Televisão e streaming

Em dose dupla, Pedro Alves vivencia "amores que rompem barreiras"

Em "Quem ama cuida", o ator Pedro Alves coloca a bissexualidade masculina no centro do horário nobre da TV Globo, enquanto também volta à cena como vampiro milenar na segunda temporada de "Vermelho Sangue", no Globoplay

Pedro Alves, ator -  (crédito: Maga Maju)
Pedro Alves, ator - (crédito: Maga Maju)

Alta voltagem. Talvez, essa seja a melhor definição para o momento que Pedro Alves vive na carreira. Em um intervalo de um ano, o ator saiu de uma novela das 19h para o horário nobre, aparecendo, simultaneamente, na televisão aberta e no streaming. No ar como Fernando em Quem ama cuida, da TV Globo, ele também retorna como Michel, o vampiro centenário de Vermelho sangue, cuja segunda temporada acaba de chegar ao Globoplay. Entre um personagem e outro, há pouco espaço para descanso — e muito para explorar.

"É um desafio. Acho que aconteceu tudo muito rápido e, às vezes, sinto dificuldade de entender o que está acontecendo. Acho que minha mente anda muito mais sobrecarregada, tanto por causa da repercussão quanto pelos personagens, que são muito desafiadores. Mas sinto que vivo minha melhor fase. Estou com energia para dar e vender, mas está difícil dormir e deixar o corpo descansar", conta Pedro.

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No entanto, a sobrecarga parece vir acompanhada de uma disposição proporcional ao momento. Fernando e Michel exigem registros bastante diferentes do ator. Enquanto o primeiro está mergulhado em conflitos afetivos e familiares contemporâneos, Michel carrega mais de dois séculos de existência e circula por um universo fantástico marcado por ação, rivalidades e viagens no tempo.

Para construir a segunda temporada de Vermelho sangue, Pedro passou por um mês de preparação diária nos Estúdios Globo, com aulas de corpo, luta, atuação, fono e história — o que ele define como "privilégio". A dedicação se estendeu às gravações da série criada por Cláudia Sardinha e Rosane Svartman, especialmente nas sequências de ação.

"Acho que foi principalmente um desafio físico. Nas cenas que corro, eu dou minha vida, e a gente grava em muitos takes. Eu já quase desmaiei em algumas e, em outras, me arrebentei todo. Meu corpo sofria muito para gravar, mas fiz por amor à minha profissão, e porque eu queria dar meu melhor", relata o jovem galã de 33 anos, nascido no Brasil, criado na Bélgica e formado nas escolas de teatro de Paris e do Rio de Janeiro.

A intensidade física, porém, não foi acompanhada por desgaste emocional. Ao contrário: Pedro conta que atravessou os seis meses de gravação com uma disposição incomum, mesmo diante de uma rotina pesada. "Eu estava tão feliz e tão realizado que, na minha única folga da semana, ainda tinha energia para curtir e sair com o resto do elenco. Acho que foi a fase em que mais tive vitalidade na minha vida adulta. Eu não sei como eu dava conta", observa. 

A mente estava tão boa que o corpo aguentou feliz durante seis meses. "Eu nunca chegava aos estúdios cansado, acordava cheio de disposição para gravar. Todos estranhavam, inclusive", completa.

Para Michel, essa energia também precisou encontrar uma tradução específica na composição do personagem. Diante de alguém que atravessou séculos, o ator buscou menos a dramaticidade imediata e mais uma espécie de distanciamento diante da existência. "Sobre a imortalidade, tentei trazer algo blasé para o Michel. Os vampiros são seres que já viveram de tudo, então, para algo mexer com eles, é bem difícil, e eu quis imprimir isso", explica o carioca.

Michel (Pedroa ALves), o vampiro de "Vermelho Sangue"
Michel, o vampiro milenar da série Vermelho Sangue (foto: Globo/Divulgação)

Quebrando tabus

Se Michel lida com a eternidade, Fernando está preso às urgências do presente. Em Quem ama cuida, criada e escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, a bissexualidade masculina ganha espaço central na trama por meio do relacionamento do personagem com Mau Mau (João Victor Gonçalves), formando com Felipe (Pietro Antonelli) um triângulo amoroso que mobiliza o público e as redes sociais. Pedro tem lugar de fala na abordagem LGBTQIAPN+ e, para ele, a repercussão demonstra a força da história e amplia o alcance de uma representação ainda pouco explorada na teledramaturgia.

Como todo triângulo amoroso, há uma divisão das torcidas, que Pedro prefere enxergar como parte da própria experiência de acompanhar uma novela, algo que ele carrega como telespectador desde criança, quando vivia na Bélgica. "Acho que isso é reflexo do sucesso da novela. Que bom que estão polarizados, isso rende histórias interessantes e complexas", afirma o ator, que recentemente se despediu de um personagem gay bem resolvido — o Caco de Dona de mim (2025) —, após ter ganho destaque como um padolescente gay em conflito como Guga em Malhação Toda forma de amar (2019). 

Embora pertençam a universos distintos, Fernando e Michel compartilham uma característica fundamental: os dois precisam desafiar estruturas para viver seus amores. No caso do primeiro, há o preconceito e os conflitos familiares. No segundo, as rivalidades entre espécies colocam a própria existência em risco.

Pedro identifica nos dois uma mesma matriz dramática: a do amor impossível. "O amor do Michel pela Luna (Letícia Vieira) põe em risco sua existência, e o Fernando também está com sua vida em São Paulo arriscada por estar se relacionando com Mau Mau. Ambos vão se arriscar muito por amor. São heróis e corajosos. Temos nos dois um Romeu e Julieta. Aliás, os fãs mencionaram muito isso", observa.

Pés no chão

A intensidade da atual fase ganha ainda outro significado quando confrontada com a trajetória pessoal de Pedro. Antes de se consolidar na dramaturgia da Globo, o ator viveu experiências profissionais muito distantes dos estúdios, inclusive trabalhando no exterior como faxineiro e babá. O passado, porém, não aparece para ele como uma história a ser apagada diante do sucesso. Pelo contrário: reforça que a carreira artística pode ser marcada pela instabilidade.

"Agradeço o consolidado, mas eu sempre estou pronto para voltar a lavar privadas, se necessário. Sei que essa vida de artista é de altos e baixos e já me sinto privilegiado de poder estar onde estou. Gostaria de continuar atuando, e acho que estou trilhando um caminho com papéis muito bons, mas preciso ter os pés no chão. A insegurança ainda bate", admite.

 Fernando (Pedro Alves) e Mau Mau (João Victor Gonçalves) em Quem ama cuida
Como Fernando: romance gay com Mau Mau (João Victor Gonçalves) em Quem ama cuida (foto: Globo/ Gabriel Vaguel)

A conversa com a mãe reforçou essa perspectiva. "Mencionei com ela que sou sortudo e privilegiado de estar trabalhando com aquilo que sonho desde pequeno e, por isso, preciso me esforçar cada dia mais para fazer valer as oportunidades, sendo extremamente profissional e atencioso com todos que me cercam", conta. "Mas isso não tem sido difícil para mim. Faço com naturalidade, porque amo meu ofício e amo o contato humano", completa.

Com dois trabalhos simultâneos de grande exposição, Pedro sabe que vive um momento especialmente significativo. E acredita que os próximos capítulos de Fernando e Michel ainda podem ampliar essa marca. "Eu acabei de ver hoje a segunda temporada, e qualquer pessoa que assistir tudo até o fim vai entender o legado importantíssimo que estamos deixando. Está fantástica", afirma.

Na novela, ele também aposta em uma escalada narrativa para Fernando. "Já temos ineditismo com o triângulo gay e, em breve, vamos ver um Fernando que está vindo protagonizar cenas de tremenda importância social. Acho que outubro chega muito forte na minha carreira — talvez o mais forte desse meu início", projeta. 

 

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postado em 11/10/2026 08:00
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