Memória

Artigo: Glória aos céus nas alturas

A capacidade de transitar entre melodrama, vilania, emoção e humor talvez seja a melhor definição de Glória Menezes

Glória Menezes -  (crédito: Reprodução/Redes sociais )
Glória Menezes - (crédito: Reprodução/Redes sociais )

A morte de Glória Menezes deixa uma lacuna na arte, mas também um legado. Ao longo de mais de 60 anos, ela atravessou diferentes épocas, linguagens e gêneros, construindo personagens que permanecem na memória do público. Mas foi nas novelas que o nome artístico de Nilcedes Soares de Magalhães foi escrito com mais potência e afeto.

Glória foi pioneira ao protagonizar, ao lado de Tarcísio Meira, a primeira novela diária da televisão brasileira, 2-5499 Ocupado, e depois se consagrou em trabalhos históricos, como Irmãos Coragem (também com o marido) e Pai herói, duas grandes obras de Janete Clair nos anos 1970. 

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Na década seguinte, a atriz adotou uma nova roupagem e protagonizou uma série de novelas das 19h, com um tom mais contemporâneo, colorido e cômico, como Guerra dos sexos — marcada não somente pelo aguardado reencontro em cena com Tarcísio, mas também com os dois gigantes da dramaturgia Fernanda Montenegro e Paulo Autran. Ela também dividiu o protagonismo de Brega & Chique com outra dama da televisão, Marília Pêra, rendendo momentos divertidíssimos. 

Até que, em 1990, Glória ganhou do amigo Silvio de Abreu um grande presente para sua trajetória: em Rainha da Sucata, novela das oito, a quatrocentona decadente Laurinha Albuquerque de Figueroa revelou um extraordinário talento para a vilania com humor e elegância. A cena em que a desesperada falida se joga do alto de um prédio na Avenida Paulista é um dos momentos mais emblemáticos da teledramaturgia. E, também pelas mãos do novelista, viveu Julia Braga — uma das inúmeras mortes causadas pelo serial killer do sucesso A próxima vítima (1995), alvejada em uma rua de São Paulo em plena luz do dia — e Marta Toledo — em que mais uma vez reencontra Tarcísio Meira como par romântico na polêmica Torre de Babel (1998), a novela do shopping que explode.

A diva da televisão também sabia brincar — e era um luxo quando um autor ou diretor conseguia escalá-la para essa missão. De volta ao horário leve das sete, em 2002, O beijo do vampiro trouxe a feiticeira Zoroastra, permitindo que ela explorasse um lado mais lúdico e conquistasse uma nova geração. Após passar pela densa A favorita (2008), como Irene — em que contracena com Tarcísio pela última vez —, a Stelinha, sua derradeira personagem em novelas, em Totalmente demais (2015), devolveu à atriz, como uma socialite sofisticada e divertida, o prazer da comédia para encerrar com requinte o seu invejável currículo nos folhetins brasileiros.

Essa capacidade de transitar entre o melodrama, a vilania, a emoção e o humor talvez seja a melhor definição de Glória Menezes. Ela pertence a uma geração que ajudou a inventar a televisão e, ao mesmo tempo, soube se reinventar dentro dela. Sua obra permanece como patrimônio afetivo de um país que aprendeu a reconhecer, em seu rosto, dezenas de mulheres diferentes — que, segundo ela própria declarou ao especial Tributo, lançado pela TV Globo no ano passado, "estão todas aqui ainda". E, como declarou a diretora Denise Saraceni, "Glória aos céus, nas alturas, amém!".

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postado em 18/08/2026 22:38 / atualizado em 18/08/2026 22:39
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