
O thriller erótico é um gênero típico dos anos 1980 e 1990, mas Raphael Montes queria explorar como seria escrever nesse formato em 2026. Dessa curiosidade nasceu A estranha na cama, nono romance do autor, um dos nomes mais bem-sucedidos do mercado editorial brasileiro, com mais de 1 milhão de livros vendidos. O novo livro mantém algumas das características típicas de Montes, como suspense, ironia e personagens moralmente questionáveis, mas o autor introduziu o sexo como um elemento narrativo importante.
O thriller erótico da década de 1990 que contava histórias de suspense, crime, traições e segredos tendo sexo como um elemento narrativo para discutir questões do casamento e das relações amorosas. "E, como era um gênero do cinema e era dos anos 1980 e 1990, é muito machista, explora o corpo feminino e tal", diz o escritor. "O que me interessou foi pensar como eu poderia contar um thriller erótico, qual seria o papel da mulher. As relações afetivas nesses anos se transformaram de maneira significativa. Tem todos esses aplicativos, e eu percebo que existe uma quantidade enorme de pessoas disponíveis e por isso mesmo ninguém está pronto para o que é necessário para uma relação."
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Em A estranha na cama, a história gira em torno de um casal endinheirado que contrata uma terceira pessoa para uma noite de sexo com a esperança de esquentar um casamento mergulhado no tédio. No entanto, algo acontece e a moça contratada morre. Desvendar o crime e entender o que se passou é motor da narrativa. Enquanto escrevia o livro, Montes decidiu escrever, paralelamente, o roteiro. A ideia era levar a história para as telas por meio da Casa Montes, produtora criada com o marido, o produtor Victor Pratavieira, para se dedicar mais à produção audiovisual, coisa que o autor vem fazendo há alguns anos com séries como Bom dia, Verônica, Elize: Sombras de uma mulher e Beleza fatal.
Para dirigir, Montes convidou o diretor Esmir Filho, de Homem com H, a cinebiografia de Ney Matogrosso. No elenco, estão Paola Oliveira, Emílio Dantas, Vera Fischer e Paulo Betti. "O Esmir tem uma sensibilidade muito forte para personagem e os personagens ganham camadas, ganham subtexto nas cenas graças à direção dele, tanto de ator quanto de câmera", explica Montes, que fez questão de trabalhar junto com o diretor porque queria ver no filme, que estreia em 2027 na Netflix, a mão de Esmir e sua própria mão. Não foi fácil, houve discussão, porque Montes gosta de carregar no melodrama, mas o diálogo entre os dois foi essencial para o filme. "Nas cenas de briga, por exemplo, eu e Esmir discutíamos muito porque discordávamos, não é? Eu queria um tom mais acima, porque sou da novela, e ele queria um tom mais abaixo, porque é do cinema, e a gente foi se encontrando nesse meio do caminho", conta. "As cenas de sexo têm uma tem uma delicadeza e uma inteligência de serem sugestivas sem serem vulgares que só um bom diretor consegue".
A escrita das cenas de sexo para o livro foram um capítulo à parte na produção da obra. Montes confessa que foi, talvez, o maior desafio do livro. "Foi muito desafiador escrever essas cenas porque, primeiro, eu queria que elas fossem narrativas, ou seja, eu queria que, ao narrar o sexo, eu revelasse a relação de poder, de quem domina quem, quem está no controle, quem está perdendo o controle", explica. "Foram as partes que, depois, eu mais reescrevi."
Além do filme e do livro, o escritor também lança a coleção Raphael Montes + Companhia das Letras, uma curadoria de livros de suspense escolhidos pelo autor que reúne clássicos e contemporâneos. "São livros que eu acho que os meus leitores vão gostar", diz. "A brincadeira é: eu escrevo um livro a cada 2 ou 3 anos, os leitores leem em um dia. E depois? Então, é uma seleção que eu acho que quem me lê, vai gostar."
O primeiro volume, Um beijo antes de morrer, de Ira Levin, é um clássico policial dos anos 1960 que estava fora de catálogo. Em seguida, vem um body horror intitulado A grávida, primeiro romance da autora trans e drag queen Samantha Josephs. "Acaba de sair nos Estados Unidos, e é interessantíssimo, forte, violento, assustador", avisa Montes, que conversou com o Correio sobre A estranha na cama e os planos para o futuro.
Entrevista // Raphael Montes
Você nunca tinha feito um thriller erótico. Como nasceu essa história?
A estranha na cama nasce de um interesse meu pelo thriller erótico, que é um gênero mais forte no cinema dos anos 1990. E de uma questão, que passou a ser mais comum nas conversas das pessoas, que é a relação aberta e discussões sobre a monogamia. Então, eu quis fazer a história desse casal que está junto há muitos anos, num casamento meio falido, onde o sexo já não é o mesmo, e eles então decidem abrir a relação por uma noite para dar uma apimentada e convidam uma mulher que eles conhecem por um aplicativo. E, durante o sexo, ela acaba morrendo. E a questão é o que eles fazem a partir daí, como se livram dessa situação. A palavra erótico ganhou um significado a partir da literatura erótica produzida hoje, que são histórias que realmente têm muito sexo. Mas A estranha na cama não tem. Eu tenho chamado de thriller sensual. Ele tem o sexo como elemento narrativo, mas não é um livro para ficar excitado, é mais tensão do que tesão.
E você se sente confortável nesse território? Foi difícil escrever?
Foi muito difícil. O maior desafio desse livro, sem dúvida, foi escrever as partes de sexo. Não sei o número exato, mas deve ter uns cinco momentos de sexo no livro. E sexo entre pessoas diferentes, porque a história vai e volta no tempo aí. Eu queria, de propósito, fazer um livro que é um suspense. Ele não tem grandes momentos assustadores, não tem grandes cenas violentas. É um livro de suspense gostosinho para você ler à noite, com aquela curiosidade do que vai acontecer. Não queria que fosse um livro erótico. O sexo na história não é gratuito, ele é um sexo costurado, não está lá porque eu queria fazer uma cena de sexo.
E como você decidiu transformar o livro em filme?
Então, foi interessante. Criamos a Casa Montes em 2021. Meu marido, que fez cinema e trabalhava em produtoras, falou: "Rapha, vamos criar uma produtora e criar uma estrutura para você contar suas histórias no audiovisual tendo uma equipe que te ajuda a levantar essas histórias". A estranha na cama é um orgulho porque é o primeiro projeto, uma coprodução da Casa Montes com a Fábrica. E eu já estava escrevendo o livro quando a Netflix me perguntou qual era o livro que eu estava escrevendo. Contei a história e eles falaram: "Vamos fazer um filme". E comecei então a escrever o roteiro enquanto fazia o livro. E o processo de fazer os dois ao mesmo tempo foi interessante porque tenho uma curiosidade sobre as ferramentas que você usa para escrever um livro e as ferramentas que você usa para escrever um roteiro. Me interessa muito investigar qual tipo de cena ou tipo de momento narrativo funciona muito bem num livro ou num filme não funciona. Ou o que funciona bem num filme que, se você colocar no livro, é bobo.
E o Esmir, como foi a parceria com ele?
A gente vendeu o filme para a Netflix e já tinha a Paola Oliveira como protagonista, mas faltava o diretor. Eu assisti a Homem com H e claro, fiquei fascinado, é maravilhoso. Eu marquei uma reunião com o Esmir. Ele tem uma voz autoral forte, é um autor na obra dele. E eu sou um autor na minha obra. Ou seja, tem o meu jeitinho Raphael Montes de fazer as coisas e ele tem o jeito Esmir de fazer as coisas dele. Então, falei pra ele: "Se você fizer um filme Esmir Filho só, vai dar ruim, porque eu vou ficar incomodado". E se fosse para o filme ter só a cara do Raphael Montes, eu chamava um diretor que só faz o filme sem ter a própria voz. A graça e a força que a gente pode ter nesse filme é juntar as nossas visões. É óbvio que a gente nem sempre vai concordar, a gente vai juntos debater e chegar no melhor. E assim foi o processo..
Suas histórias partem, normalmente, de situações cotidianas que viram experiências perturbadoras. O que é interessante para você nessa ruptura?
A literatura policial de suspense tem uma força muito grande porque trata de violência, trata da mente humana. Nós, humanos, praticamos crime por motivos como inveja, ambição, ciúmes, racismo, homofobia, machismo e assim vai. Então, você contar essas histórias de crime, de suspense, de terrores reais que enfrentamos todos os dias é muito potente. Eu gosto de narrar essas histórias para, de algum modo, provocar o leitor a pensar sobre a própria realidade. Me interessa explorar a ideia de pessoas ordinárias, pessoas comuns, pessoas que não são monstros levadas a situações extraordinárias descobrindo ou revelando um lado de si mesmo que elas desconheciam. A ideia de explorar a mente humana mesmo, eu sou muito fascinado pelo ser humano.
Diversão e Arte
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