Cinema

Brasília ganha seu próprio herói de ação

Com muita agilidade e acabamento cuidadoso, Manual do herói, longa de ação do ceilandense Fáuston Silva, totalmente filmado na cidade, entra em cartaz nos cinemas

Numa era de paranoia, de extremismo, em plena crise pandêmica, durante as locações do filme Manual do herói, foi em Águas Claras que o cineasta Fáuston da Silva, numa locação, ficou estarrecido. A mera pichação relacionada à Ursal (a suposta União das Repúblicas Socialistas da América Latina, que havia virado meme, dada a inexistência), com retrato de um ursinho carinhoso, ao lado de foice e martelo. "A galera, os vizinhos começaram a ligar para a polícia dizendo que estavam pichando o símbolo comunista. Falaram que o comunismo estava ganhando expressão lá na parede deles", diverte-se. Três anos depois, o cineasta morador de Arniqueira está à frente do primeiro filme de herói urbano, "com brasilidade", do país, checada a lista que traz Capitão Astúcia (2022), Besouro (2009) e O Doutrinador ("vejo este filme, como um filme de anti-herói", diz).

O amuleto de Ogum (1974, de Nelson Pereira dos Santos), como ele diz, traz um herói inserido em meio nada urbano.

Filmado em Taguatinga, Plano Piloto e Águas Claras, o longa traz, de relance, menções a quadrinhos que remetem à capital, como o Capitão Capivara e o Homem Ariranha (numa homenagem ao sargento Sílvio Hollenbach, que dá nome ao zoológico). Muito é Brasília, mas nada é puro cartão-postal. "Os temas da periferia não me assustam e não os abordo de forma afetada. Não vou colocar, nunca, o meu personagem negro, ou periférico, no lugar de vítima. Não quero que ninguém sinta pena dele. Quero que o espectador veja aquele cara ali como um herói", enfatiza Fauston.

Criativo no uso de "uma mitologia interna", com expressões como "coração de prata" e "canto de baleia", Fáuston, um religioso policial, formado em cinema, na UnB, onde também estudou economia e direito, reafirma o culto ao clichê da jornada do herói. "Venho da cultura dos quadrinhos, e do universo em que saltam expressões únicas como 'Hulk esmaga' ou mesmo muita coisa dos heróis televisivos japoneses como Jaspion.

Com experimentos científicos, e divisões entre vilões, heróis e omissos — "com omissos inclinados para a tirania do extremismo" —, Manual do herói transborda em ação e até pontos ideológicos. "Há, no mundo do filme, um acordo entre vilões e os omissos — como, no mundo real, existe o acordo político que une centrão e a extrema direita. No filme, o líder dos vilões é interpretado pelo mesmo ator que faz o senador", adianta.

No campo da ficção, e com viés crítico, o roteiro estampa um projeto chamado "Pacto pela pátria", o que deixa confortável o cineasta que representou o Brasil, em festivais como os de Havana (Cuba), e a América Latina, no Sapporo Short Fest (Japão), tendo parcerias com Lázaro Ramos, João Miguel e Caru Alves de Souza. Nestas andanças e no fazer de cinema, o dinheiro público gera peso para Fáuston. "É um dinheiro que tem que ser gerido com muita responsabilidade. O Manual do herói é uma megaprodução de apenas R$ 1,5 milhão. Ele foi muitíssimo barato, e numa fase crítica de pandemia. Só pudemos finalizar pela lei Paulo Gustavo", observa. Fauston é o mesmo diretor de Meu amigo Nietzsche, premiado em festivais da França, Espanha, Alemanha, Suíça, Argentina, Chile e Colômbia.

Entrevista // Fáuston da Silva, cineasta

Como vê entrar no circuito com muita sessão de Homem-Aranha?

Há sorte, por nosso filme ser melhor (risos). Gosto demais do Homem-Aranha. Desse que está nos cinemas, ele só comete um erro em relação à mitologia dos quadrinhos: e talvez seja uma das coisas que mais gerasse adesão para o público brasileiro, que é as dificuldades econômicas que o Homem-Aranha das HQs sempre enfrentou. O filme ignora totalmente o fato de ele ter boletos para pagar. Nisso, o filme peca (risos).

O lado periférico, entre aspas, não está alinhado à criminalidade. Isso é um cuidado especial? E qual a sua origem, e como percebe teores de políticas públicas?

Meu sonho, antes de mais nada, era o de que um menino que assista ao filme, ao ver uma pessoa (na rua) com o carro quebrado, va lá, e ajude a empurrar o carro. Simplesmente isso interessa para mim. Estou com 46 anos, nasci no Maranhão e, aos 16 anos, vim morar na Ceilândia. Estudei no Centro de Ensino Médio 10 (P-Sul). Morei na "Fimlândia", que é o fim da Ceilândia. Então, quando fazia cinema na UnB, eu tinha o privilégio de poder dormir em toda a rota do ônibus. Literalmente, pegava o ônibus na primeira ponta e descia na última. Usei, em momento, o sistema de cotas. Não embarco nessa (de que meritocracia deva prevalecer). A política pública não é pensada para exceções, ela é pensada para regra. Então, se a regra é a de pouco acesso (a universidade), então eu (Estado) vou ter que gerenciar isso para que haja mais acesso. Até para gerar um país melhor. Fiz o filme com o FAC (Fundo de Apoio à Cultura) junto com o FSA. Uma coisa incrível, porque, você sabe, antes, o fomento da arte não chegava.

No filme há drone, montagem cheia de tecnologia... Como vê um filme sobre manual arcaico chegando para uma juventude tão dependente de tutorial informatizado, e você usou IA no filme?

Gostei da sua abordagem. Não, não tinha IA. Infelizmente, não tinha. Se fosse hoje em dia, eu, certeza, usaria em alguns momentos. Quando a gente finalizou não existia nem IA de imagem com qualidade; era na época que o papa (cuja imagem virou meme) tinha seis dedos (risos). Nosso filme tem apenas efeitos práticos. Foi filmado no tempo da pandemia (em 2023). Quanto ao público, o vejo como mais seleto. O cinema tem várias camadas. Há o mais pop, sem julgar, já que o cinema pipoca é relevante para todos nós. Mas tem essa camada de ação na qual tenho uma pretensão de que o filme fuja do panfleto (stricto sensu). Queremos trazer debates para a geração mais jovem. O manual do herói encerra um manual de virtudes. No filme, personagens que estejam colocados dentro de uma bolha diminuem sua carga de nobreza, até mesmo quando se trata dos heróis.

Você é partidário da Marvel ou da DC?

Cresci, fui alfabetizado com Turma da Mônica, e com o X-Men. Tive todos aqueles gibis da fase do (roteirista) Chris Claremont. Aquela fase em que a Vampira vai para Terra Selvagem, período que fixou no meu imaginário. Aí, veio a era do Apocalipse. Há quem reclame, no Brasil, isso de abordar muito o aspecto e o ambiente da ditadura militar. Há fase do X-Men que abordava isso, o totalitarismo. Qualquer fase de trauma, em que vilão esteja claramente posicionado, tópicos sobre escravização, sobre nazismo, abrem debate. Nos X-Men, havia o debate racial (por serem mutantes). Isso, numa época em que os X-Men já tinham mulheres negras com o protagonismo total. Várias mulheres (nas HQs) estavam na posição de liderança. Então, eu sou mais Marvel do que DC, ainda que goste das duas editoras.

O que a parcial formação em economia te rende no cinema?

Eu sou bom em marxismo, conheço as cartilhas de direita e de esquerda, e não só pelo aspecto da sociologia, mas da economia e da macroeconomia. Eu amava ciência política, fazia muitas matérias na UnB. Uma pessoa que vê Meu amigo Nietzsche (premiado curta de 2012), e entende a filosofia, a do século 19 que dá pulo forte no século 20, vai beber muito mais do que um espectador comum daquele filme. Na minha filmografia tem um monte de coisa lá que coloco, e não por fetiche, eu coloco porque gosto de ter lá um subtexto (na compreensão).

Como lida com representatividade em cinema?

Buscamos nunca gerar um contraste que incorra em esteoreotipar, quando escolhemos  atores descendentes de indígenas, como Eduardo Ydiriuá e a Lila Kamayurá. No elenco, temos negros, indígenas e pessoas brancas e outras, miscigenadas. Nosso filme tem uma paleta bonita, com zero dificuldades nisso. Quando comecei a filmar, nosso filme já tinha diversidade. Aí, de repente, veio a lei que impôs a diversidade — e isso é muito bom. No Final Draft (app de formatação de roteiros), você sabe, por exemplo, a quantidade de personagens femininas que você tem e quantos porcento das falas são delas. Não adianta ter 80% de personagens femininas, e 10% das falas serem delas! Acho que todos nós precisamos ter vigilância e mostrar a diversidade, e a beleza que é o nosso país. O pessoal acha que é vilania o cinema (de fora) ser principalmente protagonizado por homens brancos: Indiana Jones, o Luke Skywalker... Mas é porque o diretor é um homem branco! Então, se não tiver um diretor negro, uma mulher negra, um cara islâmico, há linguagens que não se expressam.

Como está a carreira de policial militar?

Sou o primeiro sargento com lotação na Subsecretaria de Prevenção à Criminalidade, sou assessor militar na Secretaria de Segurança. Trabalhamos só com pautas sociais, com enfrentamento ao feminicídio, auxiliamos menores que incorreram em atos infracionais a buscarem reinserção na sociedade. Lido com o projeto Viva Flor, com o Turminha mais Segura, constituído por grupo de teatro. Falamos com educadores e crianças, com linguagem extremamente cuidadosa, sobre pedofilia, cyberbullying e importunação sexual. São aspectos instrutivos.

O Afonso Brazza (cineasta-bombeiro, morto em 2023) é referência, em que aspecto?

No da coragem. O pessoal lembra da estratégia de marketing que ele usou, "como pior cineasta do mundo". Mas, se ele tivesse sobrevivido, com acesso à lei de incentivo, ele seria um megadiretor de ação brasileiro. Muito melhor do que algumas carniças. Ele tinha o que todo realizador de arte do mundo precisa: energia, coragem, força e valentia. Ele não pediu autorização de ninguém para dizer: "Vou fazer um filme de ação". Quanto mais eu penso, mais eu respeito o Brazza. Se ele tivesse uma equipe como a minha e um dinheiro como eu tive... Eu nunca fiz produção, na unha, igual ele. Sou bom no edital, sou bom na planilha de Excel (como produtor de filmes), e ainda fiz direito.

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