Cinema

Um merecido filme para a celebração de Zico chega às telas da cidade

O diretor João Wainer focaliza a história de Arthur Antunes de Coimbra, o Zico, desde a infância carioca, até a atuaidade, junto à família e empreendimentos

No dicionário rubro-negro, o F e o Z são as letras mais importantes do alfabeto. Partindo dessa premissa, o Flamengo é o mundo e Zico um ser humano com dimensões quase divinas... Os mais velhos idolatram o camisa 10, enquanto os mais jovens, das gerações digitais, aprenderam a respeitá-lo. Mas, para quem não é flamenguista, Zico é contestável. Apesar dos seus feitos, poucos o colocam na prateleira de craques como Pelé, Garrincha e Didi, embora haja admiração pela figura. Ocorre que o Flamengo tem pelo menos 40 milhões de torcedores. É muita gente! Tentando um equilíbrio diante desse quadro "polarizado", o filme Zico, o Samurai de Quintino estreia nos cinemas para mostrar a trajetória de um importante personagem do esporte brasileiro.

Em pouco mais de 1 hora e 40 minutos, o diretor João Wainer conta a história de Arthur Antunes de Coimbra, o Zico, desde a infância no subúrbio de Quintino, no Rio de Janeiro, até os dias atuais, quando o ex-jogador, aos 73 anos, divide o tempo com a família e a administração das empresas. Depoimentos de Ronaldo Fenômeno, Parreira, Júnior e jornalistas que acompanharam a carreira do craque intercalam imagens de gols e conquistas de títulos, desde os anos 1970. Mas o documentário resgata momentos importantes do futebol brasileiro, como as Copas de 1978, 1982 e 1986,  e aborda temas como a influência da ditadura no esporte e a perseguição e prisão de um irmão do jogador pelos militares.

A exaltação de títulos e o desfile de gols são a linha condutora do documentário, mas a vida pessoal de Zico, marcada pela forte presença dos pais — imigrantes portugueses que criaram os filhos com dignidade no Rio, colocando a educação em primeiro plano — e pela figura forte e determinada da esposa Sandra, parceira desde a adolescência, são destaques do filme. Há também dramas bem abordados,  como o corte da Seleção Olímpica em 1972, a transferência conturbada para a Itália em 1983, a brutal lesão provocada pela brutal agressão do zagueiro Márcio Nunes (Bangu), em 1985, e a perda do pênalti contra a França na Copa do México, em 1986 — fato lembrado por Zico, mas principalmente por todos aqueles que questionam sua carreira vitoriosa. Zico venceu estaduais, brasileiros, Libertadores e um Mundial de Clubes, com uma vitória épica sobre o Liverpool, mas Zico nunca ergueu uma Copa do Mundo.

Imagens de Zico lendo jornais na concentração, da coleção de recortes de reportagens feita por Sandra, de uma entrevista a TV dentro de campo — sim, o repórter foi expulso pelo árbitro! — e do jogador admitindo que lavava seus uniformes no Japão podem parecer estranhas aos mais jovens, mas dão a dimensão de um personagem que, mesmo com a grandeza de um ídolo, viveu uma época bem diferente do badalado e bilionário futebol de hoje. Para se ter uma ideia, a negociação entre Flamengo e Udinese, da Itália, para a venda do meia atacante girou, em torno de U$S 2 milhões, valor irrisório no mercado moderno. 

Chama atenção também o amadorismo do futebol japonês quando da chegada de Zico a Kashima, cidade que entrou no mapa dos brasileiros justamente por causa do Galinho, que virou ícone no país e ajudou a mudar a história da modalidade em toda a Ásia. Zico, o Samurai de Quintino é um documento de uma época do futebol, de uma transição do quase amadorismo para um dos maiores negócios do mundo. Para os flamenguistas, o retrato de uma era de ouro. Para os demais torcedores, vale como um importante relato sobre o esporte mais popular do país nas últimas cinco décadas.

 

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