
Aos 55 anos, o ator, diretor e dramaturgo Glicério do Rosário vive um momento de efervescência criativa e reflexão profunda. Entre a reformulação de seu celebrado monólogo Pai, seu trabalho na novela Quem ama cuida, na TV Globo, e as memórias de uma carreira construída sobre a base sólida do teatro, o artista mineiro conversou com a coluna sobre os desafios de sua arte e os temas que o mobilizam atualmente.
Tudo começou em 1988, com a peça O pagador de promessas. Para Glicério, aquilo não foi apenas assistir a uma montagem; foi um verdadeiro encontro com o sagrado, uma epifania: "Uma espécie de suspensão do tempo e você sente como se estivesse vivendo um momento pleno!", relembra ele sobre a cena em que a personagem Zé do Burro atravessava a plateia com a cruz nas costas. "Foi a certeza de que aquilo tinha que fazer parte da minha vida".
Essa experiência o lançou em uma trajetória que, décadas depois, segue alimentada pela mesma paixão. Antes do teatro, Glicério transitou pelo break, pelo jiu-jítsu e pela mímica. Essa bagagem corporal, longe de ser um passado distante, é uma ferramenta viva em seu processo criativo. "Creio que aparece com uma atenção bem mais detalhada ao gesto, ao pequeno movimento e, principalmente, à percepção de movimentos internos, que auxiliam na construção da emoção e de sutilezas", explica.
Paternidade e cuidado
Essa percepção apurada do espaço e do corpo em cena se revela crucial na construção de personagens como Enéas, seu papel atual na novela das 21h. O ator está, neste exato momento, reformulando o solo Pai, e a razão para essa revisão é tão social quanto artística. Para ele, falar sobre masculinidade, cuidado e afeto é uma necessidade premente. "Casos de feminicídios cada vez mais crescentes são um sinal de que os homens não estão sabendo lidar com os novos rumos que as mulheres escolhem para si, não sabendo lidar com o modo de deixarem de ser o centro", afirma com contundência.
Glicério acredita que o espetáculo pode ser uma ferramenta para promover o amadurecimento emocional masculino. "Pais mais responsáveis e cuidadosos criam adultos mais equilibrados emocionalmente. Pais que desenvolvem uma paternidade mais plena são, sobretudo, parceiros das mulheres." Transitando entre teatro, cinema e TV, Glicério destaca o teatro como a grande base para qualquer tipo de atuação. No entanto, ele compara a experiência do monólogo - que exige um estado presente e efêmero, que não pode ser repetido - com o ritmo frenético das gravações televisivas. "Na televisão, com o ritmo frenético - apesar da espera constante das gravações - você tem que desenvolver um 'estar pronto' em segundos!", descreve.
Além disso, a intimidade da câmera exige uma dosagem precisa da energia, um aprendizado que ele leva consigo para cada novo trabalho. Na novela, seu personagem Enéas é o amigo leal de Otoniel, um homem que carrega a dor da perda de um filho. Para Glicério, essa camada trágica enriquece o personagem e dá profundidade ao seu desejo inato de cuidar dos outros. "O passado trágico com seu filho, talvez contribua para essa característica de cuidar, como se quisesse, ao cuidar de quem ama, salvar o filho dentro dele", reflete. É desse lugar que surge o possível romance com Elisa, movido pela vontade de proteger quem sempre protege a todos.
Premiado como Melhor Ator, Diretor e Texto, Glicério fala, com humor, sobre o que o move hoje entre as três funções: "Atuar é sempre minha melhor atuação. Encontro na direção e também na escrita um pouco de atuação, também. É como se eu 'atuasse' pra escrever ou dirigir." No entanto, conclui: é como ator que ele encontra o momento mais potente de realização.

Diversão e Arte
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