
Crítica // Barba ensopada de sangue ★★★
O histórico de produção de Aly Muritiba é denso (vide filmes como Para a minha amada morta, de 2015, e Ferrugem, feito em 2018). Escritor bastante badalado, Daniel Galera, no cinema, teve seu livro Até o dia em que o cão morreu, revisto sob adaptação intitulada Cão sem dono (2007). Novamente, uma amizade canina se instala, no novo filme que tem a cachorra Beta como um charme extra ao filme.
A trama avança num legado nada esclarecedor para o protagonista, o gaúcho Gabriel (Gabriel Leone) que avança num terreno movediço, ainda que o roteiro do filme seja feito de modo a respeitar substratos sólidos: a postura arredia nas relações sociais de Gabriel e a hostilidade impressa pelos moradores de um vilarejo na Praia da Armação (Santa Catarina). Gabriel, no filme, vai atrás de raízes familiares.
Depois de uma cena inicial marcante e plena de ruptura, o espectador se vê acompanhando um aprendizado autônomo (e que vem repleto de solidão) para o protagonista, decidido a impor sua independência frente à corrente de animosidade que enfrenta. Tipos que perambulam dominaram os filmes de Aly Muritiba com maior consistência — a exemplo de Deserto particular e ainda de Jesus Kid (2021), no qual se conjugou literatura e criatividade com mais estofo. No novo filme, o rigor emocional de Gabriel não se sustenta plenamente. O forasteiro não tem especificamente consistência e peso para transpor a trama, por demais circular.
Junto com uma eficiente fotografia a cargo de Inti Briones (de Vazante), a atriz Thainá Duarte, na pele da afetuosa Jasmin, se sobressai intermediando o ruidoso entrosamento do gaúcho e dos catarinenses. No roteiro, cocriado por Muritiba, Jessica Candal e Galera, as autoridades locais não se interessam pelo destino de Gabriel e, no bojo, o legado humano (do herdeiro Gabriel) se torna mais vital do que eventuais ganhos materiais. Nisso, Ricardo Blat, bastante concentrado e natural, dá vida a um personagem-chave e marcante, bem ao final do filme.

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