personalidade

Para Isabelle Nassar, "mostrar diferentes formas de feminilidade é fundamental"

Como Olívia de "Dona Beja" e Marcela de "Coração acelerado", a atriz Isabelle Nassar transita entre a HBO Max e a TV Globo em dois projetos simultâneos, explorando diferentes camadas da feminilidade e nuances do desejo.

Isabelle Nassar, atriz -  (crédito: Cássia Tabatini)
Isabelle Nassar, atriz - (crédito: Cássia Tabatini)

Ela já foi modelo em Milão, viveu no Japão, na França, na Turquia, na China e na Coreia. Viajou o mundo antes mesmo de decidir que o seu lugar era diante das câmeras e sobre os palcos. Agora, Isabelle Nassar colhe os frutos de uma trajetória tão diversa quanto incomum: a atriz está em dois dos mais aguardados projetos do audiovisual brasileiro, provando que sua bagagem multicultural não é apenas currículo — é ferramenta de trabalho.

De um lado, a nova versão de Dona Beja, produção da HBO Max. De outro, a novela das 19h da TV Globo, Coração acelerado, onde sua personagem entra em cena nos próximos dias. Entre uma gravação e outra, Isabelle Nassar conversou com a reportagem sobre os desafios de viver duas mulheres tão distintas e sobre como suas experiências pelo mundo moldaram o ofício de interpretar.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Na releitura da história da icônica Dona Beja, Isabelle dá vida a Olivia, uma filha de ciganos descrita pela própria atriz como destemida e movida pela liberdade — especialmente a sexual. "O que mais me atravessou na Olivia foi essa relação tão direta com o desejo. Ela não pede licença pra existir, nem pra sentir. E isso, historicamente, sempre foi um lugar muito negado às mulheres", reflete.

Para construir a personagem, Isabelle apostou num trabalho corporal e sensorial, fugindo da superintelectualização. "Eu quis acessar uma mulher que vive no agora, que não está mediando tudo o tempo inteiro." A atriz buscou referências em figuras femininas que, ao longo da história, foram rotuladas como "à frente do seu tempo" — mas que, em essência, apenas exerciam o direito básico de serem donas de si.

Na trama, Olivia tensiona normas e provoca desconforto, mas Isabelle enxerga nisso uma potência contemporânea. "Mostrar diferentes formas de feminilidade é fundamental porque rompe com essa ideia de que existe um único jeito certo de ser mulher. A Olivia não é um modelo, ela é uma possibilidade. E talvez seja isso que mais incomode e, ao mesmo tempo, mais liberte."

Entre a densidade e a leveza

Em paralelo à estreia na HBO, Isabelle entra na novela das sete da Globo vivendo Marcela, amiga de estudos de Alaorzinho (Daniel de Oliveira). Após um reencontro, a personagem é convidada por Zilá (Leandra Leal) para trabalhar na Alô Country, na produção do Zilá Girl. O que ela não esperava era reencontrar Alaor pai (Marcos Caruso) — e se envolver com ele, trazendo à tona segredos do passado.

"A Marcela tem uma leveza, uma espontaneidade que dialoga com o formato da novela das sete. Já em Dona Beja, existe uma densidade maior, um tempo mais interno. Eu tento não misturar esses registros, respeitar o universo de cada obra", compara Isabelle. 

A parceria com Marcos Caruso, com quem já havia contracenado em Travessia, é um dos pontos altos da experiência. "O Caruso é um ator extraordinário. O que mais me encanta nele é essa presença viva em cena, essa disponibilidade real para o outro. Ele não vem com nada engessado, ele está ali, acontecendo. É um privilégio dividir cena com alguém com tanta experiência e, ao mesmo tempo, tão aberto."

Isabelle Nasser, atriz
Isabelle Nasser, atriz (foto: Cassia Tabatini )

Das passarelas ao palco

Antes de se dedicar integralmente à atuação, Isabelle Nassar viveu uma vida nômade. Trabalhou como modelo profissional em Milão, Japão, França, Turquia, China e Coreia, colaborando com grifes como Roberto Cavalli e Diesel. Essa experiência, segundo ela, foi uma escola de deslocamento: "Quando você vive em diferentes culturas, você entende que não existe uma única forma de existir no mundo. Isso amplia muito o olhar sobre o outro".

Essa perspectiva se tornou seu método. "Cada personagem, para mim, é quase como entrar num país novo: tem uma linguagem própria, uma lógica interna, um jeito de sentir. E talvez por já ter sido muitas vezes estrangeira, eu tenho menos medo de não reconhecer tudo de imediato. Me aproximo com curiosidade, com respeito, e deixo que o personagem também me transforme", defende.

A estreia na televisão aconteceu em 2022, na segunda temporada da série Bom dia, Verônica (Netflix). No ano seguinte, integrou o elenco de Travessia como Sara, papel que lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Notícias de TV na categoria Melhor Atriz Coadjuvante.

Mas sua base é o teatro. Isabelle integrou montagens como o aclamado Grande Sertão: Veredas, dirigido por Bia Lessa, e Era Medeia, de César Augusto. Em 2020, assinou dramaturgia e atuou em Figo, espetáculo indicado ao Prêmio APTR de Melhor Montagem. Também participou de festivais internacionais, como o Tempo_Festival, sob supervisão de Jefferson Miranda.

Com duas personagens no ar simultaneamente — Olivia, a cigana que desafia convenções na HBO Max, e Marcela, a mulher enredada em segredos do passado na Globo —, Isabelle Nassar tem como maior ferramenta, talvez, justamente aquilo que a vida lhe ensinou antes mesmo dos holofotes: a arte de habitar outros mundos sem nunca perder de vista quem se é. "Não tenho medo de não reconhecer tudo de imediato. Me aproximo com curiosidade", conclui.

 


  • Google Discover Icon
postado em 20/04/2026 19:57 / atualizado em 20/04/2026 21:07
x