Aos 88 anos, o produtor e cineasta cearense Zelito Viana pode ser mencionado por inúmeras chaves: é o irmão de Chico Anysio, é pai da cineasta Betse de Paula, e é o pai do ator Marcos Palmeira, sendo ainda um nome de expressão artística elevada, à frente da produção de filmes vitais, como Terra em transe, dirigido por Glauber Rocha, em 1966. Junto com personagens facilmente reconhecidos no Brasil, o clássico de Glauber, para a infelicidade geral, segue atual, narrando a situação de um país latino-americano entremeado por franco populismo e ainda pela sombra da ameaça de latente golpe de Estado. A riqueza do passado, no currículo de Zelito, não se perde, quando se chega ao presente: foi ele quem conduziu o documentário Mestre Zu, recém-chegado aos cinemas, sobre a figura de um brasileiro ilustre: o repórter, cronista e escritor Zuenir Ventura.
O timing no lançamento do filme, colado ao decisivo momento das eleições, não foi calculado, pelo que conta Zelito, em entrevista ao Correio. "Foi coincidência. Não foi de propósito. Eu estava interessado em fazer um filme sobre o Zuenir (morto em setembro passado e amigo há décadas)", observa. O amigo, autor de títulos como 1968: o ano que não terminou e Cidade partida aprovou o filme. "Ele se emocionou muito, eu não estava presente quando assistiu na companhia da família dele, com os filhos Maurinho e Elisa. Ele ficou muito emocionado, já durante a filmagem, ele estava contente. Acho que eu proporcionei a ele bons momentos no final da vida. Ele me deu uma entrevista, a última, e que está no filme", pontua Zelito. Concomitante às gravações de Mestre Zu, houve uma feijoada com muitos amigos presentes. "Acho que ele estava contente. Zuenir teve um problema no final da vida de locomoção — o que foi ruim —, mas a cabeça dele sempre ficou boa, e até o final", destaca Zelito.
Mobilizado pelo combustível do Cinema Novo, "a ideia brasileira na cabeça", Zelito traz no currículo, além de méritos pessoais, a amizade com figuras como Cacá Diegues (que com ele, explorou a condição feminina, em A grande cidade) e Leon Hirszman, diretor de Eles não usam black-tie, que versou sobre exploração trabalhista. Produtor, ao lado de Vladimir Carvalho, do clássico Cabra marcado para morrer (1984), e ainda de Menino de engenho (de Walter Lima Jr.), Zelito se funde a eternas problemáticas nacionais. Enquanto cineasta venceu o prêmio Margarida de Prata da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, com Morte e vida Severina, sobre a jornada de retirante (baseado no texto de João Cabral de Melo Neto) e aliou temas de ganância econômica a massacre indígena, com Avaeté: Semente de vingança (1985).
A parceria na vida e nas telas com Zuenir converge para absoluta naturalidade, portanto. "Acontece que Zuenir presenciou os fatos mais importantes que aconteceram nos últimos tempos no Brasil. Ele estava presente. Isso aparece no filme. E como o Brasil não consegue andar para a frente — ou seja, anda é feito caranguejo, de lado, num Pantanal, com a impressão de uma gosma, você anda, e afunda, ele não consegue ir para lugar nenhum — isso deu ao filme uma importância até maior do que deveria ter", explica.
Entrevista //
Zelito Viana, cineasta
A Academia Brasileira de Letras traz um quê elitizado. Como Zuenir, com traquejo amplo e popular, se percebia como membro da ABL?
Ele não fez força para ir para a Academia, não. Ele foi levado. Tinha muitos amigos por lá. Eu me lembro bem dele até comentar que "estão me convidando para ir para a Academia". Então, acho que ele um pouco capitulou, assim como o Ferreira Gullar, que não queria estar na Academia, e, de repente, gostou, foi para lá e ficou contente. Depois, também eu acho que o plano de saúde ofertado pela Academia deve ter lá vantagens (risos).
Com tanta intimidade com ele, onde notava que num gesto, num ato cotidiano, se tornava patente o apreço do Zuenir pela democracia?
Olha, ele era um repórter. Se você quiser definir o Zuenir, ele era um repórter. Ele gostava de reportagem, gostava de aprender, ter acesso a novas coisas: era um curioso, gostava de ouvir. Era a característica básica dele. Por isso que ele deu certo como jornalista, porque ele tinha, dentro dele, o espírito de pesquisa: a pesquisa, mas pela verdade da informação. Ele pretendia a integração das pessoas, ver todos unidos. O jornalismo era o que ele tinha mais prazer de fazer na vida.
Dá para relacionar a ação dele com ênfase em que temas?
Quando você faz um resumo da vida do Zuenir vê que ele se notabilizou pelas grandes reportagens que ele fez no Amazonas sobre Chico Mendes; com a caravana do Lula; no livro Cidade partida, sublinha o massacre de Vigário Geral. Fala do fenômeno do bailes funk e a descoberta disso para além da bolha cultural em que se vive na Zona Sul do Rio de Janeiro. Nisso, ele capitalizou: nessa vocação.
No mergulho do legado de um amigo tão próximo houve espaço para descobertas, novos ângulos para a análise da personalidade dele? Ele te deu espaço para criatividade?
Deu, totalmente. Eu descobri, com o filme, o personagem que ele havia ressaltado, e que eu não tinha prestado atenção na época: a Maria do Socorro. Foi a mulher que ele encontrou na caravana do Lula que cunhou uma frase fundamental: "Quem tem fome tem pressa". Isso foi uma frase dela, e eu não me lembrava. Na época, não me dei conta disso. E que continua sendo, infelizmente, o Brasil maluco de um tempo em que a gente continua com os mesmos problemas que tinha 50 anos atrás.
O senhor é testemunha de eras no Brasil. Algo muito importante para os dias atuais. O senhor traz o vínculo de quem viu Glauber (Rocha) redesenhar algo nas artes tendo Zuenir como ponte para o diálogo com a ditadura. O que Zuenir falava dos momentos atuais, de um Brasil que não é agraciado por um debate produtivo entre candidatos à Presidência?
Debate não, é um monólogo; aliás, são dois monólogos (risos). Mas há o que vem com a profissão do Zuenir, algo que quem chamou a atenção foi o Gerson Camarotti, na entrevista feita para o filme. O jornalismo hoje se investiu de uma importância muito grande já que é preciso combater a má informação. A apuração virou uma coisa fundamental. Tem que apurar, não é? Se você não apura, não há como (ter sucesso)... Hoje, você pode botar tudo o que você quiser, pode inventar o que você quiser, e botar, e publicar, e milhões de pessoas verão, lerão. Isso traz uma mudança radical na profissão, mas, ao mesmo tempo, vem um peso muito grande para aqueles jornalistas profissionais: os que apuram e vão a fundo na notícia. Eu me dei conta disso com o filme da (chamada) pós-verdade. Estamos vivendo um momento muito estranho — muito estranho. No mínimo, estranho.
No filme, há quem pontue um defeito que se prova qualidade: empurrar as pessoas em direção à excelência e a perseguição do desenvolvimento, com a informação. Zuenir teve defeitos? A gente se lembra do que publicou na revista Visão, com as enfáticas ponderações de Glauber acerca de Ernesto Geisel e do ministro Golbery do Couto e Silva...
Olha, ele tinha o defeito de perder o amigo, mas não perder a notícia (risos). Havia nele a fidelidade ao jornalismo, à notícia. Nisso, eu tive um problema com ele, quando eu trabalhava com o Glauber Rocha. Achei que ele não devia ter publicado, mas ele publicou, em nome da notícia. No fim das contas, ninguém sabe quem é que teve razão, mas ele fez aquilo em nome de ideal. Eu não gostei; se fosse eu, não publicaria. Foi uma ação que encaminhou parte do Brasil para uma nova direção. O problema nisso foi que o prêmio pago foi muito caro. Eu acho que o Glauber foi mal interpretado naquela declaração, e sofreu muito bullying no Brasil, nãi é? Ele sofreu, e as pessoas de uma certa maneira cancelaram o Glauber, como se diz hoje. O que é um absurdo. E tudo por uma declaração profética. O Nelson Pereira (dos Santos) que dizia que o Glauber era um profeta, "era um profeta protestante" (risos).
Impossível não se falar de 1968, quando se fala de Zuenir Ventura. Que visão ele trouxe no olhar de quem viveu intensamente o momento?
Ele, inclusive, me abriu o olho para algo de que eu não tinha me dado conta. As pessoas que desafiaram o sistema no Brasil (ditatorial) em 1968 eram muito mais vitais. Havia importância no movimento de 1968, em Paris, em maio de 1968, sobre o que se protestava: havia problemas do ensino, desejos de melhoria na qualidade de ensino das universidades — eram protestos nesse nível. No Brasil, entretanto, se protestava para sobreviver: estávamos vivendo ameaças de prisão, de morte, era muito mais, vamos dizer, "heroico", você protestar no Brasil do que protestar na França. Isso foi uma previsão do Zuenir que está no filme, e que eu não tinha me dado conta. O nível de importância.
Onde mais se percebe tua tese?
No tempo da ditadura, da censura, a opressão era muito forte nos jornais — qualquer reportagem que você fizesse (e publicasse) trazia este lugar de uma coisa importante: estava se mostrando a realidade da vida, e que era toda escondida. Você não podia falar de nada. Era tudo proibido. Tinha oficial dentro da redação dos jornais; era um horror.
Neste trajeto pendular, para onde caminha o Brasil, nessa história toda, na opinião do senhor?
Ah! Ai, se eu tivesse essa resposta. É a resposta de 1 bilhão de dólares! Não sei para onde caminha, realmente, não sei. A gente está numa situação bem complicada, bem complicada. Estamos vivendo no olho do furacão. Nós estamos no olho do tsunami. Tem um tsunami atravessando a humanidade. Então, a gente tem que abrir o olho e se proteger para ver se não se é tragado.
