
Seria possível que uma tragédia infestada no coração da América (no maior dos sentidos figurados) se incrustasse no centro da mente do diretor norueguês Kristoffer Borgli e irradiasse, por meio da mensagem do filme O drama, em escala global? Sim. Sem titubear, é seguro dizer que o mais novo longa estrelado pelos astros do momento Robert Pattinson e Zendaya gera discussão quanto aos desdobramentos de um pacto social: os preparativos de um casamento ecoam como real pesadelo para o personagem de Pattinson, Charlie, que ficaria muito mais feliz, a princípio, comprando uma bicicleta, se levasse a sério o dilema clássico do casório ou da aquisição da bike.
Analisada pelo The Guardian, a produção daria conta do "nervosismo pré-nupcial como um desmoronamento psicológico". A publicação britânica enaltece a fotografia deslumbrante, as atuações "virtuosas", a precisa edição, e ressalta ainda a extensão do trauma coletivo no qual mexe. Na trama do filme, há quem diga que o casamento "é algo naturalmente elaborado". Mas, e se no miolo desta partitura social tão bem coreografada houvesse espaço para um improviso como daqueles virtuosos jazzistas? É de uma mesa, para as provas dos vinhos para uma cerimônia de casamento, que será irradiada uma situação incontornável capaz de afetar sobremaneira a união de Emma e de Charlie. O impulso vem de um casal de amigos que lança o desafio de se revirar o passado de cada comensal, para entender do pior feito, até o momento, entre todos os presentes. Rachel (Alana Haim, de Licorice Pizza) fala, e cria constrangimento; Mike (Mamoudou Athie) se entrega, e choca; Charlie reluta, desconversa, mas deixa entrever sua gritante bondade. O problemão surge mesmo, quando Emma se encoraja, e revela um episódio estarrecedor.
"Com cada projeto (de cinema) que você assume, a ideia é explorar algo novo em si mesma, e eu realmente acho que cada personagem me ensina algo novo sobre mim e desbloqueia algo emocionalmente novo", comentou Zendaya para a revista Coup de Main, da Nova Zelândia. Pattinson completou: "Em filmes românticos o foco é mais no crescimento individual dos personagens. E eu achei isso muito romântico (no nosso filme) porque os personagens não estão realmente se separando, eles estão sempre tentando se amar, e ambos estão muito comprometidos com o amor". Um obstáculo feroz atravessa, entretanto, o relacionamento tão vital para os fictícios Charlie e Emma.
Choque e empolgação
O vínculo do "arrepio" e da "empolgação" junto ao público é algo perseguido pelo atual intérprete de Batman. Esses reflexos, de modo forte, têm brilho na narrativa do filme. Na imprensa internacional, o astro defende a impossibilidade da "escolha" por quem se apaixonar, ainda que hesite. Para além do dado de que "moralidade" seja subjetiva, o que motivou o interesse de Pattinson foi explorar modulações na moralidade, "geralmente, sujeitas ao meio em que você está inserido". O nervosismo e as renúncias que pesam para Charlie têm tudo a ver com o passado de Emma, como sublinhou um artigo do The New Yorker. "O filme retorna ao tempo da Emma, estudante do ensino médio, interpretada por Jordyn Curet, que tem pouca semelhança física ou emocional com sua contraparte Zendaya (...) a Emma interpretada por Jordyn Curet é um estudo de caso e um enigma", pontua o texto que aposta na exagerada mudança de atrizes para revelar o quão drásticas podem ser transformações às quais alguém se sujeita.
O excesso de intimidade junto aos personagens (que se desvestem de todas as camadas sociais) traz para o público o desconforto perturbador de lidar com mais um provocativo filme de Kristoffer Borgli, proveitoso para abrir um ciclo de discussão. Para incendiar debates, o combustível ainda traz ao centro o passado (real) do próprio cineasta, no seu segundo filme em inglês, depois de O homem dos sonhos (2023), com o excêntrico Nicolas Cage. Coube à famosa The Hollywood Reporter colocar alguma pressão na carga de controvérsia. Há 14 anos, a revista D2, associada ao jornal de finanças norueguês Dagens Naeringsliv, trazia perigoso discurso do hoje quarentão Kristoffer. Um artigo, que circula pela rede social, revela (em tradução amadora), um ensaio no qual ele destrinça elementos de um romance mantido com uma jovem bastante mais nova. O resgate de material antigo coloca em pauta a relação de Borgli, aos 27 anos, com uma adolescente. Pelas leis da Noruega, o consentimento (para sexo) de maiores de 16 anos é o aceito.
Dentro de todas as armadilhas emocionais e dos gatilhos associados aos sentimentos de Charlie que Emma gera, a personagem de Zendaya, mesmo no discurso da atriz, segue algo resguardada de julgamentos. "Com Emma há uma permanente fragilidade que eu gostei de tentar desvendar, e existe uma menininha perpétua dentro dela que busca ser amada e aceita", comentou.
Enquanto isso, no cinema nacional
Crítica // Cinco tipos de medo ★★★★
Este filme ambientado no Mato Grosso, e que toma por base um episódio real, é a prova de que nada é definitivo, quando se fala em talento: dois integrantes da produção mais do que deram a volta por cima, quando se vê o resultado do thriller. O diretor Bruno Bini (do avacalhado, por muitos, Loop), em várias frentes, foi triplamente premiado no último Festival de Cinema de Gramado (RS), enquanto Bella Campos, muito suscetível à crítica pelo remake de Vale tudo (em que interpretou Maria de Fátima), se confirma talentosa.
Vencedor dos prêmios Kikito de melhor filme, roteiro e montagem (tudo a cargo de Bini), Cinco tipos de medo carrega nos laços decisivos, ao modelo de filmes emblemáticos como Amores brutos e 21 gramas (ambos com roteiro de Guillermo Arriaga, à época em que estabeleceu parceria com o diretor Alejandro G. Iñárritu). Várias ações de dentro do Jardim Novo Colorado (periferia de Cuiabá) convergem para integrar a vida de díspares personagens.
João Vitor Silva (visto em O agente secreto, como o rapaz do braço quebrado da pensão de Dona Sebastiana) encabeça o longa, no papel de Murilo, um aplicado violinista que, à época da recente pandemia, dependeu dos cuidados da enfermeira Marlene (Bella). Essa, pela vez, está condicionada à relação junto ao contraventor Sapinho (Xamã, vencedor de Kikito de melhor ator coadjuvante). Junta-se ao explosivo circuito, o advogado Ivan (Rui Ricardo Diaz, da série Impuros) e a policial interpretada por Bárbara Colen, Luciana.
Com a dose de violência que ancora toda a trama, muito bem conectada, destacam-se achados de intenso valor, como o da interpretação de Rejane Faria (No coração do mundo), uma tensa moradora da periferia, e ainda a sensibilidade no tratamento dos traumas carregados diante da morte de familiares, ponto que atravessa muito da trama. (RD)
