Crítica

Veja como o israelense Navid condena compatriotas nas telas de cinema

Nadav Lapid, cineasta premiado em Cannes, tece ácidas críticas a decisões do Estado de Benjamin Netanyahu — a aposta é no humor feroz

Filme Yes: presente na seleção da Quinzena 
dos Realizadores do Festival de Cannes -  (crédito: Imovision/ Divulgação)
Filme Yes: presente na seleção da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes - (crédito: Imovision/ Divulgação)

Crítica // Yes ★★★★

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Antes de qualquer consideração é fundamental perceber que esta coprodução entre França, Israel, Alemanha e Chipre traz uma acidez decorrente do terrorismo de 7 de outubro de 2023, data em que o Hamas incitou, para muitos, a ação de revide do exército israelense com o foco de ataques na Faixa de Gaza. Vale a ressalva de que o filme (de ficção) passa longe de ser palatável para todos.

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Sempre polêmico, o diretor israelense Nadav Lapid, lembrado por filmes como Policeman (2011) e O joelho de Ahed (2021), aposta em derivar para a tela um enredo (real) da criação do que ele chama de "hino à vingança e à matança", depois de, em novembro de 2023, uma entidade chamada de A Frente Civil haver defendido a instituição de uma música intitulada como A canção da geração da vitória, no lugar do tradicional hino de Israel. O filme usa deturpadas letras para a retumbante canção original (Hare´ut, datada de 1947) de Haim Gouri, um artista conhecido por ter aberto frentes de cura (por meio das artes) para sobreviventes do Holocausto.

Yes, cinicamente, é a jornada daqueles que dizem sim para tudo. No filme, de fundo crítico, o pianista Y (papel do assombroso Ariel Bronz), pai modernoso de uma família formada pela dançarina Jasmine (Efrat Dor) e por um bebê, tem por desejo melhorar a situação de todos.

Circulando em meio do que seria a nata da sociedade, ele trava contato com o Chefe do Estado Maior, com um multimilionário (interpretado pelo russo Alexei Serebrjakow) e com inúmeros degenerados detentores de pilhas de dinheiro. É do núcleo duro dos depravados ricos que brota a ideia de que Y se aplique na criação de um novo hino nacional. Com um fervor e um apelo visual muito assemelhado ao do italiano Paolo Sorrentino (A mão de Deus e A grande beleza), Nadav Lapid discute patriotismo, acomodação e alienação política, além de prostituição intelectual.

Admirador de uma dinâmica impressionista e de criadores como o pintor Jackson Pollock, o cineasta se enamora do acaso na narrativa de Yes. Se alguém tomar as bases da gênese de A ópera dos três vinténs (uma peça, com músicas de Kurt Weill, que vai de encontro do capitalismo) entenderá como um conceito — no caso, o estigma de ser israelense — norteou o novo e imenso filme de Nadav Lapid, que tem (sentidas) quase duas horas e meia. Num dado momento da narrativa, um personagem aponta alguns veículos de comunicação (diretamente a CNN, a BBC e o The New York Times) como agentes propagantes de pensamentos contra Israel. Para embaralhar mais ainda a vida do protagonista de Yes, Lea (Naama Preis), ressurge em cena, contaminando o músico com um passado malparado.

Trazendo à mente obras como O conformista (de Bernardo Bertolucci), em que a felicidade pessoal de um homem poderia, em meio ao fascismo, sacrificar pessoas caras ao seu ciclo de convívio, Yes rende as medidas das consequências da louvação ao dinheiro e da indiferença frente a crimes do governo. Dono de uma narrativa incisiva — basta lembrar do vencedor do Festival de Berlim Synonymes, em que o protagonista renegava a cultura hebraica —, o diretor oferece um retrato frio do pós 7 de outubro que insufla o uso da tecnologia, trata de amores retraídos e ainda arrisca projetar castigos maternos (mesmo com personagens mães, mortas), frente a graves erros de adultos.

 

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postado em 13/02/2026 07:22
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