
Ele chegou à TV Globo em 2021 como pesquisador, mas sua história com o universo das telenovelas começou muito antes, na infância, quando apresentava-se como um estudioso entusiasta do gênero. Natural do Maranhão, Eli Nunes — que completa 34 anos nesta terça-feira (21/4), no dia em que Brasília comemora seus 66 — viveu por mais de duas décadas no Distrito Federal antes de se mudar para o Rio de Janeiro, onde hoje consolida uma carreira que transita entre a densidade dos documentários e a criação lúdica da ficção.
Em 2016, Eli foi selecionado entre mais de 600 inscritos para a oficina de roteiro de Aguinaldo Silva, um dos maiores autores da teledramaturgia brasileira. Na ocasião, colaborou diretamente na criação da sinopse e do primeiro capítulo de uma telenovela. Quatro anos depois, integrou o Laboratório de Narrativas Negras, uma parceria entre a Flup e a Globo, desenvolvendo o argumento de uma série histórica.
Como pesquisador, destacam-se seus trabalhos nos documentários Vale o escrito - A guerra do Jogo do Bicho e Resistência negra (2023), ambos disponíveis no Globoplay. Mas foi em 2025 que Eli Nunes alcançou um marco inédito: tornou-se o primeiro assistente de roteiro em telenovelas da Globo, ao integrar a equipe de Três Graças, novela de Aguinaldo Silva, Virgílio Silva — que também é do Distrito Federal — e Zé Dassilva.
Para Eli, que é formado em publicidade, a passagem pela pesquisa foi determinante para sua formação como roteirista. "O olhar do pesquisador é, essencialmente, um olhar de investigação e escuta. É através dele que mergulhamos no mundo, observamos as contradições das pessoas e a profundidade dos temas", afirma. Segundo ele, esse repertório é o que permite a criação de personagens mais complexos, evitando estereótipos e entregando figuras autênticas.
Por outro lado, a narrativa dramática potencializa os dados documentais. "Enquanto a pesquisa nos dá o 'quê' (os fatos), a ficção nos entrega o 'como' (a emoção). Acredito que o novelão ajuda a humanizar estatísticas e fatos históricos", disserta Eli.
Narrativas periféricas
Participante do Laboratório de Narrativas Negras e colaborador de Resistência negra, Eli identifica tanto desafios quanto oportunidades no cenário atual da teledramaturgia brasileira. "O maior desafio sempre foi garantir que o olhar de quem vive essas realidades estivesse presente desde a concepção do projeto", avalia.
A grande oportunidade, na visão dele, é o amadurecimento desse fluxo com a chegada da "caneta preta" e periférica à titularidade e às salas de roteiro. "Quando temos autores, diretores, produtores, elenco e pesquisadores negros trabalhando em conjunto, a autenticidade deixa de ser um esforço e passa a ser algo natural", defende o roteirista, que foi responsável por escrever a cena em que o personagem João Rubens (Samuel de Assis), em um momento conjugal dramático com seu companheiro, Kasper (Miguel Falabella), leva a questão racial ao centro da narrativa sobre o roubo da escultura Três Graças.
Sobre o cargo inédito que ocupa na novela das 21h, Eli destaca a confiança e a responsabilidade técnica da função. Embora oficializada recentemente na Globo — além dele, Dimas Novais atua em A nobreza do amor e Eddy Fernandes em uma obra em desenvolvimento —, Eli ressalta que a gestão dos autores soube delinear os meandros do trabalho. "Não havia como fugir daquela voz, pois ela era única. A habilidade imprescindível para quem colabora é saber identificar a voz dos titulares e reproduzi-la com fidelidade", argumenta.
Ele descreve o processo como leve e fluido, graças à expertise de Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva: "A certa altura da produção, passamos a escrever ouvindo a voz de cada personagem".
Estudioso do gênero desde a infância, Eli Nunes enxerga a evolução da telenovela mais como uma mudança de plataforma do que de essência. "Novela é novela, não importa o tamanho da tela. O DNA do gênero sempre foi e sempre será a emoção", conclui. Para ele, a grande diferença hoje é a quebra da grade horária, com o público ditando o próprio ritmo de consumo. "Evoluir é entender que a estrutura do folhetim é poderosa o suficiente para sobreviver a qualquer tecnologia, contanto que a gente não abra mão da capacidade de mobilizar o coração de quem assiste", finaliza.

Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte