
Hoje seria dia de realizar a missa de sétimo dia referente à morte de um dos mais ilustres documentaristas do mundo: o chileno Patricio Guzmán, morto aos 85 anos, passada a vida dedicada a esclarecer nuances nas mortes dos opositores a regimes ditatoriais. Muito acima do embate direto e da defesa apaixonada por causas políticas, Guzmán se expressou no campo poético, numa fase mais contemporânea — na qual brindou espectadores com filmes como Nostalgia da luz (2010) —, justo a partir do exame de covas ou da falta delas; tudo associado a crimes da ditadura.
Em Nostalgia, ele pisa o deserto para perseguir trilha do pó, do luto e da pobreza que arrasta as Mulheres de Calama, afundadas em areia, ao revolverem indícios dos corpos de entes mortos em duros regimes. Nada mais coerente para o diretor que trouxe à luz o monumental filme de denúncia da estruturação da ditadura no Chile (o clássico A batalha do Chile, adensado entre 1975 e 1979). E foi assim, estruturando uma carreira de alertas quanto ao efeito dos votos de eleitores ou do saque do direto de eleições, que (num momento crucial para o Brasil) Guzmán crava seu legado.
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Morto há sete dias, o cineasta ainda não foi sepultado. Ateu, ganhará homenagem, depois radicado na França por mais de 40 anos, no cemitério Père Lachaise, que acolheu ícones da estatura de Édith Piaf e Jim Morrison. Familiares e admiradores devem se despedir de Guzmán na próxima sexta-feira. Sintomático que o diretor fique pela França, país libertário que tão bem casa com sua obra magistral e que, para as Américas, integra um cânone, ladeada pela importância do argentino Fernando Birri (Tire dié) e do cubano Tomás Gutiérrez Alea (Memórias do subdesenvolvimento).
Ter entrevistado Guzmán, em meados dos anos 2010 (pela vitória de El botón de nácar no Festival de Berlim), me trouxe a janela para reflexões para este momento particular, na ressaca do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Modesto, o realizador afirmou: "Prêmios, na realidade, não significam muito para mim. O importante é que, com eles, o filme alcance maior propagação e haja mais distribuidores. A grande problemática dos documentaristas é a escassez de bons distribuidores e menos ainda de exibidores". A restrição mercantil não impediu, entretanto, que seu mais "relevante" (nas palavras dele) filme A batalha do Chile ganhasse o mundo. "Graças àquele filme, a direita chilena nunca poderá negar aquele momento extraordinário, quando a utopia e a política foram sinônimos, durante o governo de Salvador Allende", cunhou.
Qualidade e prestígio imperativos entre cineastas com temática latina esbarraram, segundo ensinamentos do atento Guzmán, em castigos comuns (nos países) da vigência do neoliberalismo econômico. Daí, o rompimento das pontes de comunicação internacional. Com a esquerda algo dormente, como opinou, "tudo se converteu num comércio". Na cartilha de Guzmán, o antídoto à essa praga estaria na formação de grupos independentes, aliado no trabalho "pela cultura, pela saúde e pelo aperfeiçoamento urbano".
Em tempos de eleições, é vital ouvir o vencedor de prêmio humanitário na Mostra de São Paulo, que, lucidamente, ressaltou: "A grande ideia da revolução dos anos 1960 tem sido realocada por rebeliões de tamanhos variados, por grupos de indignados, por gente rebelde que não aceita a corrupção das ideias ou mesmo a corrupção do dinheiro". Guzmán vive!
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