O mercado audiovisual de Brasília pulsa, a ponto de embasar voos que incluem coproduções com outros estados e países. O volume atual de criações contempla filmes como Moinho, de Gui Campos, com produção de R$ 1,5 milhão, em projeto vencedor do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), a ser filmado entre Brasília e área da Chapada dos Veadeiros, a partir de junho. "Estamos atrás de locação para uma fazenda aos moldes antigos. É capaz de filmarmos em Formosa. O longa trata de um pai de um casal de filhos que recebe a notícia de que seu pai está adoecido, em distante fazenda. Na verdade, o protagonista é filho de empregados, e se apresentará uma relação colonial, numa realidade de ricos e pobres e que fala da entrada da soja na Chapada", adianta o cineasta.
Gustavo Galvão é outro diretor com agenda movimentada. Um circuito de filmagens por Santa Rosa, Santo Ângelo e Santo Cristo (RS) está na rota de Alto Uruguai, longa de Cristiane Oliveira, a ser rodado em maio, e do qual Galvão é co-roterista e produtor associado. Outro enredo de passado encoberto se desenha em Ela foi ali guardar o coração na geladeira, primeira produção em codireção entre Cristiane e Galvão e que deverá estar finalizada até fevereiro. A local 400 filmes (de Pacto da Viola e Ainda teremos a imensidão da noite) foi coprodutora do longa em que uma jovem junta cacos do passado, depois de receber misterioso material via internet.
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Enquanto Santiago Dellape se dedica à montagem da comédia policial O verão da lata, na qual as produtoras de Brasília Gancho de Nuvem e Nada Consta se juntaram com Warner Bros. Discovery e H2O Produções para contar da invasão de centenas de recipientes com maconha nas praias cariocas, Marcelo Díaz (a lado de Delvair Montagner) pavimenta o lançamento de O vento vai reagir, documentário da Diazul de Cinema. O filme documenta parte do esfacelamento da cultura Marubo, numa Amazônia em que duas antropólogas sustentam memórias aparentemente desaparecidas.
Duas coproduções latinas fortalecerão o currículo do diretor Bruno Torres: ao lado da Dezenove Som e Imagens, a Quijote Filmes (que emplacou sucessos, no Oscar e em Cannes, de Os colonos, e ainda de O olhar misterioso do flamingo) está unida, por Colmeia, sob orçamento de R$ 7 milhões, com distribuição da Pandora Filmes, e com os brasilienses Chico Sant´Anna e Mariana Nunes no elenco. Já, com filmagens em Dourados (MS) e em Concepción e Filadélfia (noroeste do Paraguai), A pele morta traz a continuidade de um projeto de Geraldo Moraes, pai de Torres. Confira abaixo os projetos em avançado andamento:
Fogo vivo — Vencedor do 56º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, na preferência do público, com o longa Cartório das almas, o diretor Leo Bello assume a meta de filmar um falso documentário, entre abril e maio. Em fase de pré-produção, o filme trará entrevistas de brigadistas de um universo que compreende entidades como Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Ibama e corpo de voluntários. Com a maior parte das imagens a serem captadas na Chapada dos Veadeiros, o longa dará peso ao cenário das queimas prescritas, ação integrada ao Manejo do Fogo Integrado, quando técnicas distanciadas do período de seca extrema respaldam a preservação do meio ambiente. "Vou focalizar um mundo distópico mostrando como os profissionais enxergam o fogo. Será um filme de Baixo Orçamento, e a ideia é registrar como se estivéssemos vivendo num futuro em chamas, decorrente do aquecimento global. Vamos explorar motivos de as queimadas estarem tão presentes", adianta Bello. Depois da pesquisa com 35 entrevistados, cinco personagens reais foram escolhidos para interagir com uma atriz que servirá de aprendiz. Entre brigadistas e ativistas (a favor da preservação ecológica), o filme híbrido dará ênfase a um sobrevivente de incêndio.
Jornada dupla — O desbravamento de duas trajetórias dificultadas por preconceitos norteia os dois filmes codirigidos pelo veterano Jimi Figueiredo, que trabalhou lado a lado com Sergio Sartório (em Histórias de terror e delicadeza) e com Simonia Queiroz (em Santa Dica).
A inquietação de ver pessoas distanciadas, publicamente, das opções sexuais move a trama de Histórias de terror..., comandado por Chico Sant'Anna (criador do argumento). Sob direção de fotografia de Alexandre Magno, ele encena com Dira Paes e Elisa Lucinda a trama de dados biográficos e que bebe ainda da literatura de Santiago Serrano. "Dira e Elisa abraçaram com muito amor a ideia do filme que traz ficção, em meio à ditadura militar. No filme, um homem recebe uma carta do grande amor de sua vida, com o qual se relacionou há mais de 30 anos, e que havia desparecido misteriosamente. Nisso, virá a trama assustadora de abusos e torturas", adianta o cineasta. Também em pós-produção, Santa Dica terá Pamela Germano, Rosanna Viegas e Murilo Grossi no elenco do longa que trata dos comportamentos arrojados de uma mulher que viveu no começo do século 20. "É uma história real sobre empoderamento feminino singular. Uma adolescente "ressuscita" em seu próprio velório (dada catalepsia) e se torna curandeira e líder política. Na trajetória dela estão tópicos como reforma agrária e direitos trabalhistas, além de supostos milagres", adianta Jimi.
Roubos aplaudidos —
Em finalização, um longa que alinha polêmico quarteto deverá chegar às telas em 2026: é o filme Caerrates Robin Hoods, misto de ação e comédia. "Vivo sempre motivado. Cinema é isso: motivação e luta. Faço parte de uma geração de cineastas que ajudou a consolidar esse cenário. Ter mais um filme saindo do forno é sempre motivo de satisfação e empolgação", demarca o brasiliense Erik de Castro, lembrado por Federal, filme com Selton Mello. Entre admiradores, apoiadores e desafetos, um grupo de jogadores de paintball protagoniza explosão de caixas eletrônicos e outros meandros, a fim de apagar dívidas. Os Robin Hoods contemporâneos criarão corre-corre com o atento delegado João Rambu, feito por Falcão, e que se inspirou no xerife de Nottingham. No elenco, um festival de artistas locais:
Llorran Santiago, Aline Araújo Bento, Peter Andrade, Similião Aurélio, Rosanna Viegas e a dupla Jovane Nunes e Victor Leal.
Ponte teatral — A convite do grupo de teatro As Caixeiras CIA de Bonecas, a cineasta Catarina Accioly prevê para este ano (com vistas à seleção no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro) o documentário Lambe Lambe: Vou te mostrar um segredo, que decifra uma vertente do teatro de animação. Dois anos depois de encantar o público com o filme Rodas de gigante (com visibilidade para o dramaturgo Hugo Rodas), Catarina trará ao centro a figura de Denise di Santos, criadora de uma expressão teatral "que conquistou o Ocidente, a Europa e que é fortemente disseminada na América Latina". Filmado em Irará, Santo Amaro da Purificação, Salvador e ainda na capital federal, o projeto decifrará linguagem instituída há 35 anos e inspirada em fotógrafos. "Em vez dos três minutos para revelação de fotografias, o segredo está dentro de caixas. O teatro estimula fila de curiosos, transeuntes que, por um buraco de fechadura, observam miniaturas e cenas criadas dentro das caixas", adianta Catarina Accioly. Também sob sua tutela, Ourives foi um projeto recém-convidado para integrar o Festival de Málaga (Espanha).
Haja trabalho — "Em em dois meses, terei concluído A pele morta, codirigido por Denise Moraes, professora da UnB e minha irmã, enquanto A colmeia sairá dentro de uns seis meses. Terei dois filmes para lançar, e dois filmes que falam muito da América Latina — um com o Paraguai e outro com Chile", adianta o cineasta Bruno Torres. Concebido, originalmente, por Geraldo Moraes (o pai de Bruno, morto em 2017) A pele morta reencontrou caminho pela ação da produtora Solange Lima. "Foi filmado no Brasil e no Paraguai, e fala da perda de território indígena, com atuação de César Troncoso e de Ivana Gomez, sendo atuado em português, espanhol e guarani. É um filme forte, centrado na ancestralidade indígena. Trata de perda de território, e da ação de opressão, com avanço do agronegócio e expulsão de gente", adianta Bruno. "Já Colmeia é uma coprodução com Chile, filmada no Brasil (pela Fatumbi Filmes), no deserto do Atacama, em Brasília e São Paulo, com roteiro da Simone Iliescu", completa.
Veia cômica — Embalada por vários produtos que dirigiu ou dirigirá, a cineasta Cibele Amaral comemora o momento, com os lançamentos da comédia O socorro não virá, "uma comédia bem autoral e metalinguística", a ser lançada no segundo semestre, momento ainda de visibilidade para a Ecoloucos, "uma dramédia que une meio ambiente à discussão do mundo que queremos deixar para nossos filhos e netos". Uma sátira a artistas e narcisismos, a comédia traz planos do mundo real, além de um visto de dentro da cabeça do personagem e outro de uma ficção científica que ele idealiza como filme. Já o filme de ecologia discute "o quanto depende realmente só da gente (cidadão) ou ainda mais das grandes corporações as ações para controles ecológicos". Neste filme, atuações de Victor Leal, Cristiana Oliveira, Robson Nunes e Maria Paula. Tendo o parceiro Patrick de Jongh como um dos produtores, Cibele Amaral ainda verá o roteiro dela de Falsiane, conduzido pelo diretor Hsu Chien, a ser filmado em setembro. "É uma comédia sobre a inveja nos bastidores de um concurso de dança", adianta Cibele. Com muito "chão pela frente", ela ainda está na montagem do terror O morto na sala, derivado dos terrores clássicos, em que grupo passa temporada em casa, preso numa situação calamitosa. No elenco estão Ticiana Ferraz e Bruno Caldas. Ao mesmo tempo em que acompanha Patrick, na configuração do longa Nostros — Retorno a Buenos Aires (do chileno de ascendência italiana Marco Bechio), numa coprodução internacional sobre tribunais de julgamento da ditadura argentina, Cibele assina a produção de O frenólogo, coprodução com Portugal que abraça "ácida comédia" criada pelo estreante diretor Lucas Abrão.
Inspiração real — Com dois documentários em pós-produção, o consagrado diretor Renato Barbieri aposta no desenvolvimento de um terceiro: Xamã eletrônico. A produtora Gaya (de Barbieri) pretende circular em festivais de 2026 com o documentário A África dentro da gente, numa abordagem que relativiza a cultura eurocêntrica que relega um espaço mais adequado para sentimentos tradição milenar. Noutra frente, Barbieri aposta na imagem de Pureza Lopes Loyola, ativista vencedora de distinção da Anti-Slavery International, em 1997, e do internacional prêmio Tip (Trafficking in Person) Report Heroes. Objeto de exaltação em Pureza.doc, a senhora Pureza (antes retratada em ficção estrelada por Dira Paes) tem este novo veículo em cinema (já em montagem) previsto para 2027. "Ela ainda impacta, aos 80 anos, foi e é um símbolo abolicionista contemporâneo", diz o cineasta ao falar da maranhense que se tornou "fonte de inspiração para muitas outras mulheres". Por fim, Barbieri aposta em Xamã eletrônico, com algumas filmagens realizadas em Brasília. Depois de exibir Tesouro Natterer, com premiadas músicas de Márcio Vermelho e Pedro Zopelar, o cineasta deixa entrever a ligação muito forte com a cena eletrônica, a partir de "quesito cultural que dá voz a recorte xamânico". "Quem não participa da cena, desconhece a resistência de afirmação do corpo território, com direito ao transe e viés que enaltece certo xamanismo", adianta.
