
Crítica // Nosso segredo ★★★★★
Há um elefante na sala da família retratada em Nosso segredo, título da diretora Grace Passô, sobre os restos de uma família que esbarra na dor em comum do luto e de uma rede de amor que perpassa tudo e todos, após a morte do pai. A herança das saudades está entalhada na parede do epicentro da desnorteada rotina do clã: a casa de Gilson (Robert Frank), Grazi (Jéssica Gaspar), Guto (Flip) e Anamélia (Marisa Revert), além de tantos outros tipos.
Há bolor decalcado nas paredes e teto da casa, representada no filme que enreda o espectador no sentimento de isolamento, na profundidade de uma reconstrução e no discreto exame da intimidade constituída de camadas, com personagens absortos em núcleo de dores e bolhas.
Há uma promessa de que personagens saiam "da agonia", e, na jornada, o filme faz lembrar o clássico Lavoura arcaica, porém destituído da dramaturgia encantada pelo peso da palavra; em Nosso segredo, o lúdico e a confusão do menino Tutu (o ótimo Efraim Santos) são circulares numa narrativa que valora silêncio, simplicidade, construção de identidade e até superação de bullying. Vencedor de Melhor filme, no recente Festival de Gramado, o longa de Grace Passô foi exibido ainda no Festival de Berlim.
O vai e vem da montagem desafiadora para o espectador que ruma agonias de personagens chega ao ápice na impactante cena do sótão. A atmosfera de sincretismo e de terror abraça um choque em Nosso segredo, que, por momentos, faz ecoar O som ao redor e Adorável sonhadora, ambos filmes de 2012. Embalado por Caravana (Alceu Valença e Geraldo Azevedo), o longa não hesita em anunciar: "Tudo pode acabar a qualquer (hora)".
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