A Montanha é um livro curioso. Parece, à primeira vista, uma autoficção na qual o autor mescla relatos de pessoas em tratamento de câncer com sua própria experiência durante uma viagem. Mas o leitor, aos poucos, vai se despindo dessa ideia para mergulhar em uma narrativa cheia de surpresas e sobre a qual o escritor português fala hoje, durante encontro com o público na inauguração do programa Conversas no Jardim, no Instituto Camões, na Embaixada de Portugal.
Peixoto esteve em Porto Alegre para falar do livro e desembarcou domingo em Brasília, contente por poder observar a cidade em dia de eleição. "Para vocês que estão aí sempre é comum, mas para mim, estar em Brasília nesse dia é muito especial", garante. "Esse livro é um romance que inclui vários elementos, muitos de natureza ficcional, mas também outros documentais, biográficos, reais, porque são histórias que me foram transmitidas por doentes de câncer de um hospital oncológico na cidade do Porto", avisa o autor.
O 19º livro de Peixoto traz relatos de seis pessoas. São narrativas relacionadas à doença, mas que vão além, com histórias de vida de forma geral. A edição brasileira é a mesma publicada em Portugal — Peixoto é conhecido por não fazer modificações quando publica seus livros no Brasil. Desta vez, no entanto, ele pediu à editora que trocasse a palavra cancro por câncer. Achou melhor o termo brasileiro para a doença. "Eu não queria que existisse estranhamento em relação a essa palavra e queria que as pessoas aqui lessem essa palavra tal como ela é dita, é uma palavra muito difícil, que, muitas vezes, se evita e se tem um certo tabu em relação a ela, mas uma das intenções centrais deste livro é referir essa palavra", explica.
No livro, um escritor com todas as características do próprio Peixoto, inclusive autor dos livros assinados pelo português, apresenta um projeto de escrita que é escrever um livro a partir das histórias dos doentes de um hospital de câncer do Porto. "E, nessa parte do livro, toda a gente que está a ler imagina que tudo o que está a ser dito é autobiográfico e uma transcrição da realidade", avisa. A identificação não para por aí: o personagem, tal qual o autor, tem uma vida de festivais, conhece bem quartos de hotéis e cumpre à risca uma agenda de encontros com autores. "Entretanto, há uma virada que é muito inesperada no livro porque há uma tese acadêmica que ele está a ler sobre fragmentação na literatura, uma tese escrita por um professor sueco."
A partir daí, a tal virada pega o leitor pela rasteira. Um sequestro, um cenário nórdico e um delírio dão um tom da narrativa que muda toda a história. É uma manobra que Peixoto gosta e que a literatura permite com elegância. "E pronto. É uma leitura que tem essa nuance um pouco fora do comum", avisa o autor, que está muito contente com o resultado porque deu um drible na autoficção. "Parece uma coisa muito literal e depois, de repente, percebes que tudo aquilo é um grande delírio, um pouco surrealista. E isso tudo tem que ver com esta ideia do câncer, uma doença que tem que ver com um certo caos nas moléculas". A metáfora entre a doença e a percepção da realidade é um fio condutor que Peixoto para falar da vida, mas também da literatura.
Conversas no jardim
Com José Luís Peixoto. Hoje, às 19h, no Instituto Camões, na Embaixada de Portugal.
Entrada gratuita
A montanha
De José Luís Peixoto. Dublinense,
224 páginas. R$ 71,90
