
Crítica // Anêmona ★★★
Nada é muito direto ou claro na trama da fita de estreia do filho do astro Daniel Day-Lewis, presente no filme não apenas como ator, mas ainda, roteirista do longa assinado por Ronan Day-Lewis. A paternidade vem com carga forte na trama que, igualmente, salienta traços de irmandade.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
Vencedor de três prêmios Oscar, Daniel tem três grandes momentos neste filme sombrio em que interpreta Ray, que vive um isolamento autoimposto numa floresta de Yorkshire (ao norte inglês). Sob uma direção de fotografia esplêndida de Ben Fordesman, a solitária existência dele é sacudida pela chegada do personagem de Sean Ben, Jem, um irmão pelo qual se comunica por extrema violência e toques de ressentimento. Em certa medida, o filme traz um tom próximo ao de Magnólia (1999), se rendendo à agressividade patente no cineasta britânico Ken Russell.
Imagens graves e o relato assombroso da ação de jovens homens-bomba atravessam a narrativa que passeia, de leve, na situação instável da Irlanda do Norte dos anos de 1960. A atuação do Exército Republicano Irlandês (que fundia problemas de nacionalismo e de religiosidade) convence, ao mostrar uma narrativa que se desdobra, entre o sagrado e o profano.
Artista plástico e estreante em longas, o jovem Ronan vem a ser neto do dramaturgo Arthur Miller e filho da diretora Rebecca Miller. No filme, ele se vale da edição densa de Nathan Nugent, e usa a metáfora da flor-do-vento que remete à proteção e ao luto para reverter a máxima do "bom filho à casa retorna", apresentando, na tela, o retorno do pai nem tão bom assim.
Com uma curta e brilhante atuação de Samantha Morton na pele de Nessa, o filme marca o retorno de Day-Lewis, oito anos depois de anunciada aposentadoria. No papel do traumatizado Ray, ele terá que rever a lacunar relação com Brian, seu filho, interpretado por Samuel Bottomley. Psicologismo, traição, cartas, entrosamento a fórceps e abusos completam o andamento do filme.
