
No momento importante em que o streaming parece redescobrir a força das grandes narrativas, a HBO Max volta a apostar alto na teledramaturgia brasileira com Dona Beja, novela que estreia amanhã cercada de expectativas, debates e controvérsias. Longe de ser um simples exercício de nostalgia, a produção se apresenta como uma releitura contemporânea do clássico exibido pela Rede Manchete em 1986 — e faz questão de deixar isso claro desde o primeiro capítulo.
Com 40 episódios, a nova Dona Beja inaugura um novo momento para o audiovisual nacional no streaming, consolidando a aposta em histórias longas, densas e profundamente conectadas à realidade brasileira. Depois do êxito de Beleza fatal, a plataforma reafirma que novela não é um formato do passado, mas uma linguagem viva, capaz de dialogar com o agora sem abrir mão de sua força popular.
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Gravada em 2024, em meio a turbulências nos bastidores, a produção estreia globalmente em mais de 90 países e territórios, incluindo América Latina, Europa, Estados Unidos e Ásia. O alcance internacional reforça a convicção da HBO Max de que histórias profundamente locais podem — e devem — atravessar fronteiras.
Representação de coragem e resistência
Inspirada na figura histórica de Ana Jacinta de São José (1800–1873), a nova produção parte de uma constatação incômoda: a Beja que atravessou o imaginário coletivo foi, em grande parte, uma invenção: uma mãe solo, vivendo com duas filhas, sustentando-se sozinha — o suficiente, à época, para ser transformada em escândalo. É desse abismo entre história e fantasia que a novela extrai sua potência dramática.
Dirigida por Hugo de Sousa e Thiago Teitelroit, e escrita por Daniel Berlinsky e Antonio Barrera (autor português), Dona Beja se recusa a suavizar seus conflitos. "Não é uma novela de água parada, é movimento", explicou Berlinsky durante a coletiva de imprensa realizada na terça-feira (27/1). "A única coisa que eu peço é: pense, ache o que quiser, mas se permita sentir", reforçou o autor, destacando que, ao revisitar a história, percebeu como a figura real que inspirou a personagem foi distorcida ao longo dos anos. "O que se sabe de verdade sobre ela cabe em meia página. Era uma mulher solteira, com duas filhas, que se sustentava sozinha. Só isso já bastava para virar escândalo", explicou. A partir dessa base, a trama amplia o olhar para personagens e narrativas apagadas pela historiografia tradicional.
A atualização da história — que teve Maitê Proença eternizada como protagonista — também passa pela inclusão de temas como racismo, machismo, homofobia, transfobia e desigualdade social, sempre respeitando o contexto histórico. "A sociedade mudou menos do que a gente gostaria, mas a nossa consciência sobre essas questões se ampliou", avaliou Berlinsky.
Vivida, agora, por Grazi Massafera, Beja deixa de ser apenas um símbolo erótico para se afirmar como representação de autonomia, coragem e resistência. "Não estamos falando de um remake", reforçou a atriz. "É uma releitura que usa o passado para falar diretamente com o presente. A força dessa mulher atravessa o tempo." Consciente de que a obra deve provocar reações extremas, Grazi não demonstra receio. "Os conservadores vão dizer que é lacração. Vai ter crítica, vai ter hater. E tudo bem. Quando você provoca, obriga a sociedade a se olhar no espelho."
A discussão sobre sexualidade ocupa um lugar central na trama. Durante a coletiva, Indira Nascimento falou com franqueza sobre como a novela dialoga com vivências que, no passado, sequer tinham nome. "A gente vive uma heterossexualidade compulsória. Se eu, com 12 ou 15 anos, tivesse assistido a uma novela com uma personagem que descobre que talvez seja de outra sexualidade, isso teria mudado a minha vida", afirmou. Para ela, Dona Beja amplia horizontes de identificação e pode ter impacto direto sobre o público jovem, oferecendo imagens de afeto que escapam à norma.
Essa atualização também se reflete na abordagem racial. David Júnior e André Luiz Miranda, que vivem os protagonistas, agora representados como homens pretos, destacam o cuidado em construir personagens negros complexos, distantes dos estereótipos que historicamente marcaram narrativas de época. E a grande vilã da trama, Cecília, vivida por Deborah Evelyn, é uma mulher preconceituosa, mas é casada com um homem negro, com quem teve dois filhos. "Olha que personagem incrível", festejou a veterana atriz, que retorna à teledramaturgia.
Novelão adulto
Nos primeiros episódios exibidos para a imprensa, Dona Beja se revela um novelão adulto, de energia bruta, erotismo explícito, vilanias assumidas e conflitos de classe. Ambientada em 1815, a narrativa não perde de vista o presente: a mulher que se vê presa a um homem agressivo encontra caminhos de libertação e, ao fazê-lo, empodera outras mulheres ao redor. A união feminina, aliás, é um dos eixos da trama. Erika Januza, que vive Candinha, resumiu esse espírito: "É uma novela sobre cair, levantar e dar a volta por cima".
Outro deslocamento importante surge com o personagem Maurício Belgard, interpretado por Eduardo Pelizzari. Investigador conhecido do universo da obra original, ele ganha nesta versão uma dimensão íntima inédita: é um homem gay, vivido sem caricaturas. "Quando você julga à distância, cria um estereótipo. Quando você experiencia, entende", afirmou o ator, ao explicar sua abordagem. Mais do que antagonista, Belgard se torna alguém que reconhece em Beja uma figura de liberdade — alguém que, como ele, vive em tensão com as normas sociais.
Vandré Silveira vive Moacir, um dos dragões de Minas Gerais — um militar forte, valente e viril que terá aproximação com a personagem transexual Severina, vivida pelo ator Pedro Fasanaro. "Moacir tenta esconder o próprio desejo numa sociedade repleta de preconceitos. De um modo geral, Beja retrata a hipocrisia da época em que viveu, escandalizando a sociedade de Araxá com o seu temperamento transgressor, e isso se reflete em toda a história que será contada na tevê e já foi vista em 1986, na Manchete", observou o ator, que é mineiro de Belo Horizonte e conhece bem o conservadorismo do estado que é retratado na obra audiovisual.
"Severina é uma personagem inspiradora, e eu espero que ela inspire muita gente a essa sororidade e a esse empoderamento mútuo, a essa força compartilhada", acrescentou Pedro Fasanaro. Para Nikolas Antunes, que vive o capataz Valdo, Dona Beja permanece atual justamente por retratar, sob a moldura de uma novela de época, estruturas de poder que atravessam séculos: "É uma história sobre uma heroína meretriz, de origem pobre, que se relaciona com poderosos e atravessa abusos, lutas, recomeços e vitórias. Esse tipo de trama reflete a sociedade de maneira atemporal".
Dona Beja não pretende agradar a todos. Ambientada no passado, mas conectada às feridas abertas do presente, a novela aposta no incômodo como motor narrativo. E talvez seja justamente aí que reside sua maior força: usar a memória para provocar, questionar e lembrar que, para algumas mulheres, existir sempre foi um ato de coragem.
O início de tudo
Os direitos de adaptação de Dona Beja foram adquiridos em 2021, por meio de uma sugestão que partiu de um mineiro que conhece muito bem a história de Ana Jacinta, a mulher que revolucionou a sociedade de Araxá no século 19. Produtor de conteúdo para tevê com currículo de peso e bagagem internacional, Erick Andrade ainda estava entre Lisboa e Madri — locais onde desenvolveu a maior parte de seus projetos ao longo de 20 anos na Europa — quando chegou às suas mãos a proposta de adaptar a narrativa para uma nova jornada no audiovisual.
"Quem tinha os direitos da obra era Juliana Aguiar, sobrinha do Wilson Aguiar Filho (autor da novela original), que eu conheci em Madri e de quem fiquei amigo. Mas, em Portugal, não dava para fazer. Quando vim para o Brasil e passei a integrar o time da Floresta (produtora da Sony Pictures Television no Brasil, que desenvolveu e licenciou para o streaming os 40 capítulos da telessérie), retomei a ideia, e a empresa abraçou o projeto", contou o produtor executivo. "A mensagem que esse projeto deseja transmitir é o empoderamento do feminino. É uma obra de época, mas nós vislumbramos uma maneira de transportar elementos atuais para aqueles tempos e trazer um olhar diferenciado sobre aquela cultura", argumentou.
Dona Beja traz, ainda, no elenco, nomes como Bianca Bin, Gabriel Godoy, Paulo Mendes, Otávio Müller, Kelzy Ecard, Nikolas Antunes, Lucas Whikaus, Tuca Andrada, Luciano Quirino, Elisa Lucinda, Catharina Caiado, Arthur Alavarse, Arilson Lucas e retornos festejados como Isabela Garcia, Lucia Veríssimo e Lucinha Lins.

Diversão e Arte
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