INDÚSTRIA MUSICAL

Quando o BTS diz não ao Grammy; entenda polêmica musical

Em meio a uma turnê que quebra recordes de público ao redor do mundo, o grupo sul-coreano questiona a necessidade de categorias definidas por geografia e idioma

O BTS realiza atualmente a turnê mundial Arirang, que vem quebrando recordes de público em diversos países -  (crédito: KIM MIN-HEE / POOL / AFP)
O BTS realiza atualmente a turnê mundial Arirang, que vem quebrando recordes de público em diversos países - (crédito: KIM MIN-HEE / POOL / AFP)

A decisão do BTS de não submeter sua música à consideração do Grammy de 2027 merece atenção muito além do universo do K-pop. Em comunicado divulgado nesta terça-feira (28/7) o grupo sul-coreano afirmou esperar que sua música seja "ouvida e amada pelo que ela é, e não dividida por região ou idioma". A declaração ocorreu pouco mais de um mês após a Recording Academy anunciar a criação de uma nova categoria dedicada à música pop asiática. O debate que emerge dessa decisão é legítimo.

A criação de categorias específicas pode representar reconhecimento para manifestações culturais historicamente sub-representadas. No entanto, também levanta uma questão inevitável: quando um artista já demonstrou sua capacidade de competir em igualdade de condições nos principais mercados do mundo, por que separá-lo?

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A coincidência entre a decisão e o anúncio da Recording Academy torna a reflexão ainda mais urgente.

O BTS realiza atualmente a turnê mundial Arirang, que vem quebrando recordes de público em diversos países. Em Paris, quase 200 mil pessoas passaram pelo Stade de France ao longo de duas noites consecutivas.

O grupo também mantém forte presença nos Estados Unidos, principal mercado da indústria musical global.

Os números ajudam a compreender a dimensão do fenômeno, mas não explicam tudo.

O que os números não explicam é mais significativo: o BTS construiu uma audiência formada por pessoas de diferentes culturas, idiomas, idades e trajetórias de vida. Sua relevância deixou de ser regional há muito tempo. A música produzida pelo grupo continua profundamente ligada à língua e à cultura coreanas, mas alcançou uma dimensão universal que ultrapassa categorias geográficas.

Por isso, a decisão de não concorrer ao Grammy, neste contexto, se impõe como uma defesa de princípio.

A discussão não é sobre a Coreia do Sul nem sobre o K-pop. É sobre a própria ideia de cultura global.

Em um mundo onde milhões de pessoas assistem a filmes legendados, acompanham séries estrangeiras e escutam músicas em idiomas que não falam, insistir em fronteiras culturais rígidas parece cada vez mais incompatível com a realidade.

A cultura continua nascendo em territórios específicos. Mas seu alcance já não pode ser definido por eles.

Talvez seja exatamente isso que o BTS esteja dizendo.

Não se trata de negar as origens. Trata-se de recusar que elas sejam transformadas em limites.
Porque reconhecer a diversidade cultural é fundamental.

Mas reconhecer não é o mesmo que separar.

E essa é uma discussão que a indústria cultural global precisará enfrentar — cada vez mais, nos próximos anos.

*Mônica Cabañas é jornalista, correspondente internacional e credenciada junto às Nações Unidas em Genebra, Doutora em Educação pela Universidade Santander do México e CEO do Projeto "O Mundo por trás do Mundo".

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MC
postado em 29/07/2026 14:33
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