, dirigido por alguém no segundo longa, com um fotógrafo brasileiro. Um peixe muito pequeno. Então a gente combinou que a cada prêmio que a gente perdesse, a gente tomava um shot de tequila. Era para ser ao longo da noite inteira. Só que o primeiro prêmio que anunciaram do filme foi o de fotografia. Eu estava comendo tranquilamente. De repente anunciaram fotografia, apareceu meu nome e a mesa inteira explodiu. A gente gritou, comemorou, e os cinco shots de tequila que eram para durar a noite inteira aconteceram em 10 segundos. Foi uma surpresa gigantesca. É um prêmio votado por mais de 500 críticos. Para um filme do nosso tamanho, com todas as dificuldades, foi surreal. Depois ainda me falaram que eu fui o primeiro brasileiro a ganhar esse prêmio. Coisas que eu nem imaginava. A gente comemorou muito. Cada vitória é um vai Brasil e vai Corinthians.
Estamos em um momento muito bom do cinema brasileiro. Como você percebe esse momento e a importância disso para o cinema?
Eu acho que esse momento é muito merecido, mas vem tarde. O Brasil sempre teve filmes incríveis, talentos incríveis. Eu não acho que seja uma coisa nova. Vários fatores aconteceram para que isso esteja em voga agora, para o Brasil estar na moda. Eu acho que um grande motivo é a união de todos os brasileiros em relação a isso. As redes sociais, o quanto os brasileiros enchem o saco da galera da Academia. Coisas que, não só ajudam os filmes brasileiros e os profissionais brasileiros, mas também fazem o mundo perceber que precisa escutar os brasileiros. Eles têm um poder muito grande. Mas que bom que isso está acontecendo, que bom que o Brasil, de certa maneira, começa a estar na moda. Demorou 90 anos para o Brasil ganhar um Oscar, e que incrível que finalmente ganhou, com um filme que mereceu ganhar absolutamente. Mas acho que existiram outros filmes antes que também mereceram ganhar e que, infelizmente, não ganharam. Mas que incrível que, um ano depois, a gente já está aqui de novo. Eu espero muito que isso abra portas para muito mais gente, para trazer dinheiro de fora para mais produções brasileiras, para fazerem mais cinema no Brasil. E, acima de tudo, para a gente ter uma porta maior para todos os talentos que a gente tem no Brasil, que são inúmeros.
Com essa presença nas premiações e em todo esse processo, você deve estar acompanhando os outros filmes concorrentes. O que você mais gostou de assistir nessa temporada?
Em primeiro lugar, eu vou falar Agente Secreto porque é Brasil. Fora isso, eu amei Valor Sentimental. Eu acho que é um filme muito sutil, muito bonito. Ele também toca em várias questões que se relacionam muito com a vida de quem trabalha com isso, eu acho que tem uma identificação muito grande. Eu achei um filme muito bonito, muito bem atuado, aquele elenco é um absurdo. Eu acho que Foi apenas um acidente também é incrível demais.Gostei muito de Bugonia também. Eu acho que é o filme que talvez tenha a melhor fotografia do ano. Eu acho que o que está sendo incrível também é que eu tenho conhecido todas essas pessoas. E é muito doido, a gente acaba estando nos mesmos lugares.Eu estava vindo de Nova York de volta para Los Angeles e, do meu lado no voo, estava a Autumn Durald, que é a fotógrafa de Pecadores, que é quem eu acho que vai ganhar tudo. Eu estava falando que eles colocam a gente nessa situação onde a gente está meio competindo por uma coisa. Só que é ridículo, porque quando eu conheço essas pessoas, elas são incríveis.O Michael Bauman, que é o fotógrafo de Uma batalha após a outra, é a pessoa mais incrível do mundo. Quando dá a notícia de qualquer prêmio, é o primeiro a mandar uma mensagem me parabenizando. Acho que existe até uma empatia de estarmos todos vivendo essa loucura ao mesmo tempo, e é legal se falar. Então tem sido muito incrível conhecer essa concorrência, de certa maneira, e ver que todo mundo é incrível.
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