
Crítica // A Noiva! ★★★★
Mais de dois séculos, e a obra literária de Mary Shelley retorna, revigorada, numa inventiva trama comandada por Maggie Gyllenhaal (de A filha perdida, 2021). Arriscada e irritante, a abertura do filme traz uma sessão de possessão no corpo da protagonista Ida (a excelente Jessie Buckley). Há diálogo extracena entre a criadora (Mary Shelley) e a criatura provocativa e ousada, verborrágica, literalmente quebradiça e "ingovernável", na Chicago dominada pela máfia nos anos de 1930. Com homenagem ao grotesco e coerência na expressão dos personagens que se assumem monstruosos, a diretora entrega muito espaço para o diretor de fotografia Lawrence Sher (não por coincidência, o mesmo de Coringa) e do editor dos filmes de Paul Thomas Anderson, Dylan Tichenor.
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Voluntariosa, a Noiva, desmemoriada e feminista, é criada a pedido de Frankenstein (Christian Bale, nunca menos do que ótimo), saturado da solidão em que vive. Assistido pela doutora Euphronius (Annette Bening), Frankenstein alcança a comunhão, numa cumplicidade cômica com a Noiva. Além de tudo, eles se veem conectados com o cinema (dada a adoração pelo astro Ronnie Reed, papel de Jake Gyllenhaal), num cacoete divertido que presta homenagem aos musicais (há até número com Puttin´on the Ritz, antes usada em O jovem Frankenstein, de 1974) e ainda aos filmes de Guillermo del Toro (coincidentemente, diretor do recente Frankenstein). De quebra, o filme ainda traz a veterana Jeanne Berlin (Corações em alta), no papel da serviçal Greta.
A companheira do monstrengo forma a dupla instável e desajeitada, na telona, com uma mancha de cristaloide estampada no rosto. Frankenstein e a parceira invadem ambientes que não os comportam, e daí não trazem traquejos sociais. A Noiva vaga, alheia a convenções (a cena dela batendo cabelo na pista de dança é um achado) e denunciando violências.
Quando o filme entra num estilo de rastro à la Bonnie e Clyde, com os personagens detetivescos de Penélope Cruz e Peter Sarsgaard no encalço, o espectador é quem ganha. Com atitudes desconexas, alternando entre o ríspido e o amável, Frankenstein defenderá a Noiva e vice-versa. Inspirada, Maggie Gyllenhaal trata de silenciamento feminino, da criação de laços bizarros, e, de quebra, apresenta um lunático Frankenstein, capaz de ser polido na recusa de sexo oral com a pretendente. Hilário!
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