Foi no Degraus, um bar com pista de dança na 304 Norte, que Rosa Passos e Lula Galvão se conheceram. O ano era 1984 e o público dançava conforme a música tocada pela banda escalada para o dia. A cantora habitual entrou de férias e, como Rosa conhecia os donos do bar, topou substituir a moça por um tempo. Quem tocava violão no local era Lula Galvão e, quando Rosa chegou para o primeiro ensaio e começou a cantar Eu e a brisa, de Johnny Alf, a mágica aconteceu.
"Foi uma emoção para todos", lembra o músico. "Eu fiquei emocionado e fico emocionado até hoje, porque vejo a trajetória da gente, tantos discos, tantos palcos, uma coisa que surgiu ali, na noite de Brasília. Mal sabíamos que estávamos preparando um caminho sólido." Pois hoje Galvão e Rosa repetem aquele encontro no ambiente intimista do Clube do Jazz de Brasília, dentro da programação do Festival de Música Casa Cor 2026.
Rosa diz que o show "é de Lula". Ela vai fazer uma participação em três músicas. O violonista diz que Rosa não sabe, mas o show não é só dele. Ela vai cantar mais. O fato é que a interação e a intimidade musical entre os dois artistas sempre dá uma liga que vai além do programado, do repertório ensaiado e das expectativas do público. "Isso decorre de 40 anos de história. Comecei a tocar na noite com ela, em Brasília. Eu tinha 23 anos, e de lá para cá tenho participado de tudo que ela faz, gravando os discos, fazendo os arranjos, então é um privilégio enorme. Quando a gente se encontra, é uma celebração dessa história", garante Galvão. "São 40 anos de trabalho juntos, porque Lula, desde que comecei a fazer trabalho profissional de gravação de disco, sempre esteve presente, vários CDs meus têm arranjos dele, ele é muito presente como músico e arranjador", avisa a cantora.
Rosa Passos considera Lula Galvão um dos melhores músicos do mundo. Não é raro ela receber, nas redes sociais, vídeos de instrumentistas do mundo inteiro tentando esmiuçar obsessivamente os arranjos do violonista presentes nas gravações de discos como Curare (1991) e Amorosa (2004).
"Lula tem uma coisa especial, é singular no que faz, é muito diferente, é uma personalidade social única, e a forma como conduz a música, como toca, é muito peculiar. Você não vê nada igual, é um nível muito alto. É uma musicalidade universal porque a linguagem e a forma como ele toca os arranjos é universal. Prova disso está nos meus discos, muitos músicos fazem questão de estudar os solos de Lula", garante Rosa.
Para o repertório de hoje, Lula Galvão escolheu clássicos como Prelúdio da Bachiana nº 4, de Heitor Villa-Lobos, Água e vinho, de Egberto Gismonti, Radamés y Pelé, de Tom Jobim. Astor Piazzolla também entra com Adios nonino. "Esse estou com medo de tocar, porque esse negócio de show você programa um repertório, mas sempre funciona de acordo com o que você está percebendo ali na hora, às vezes pulo uma música para adequar outra", avisa.
O compositor estadunidense de jazz Keith Jarrett também está na lista, assim como João Donato, o novo projeto de Rosa Passos. Ela prepara, para 2027, um disco em homenagem ao compositor. Para hoje, Rosa acrescenta mais alguns nomes à lista de Galvão. "Vou cantar Ary Barroso, Djavan e Dorival Caymmi, compositores que amo e que a gente gosta de fazer. Em princípio, a gente combinou três músicas e um bis", adianta.
O formato intimista do show surgiu do convite feito pelo próprio Clube do Jazz de Brasília. O aspecto aconchegante do lugar fez Galvão lembrar dos tempos em que começou a atuar nos bares da cidade. "Quando você está num palco grande, com todos os companheiros, praticamente nem vê a plateia, não tem contato visual por causa da luz", conta.
"Num local mais intimista, muda tudo, você sente praticamente a respiração das pessoas, tem um nível de concentração maior, um nível maior de interação com a plateia. E cada plateia responde de um jeito, sempre é um espetáculo diferente por causa disso."
Nos anos 1980, a intimidade por conta da proximidade com o público chegava ao extremo. Naquela época, as pessoas faziam pedidos para a banda e era preciso saber antecipar e tocar de tudo para atender às expectativas. A maior parte dos pedidos era relativa ao que tocava no rádio. E o que tocava eram composições de gente como Tom Jobim, Milton Nascimento, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso e a nata da música popular brasileira.
"Era um repertório muito vasto e harmônico. E por ter que tocar assim, foi uma escola, um aprendizado incrível, um período embrionário do nosso trabalho", lembra Galvão, que, na época, frequentemente era o mais novo entre os integrantes das bandas. "A noite nos bares sempre proporciona isso, tem que viver o que está acontecendo ali, os pedidos, as reações. Hoje não tem mais", lamenta o músico.
Foram dezenas de vezes no palco e juntos em estúdio para gravações das mais variadas canções, mas um disco assinado pelos dois, Rosa e Galvão fizeram apenas em 2023. Em formato voz e violão, Rosa Passos e Lula Galvão saiu pela Biscoito Fino e reúne 10 faixas com clássicos como Folhas secas, De conversa em conversa, Piatã, Doce de coco e Conversa de botequim. "É uma coisa que estávamos devendo para nós mesmos", diz Rosa, cujo filho gosta de brincar que a mãe é musicalmente casada com Galvão.
"Cada show que a gente faz, ele tem a capacidade de fazer solos diferentes da mesma música, um solo diferente de um dia para o outro. Estamos tão ligados musicalmente que, no palco, somos um só. É uma coisa muito íntima, amorosa, muito família", avisa a cantora.
Lula Galvão no Clube do Jazz de Brasília
- Com participação de Rosa Passos.
- Sábado, às 20h, na Casa do Candango (603 Sul).
- Ingressos: R$ 100 e R$ 50 (meia), no Sympla
