Ainda que houvesse uma onda de desconfianças quanto aos métodos adotados pela dramaturgia do longa indicado ao Oscar A voz de Hind Rajab, o respeitável The Guardian tratou de considerar o filme como um dos "mais relevantes temas da atualidade". O longa, vale a lembrança, está na lista dos quatro concorrentes do brasileiro O agente secreto (de Kleber Mendonça Filho), na categoria de filme internacional.
Diante de métodos de reconstrução do caos gerado numa central de atendimento telefônico a vítimas da guerra, a própria diretora do filme, a tunisiana Kaouther Ben Hania foi quem disse a BBC: "Vi que o cinema pode fazer algo melhor (do que reconstituir fatos), que é provocar empatia."
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"Para mim, era importante honrar a voz dela (a protagonista, uma menina palestina que teve a voz usada sob tensas situações reais, de vivência) e fazer com que ela ressoasse além das fronteiras", pontuou Kaouther para a imprensa internacional. No terceiro longa-metragem sequencialmente indicado ao Oscar (depois de As 4 filhas de Olfa e O homem que vendeu sua pele), a diretora traz a certeza de "não trazer estrelas no elenco" da fita que "não é daquelas feitas para se sentir bem".
Com a direção de fotografia do colombiano Juan Sarmiento G. (habitual colaborador do cineasta brasileiro Karim Aïnouz) a cineasta — que viu o longa-metragem ser aplaudido por mais de 20 minutos, no Festival de Veneza (no qual levou o Leão de Prata, dado o destaque como Grande Prêmio do Júri) — coloca em cena, além da voz da palestina Hind Rajab, os atores Motaz Malhees (como o inconformado atendente de telefone Omar), Amer Hlehel (na pele de Mahdi, o chfe de Omar), Saja Kilani (a muito sensível colega de Omar, Ranna) e, interpretando a supervisora Nisreen, Clara Khoury.
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Saindo das cômodas posições de cúmplice ou mesmo testemunha inerte, a diretora optou pelo resgate do momento em que foi possível salvá-la (a menina Hind). Para além da descrição dos atos violentos no bairro de Gaza Tel al-Hawa (em que a menina esteve) — e que renderam investigação pela Al Jazeera e por agências independentes — Kaouther buscou detalhar, por meio da ficção, a ação dos voluntários da Sociedade do Crescente Vermelho, e que estavam no call center, em Ramalá (na Cisjordânia). Triste e inconformada pelas conversas mantidas com a mãe de Hind, Wesam, para reelaborar os acontecimentos em Gaza 2024, a diretora contou com uma prestigiosa lista de produtores, entre os quais Alfonso Cuarón (de Roma e Gravidade), Spike Lee, Brad Pitt e Joaquin Phoenix.
Saiba Mais
Histórico de impacto
As 4 filhas de Olfa (2023)
O longa que concorreu ao Oscar de melhor documentário aposta numa dramaturgia que repara erros e proporciona perdões entre as familiares da matriarca Olga Hamrouni (às vezes, interpretada por Hind Sabri). Aparecem em cena as irmãs Eya e Tayssir, enquanto as duas outras filhas de Olfa, Rahma e Ghofrane, ganham interpretações de Nour Karoui e Ichrak Matar. Exumando traumas, a narrativa ataca o fundamentalismo propagado na Tunísia (ao norte africano). Em cena, discute-se ação de abusadores, sexualidade e comportamentos de ruptura.
O homem que vendeu sua pele (2020)
Formada entre a Tunísia e França (em Femis e Sorbonne), a diretora criou filme que rendeu prêmio de melhor ator, no Festival de Veneza, dentro do segmento Horizonte, para Yahya Mahayni. O filme competiu ao Oscar, em 2021, e traz a trajetória do sírio Sam Ali, que segue para o Líbano em busca de paz. O passaporte para a Europa pode estar nas suas costas, que servem de anteparo para que tatuador crie discutível obra de arte.
