Artes cênicas

Regina Casé: "O humor abre uma brecha para mudar a mente e o coração"

Regina Casé traz ao CCBB a peça Viva! Vida!, na qual reflete sobre a experiência humana, mas também sobre a ação do homem no planeta

Para acompanhar a dramaturgia, Regina ganhou uma linha do tempo de bilhões de anos idealizada por Daniela -  (crédito: Carlos Airó Nascimento )
Para acompanhar a dramaturgia, Regina ganhou uma linha do tempo de bilhões de anos idealizada por Daniela - (crédito: Carlos Airó Nascimento )

O roteiro de Viva!Vida! nasceu de encontros durante os quais Regina Casé não tinha pudor de perguntar. Ao ouvir as conversas do marido, o diretor Estevão Ciavatta Pantoja, com os cientistas Antônio Nobre e Fábio Scarano, ambos especialistas do clima, a atriz se danava a perguntar.

Da origem da vida à hiperconexão contemporânea, tudo interessava a Regina. Estevão passou, então, a gravar as conversas e delas nasceu o espetáculo que chega hoje a Brasília, com apresentações gratuitas até quinta-feira no jardim do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

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"Foi tudo graças à disciplina e à criatividade do Estevão, ele foi organizando isso, foi criando uma dramaturgia a partir desses nossos encontros, dessas nossas conversas e de inúmeras pesquisas dele anteriores e a partir dali", explica Regina, que escreveu o texto da peça junto com Estevão, Nobre e Scarano.

A atriz juntou um time de luxo em termos de criatividade para montar Viva!Vida!. Além de Estevão na direção, ela conta com Daniela Thomas, responsável pelos cenários feitos em parceria com o Estúdio Radiográfico, o mesmo que criou as animações em LED da turnê Tempo Rei, de Gilberto Gil.

Para acompanhar a dramaturgia, Regina ganhou uma linha do tempo de bilhões de anos idealizada por Daniela. "Ajudou-me de uma maneira que ficou divertida, leve e ao mesmo tempo super clara para qualquer criança entender. Isso, inclusive, tem sido genial. Nunca pensamos que era um espetáculo para crianças, mas elas vêm cada vez mais. Terminamos a temporada de São Paulo com quase 20 crianças no palco", conta a atriz.

Para completar o que ela chama de "dream team", Amaro Freitas ficou responsável pela  trilha sonora. "Trabalhar com esse time foi realmente um sonho. Eu conhecia a Daniela, era amiga, mas nunca tinha trabalhado com ela e imaginava que ia ser legal porque admirava muito tudo que ela já tinha feito. Só que agora foi um trabalho apaixonado, visceral. Acho, sinceramente, que, se ela não tivesse se juntado ao Estêvão e a mim, talvez não tivesse saído esse trabalho", diz Regina.

"Os dois me guincharam, me devolveram o ânimo e o entusiasmo. E agora eu estou mais animada do que nunca. E Amaro veio completar esse quarteto de uma maneira quase espiritual. A música dele, para nós todos, foi transcendente, levava a gente para lugares que a gente nem imaginava." 

Em entrevista ao Correio, a atriz fala sobre o espetáculo, um monólogo no qual ela traz, com muito humor, mas também com a gravidade que o tema exige, reflexões sobre a existência, a vida no planeta, a interação com as outras espécies, as mudanças climáticas, a importância dos saberes ancestrais e a velocidade da tecnologia que aproxima, mas também afasta, na mesma medida, os seres humanos. 

ENTREVISTA // REGINA CASÉ

O espetáculo reflete sobre a ideia de que somos todos um organismo vivo, parentes surgidos de uma mesma origem. O espetáculo mudou sua forma de olhar para o cotidiano e para os seres vivos? 

Eu olho para um monte de coisas de maneira totalmente diferente. Eu falo isso toda hora no palco: eu estou aprendendo junto com eles. Não estou ali como uma professora que detém aquele saber. Quase tudo que eu estou dizendo ali é tão novo para mim quanto para quem está ouvindo. Isso me dá um entusiasmo, para usar a palavra certa, um tesão, uma vontade de transmitir aquele conhecimento enorme. Eu passei a olhar quase tudo de uma maneira diferente e, principalmente, passei a reparar um monte de coisas que eu não prestava atenção.

Ciência, espiritualidade, saberes ancestrais, como aproximar todas essas áreas normalmente tratadas como incompatíveis? 

Eu tenho a vantagem de estar no campo da arte, o que me dá a liberdade de misturar isso tudo. E, justamente, o que eu chamei de loucuras que eu falava com os cientistas e que eles adoravam é que eu perguntava: "Mas isso que você está dizendo não é a mesma coisa que os Yanomamis sempre falaram?" E eles diziam: "Eu acho que é, mas se eu falar, eu posso ser expulso da academia. Você, como artista, e Estevão, como artista, podem". E Estevão fez uma pesquisa linda de várias correspondências em diferentes saberes que, na verdade, estavam falando a mesma coisa.

E qual o papel do humor nesse solo? Como falar com humor de questões tão sérias e graves? 

Porque quando a gente pensa nas mudanças climáticas que estamos vivendo no momento, se nós fizéssemos um espetáculo alarmista e dizendo: "Olha, olha que horror tudo isso que está acontecendo", todo mundo ia sair de lá numa sensação de pânico e impotência. E o que a gente quer é o contrário. A gente acredita que é possível puxar o freio de mão, que é possível transformar o jeito da gente de conviver com o planeta e conviver uns com os outros e com todos os seres vivos. Então, o humor ajuda demais nisso. Eu acho que só tem duas maneiras de você quebrar alguém que está totalmente impenetrável, refratário a uma ideia nova, para não dizer negacionista. Só existem dois caminhos para isso: da emoção, você faz o cara chorar, ou você faz o cara dar uma risada. Na hora que ele chora ou que ele dá uma risada, ele abre uma brecha para você entrar com tudo e abrir a mente e o coração dele.

Nunca falamos tanto da vida no planeta, mas também nunca estivemos tão desconectados da experiência de estarmos vivos. Como você vê esse paradoxo? Sabemos de muita coisa, mas não estamos muito conectados com nós mesmos...

A gente fala muito sobre essa soberba, essa arrogância do ser humano de achar que ele é muito mais, melhor e maior do que tudo que existe na face da Terra. A ideia de progresso há muito tempo vem atrelada a uma ideia de controle da natureza, de dominar a natureza, de sufocar a natureza. E agora a gente está começando cada vez mais a ter as consequências disso tudo. E fica claro que a gente não pode conviver com a natureza do jeito que a gente vem fazendo, fingindo que ela não existe. Quanto tempo a gente passa, às vezes, semanas sem olhar pro céu um dia, sem ver uma estrela? Quanto tempo você passa sem colocar o pé na terra? Sem tomar um banho de chuva? Sem entrar num rio ou num mar? Sem prestar atenção numa árvore que seja? Agora, eu acho que a gente está tendo sustos que estão obrigando a gente a rever essa ideia de de domínio, de supremacia, que trouxe todo esse desequilíbrio que a gente está vendo agora, tanto para nossa espécie quanto para outras

O que há de mágico no palco? O que ele permite que outros meios, como televisão e o cinema, não permitem?

Muito improviso. Eu vou muito à plateia. Cada dia as pessoas reagem de um jeito. Eu acho que eu consigo deixar as pessoas tão à vontade que muitas delas falam ou até me interrompem no meio das cenas. E as crianças foram cada vez chegando mais. Tem um momento da peça que chove. Chove de verdade, cai água. As crianças iam lá para botar a mão, para se molhar. Nos últimos dias, eu tinha até levado umas toalhas, porque elas entravam e ficavam ensopadas. Eu acho que tem um risco: a plateia tem medo do que que eu vou falar para eles, o que que eu vou fazer quando eu vou para a plateia, mas meu risco também é enorme. Por isso, eu acho que é justo. Porque eu também estou correndo o mesmo risco. E essa brincadeira, esse jogo entre a plateia e eu só acontece no teatro, não tem como acontecer no cinema, nem na tevê. Isso dá um frisson, dá uma sensação maravilhosa de que você está vivo. E iguala a gente num lugar sobre o qual a gente fala o tempo todo na peça. A gente fica realmente todo mundo, um bando de humanos, olhando o que que a gente anda fazendo da vida da gente.

  • Carlos Airó Nascimento  _ VIVIVIDA0943 - Identidade VIsual- Estúdio Radiográfico
    Para acompanhar a dramaturgia, Regina ganhou uma linha do tempo de bilhões de anos idealizada por Daniela Foto: Carlos Airó Nascimento
  • Carlos Airó Nascimento  _ VIVIVIDA0943 - Identidade VIsual- Estúdio Radiográfico
    Carlos Airó Nascimento _ VIVIVIDA0943 - Identidade VIsual- Estúdio Radiográfico Foto: Carlos Airó Nascimento
  • Carlos Airó Nascimento  _ VIVIVIDA0943 - Identidade VIsual- Estúdio Radiográfico
    Carlos Airó Nascimento _ VIVIVIDA0943 - Identidade VIsual- Estúdio Radiográfico Foto: Carlos Airó Nascimento
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postado em 25/08/2026 05:00
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