
Por Sérgio Leo—Meimei Bastos, mestre em cultura, atriz, poeta e arte-educadora, produtora cultural, figura ativa e reconhecida no mundo do hip-hop e do slam, divertia os fãs nas redes sociais, celebrando, outro dia, o prazer de levar o pai ao estádio, em Brasília, para ver jogar o time querido dos dois. Só assim soube que essa criadora musical e poética notável, saída de Samambaia, satélite de Brasília, é corinthiana.
Farra comunitária, delírio coletivo, o futebol atravessa tribos no Brasil, e condena a um exílio virtual quem não passou pelos ritos que incluem, no cotidiano dos afetos familiares, gramado, bola, traves, jogadores, berros eufóricos de gol. Raro o brasileiro alheio a esse universo que cimenta amizades, alimenta rivalidades, dá até conversa a quem só tem em comum a paixão pelas pelejas no gramado.
O brasileiro desligado do futebol pode cometer sacrilégios capazes de condená-lo ao inferno dos cancelados. Sim, essa é uma confissão: admito que exagerei na provocação, décadas atrás, ao chegar na casa de um amigo para ver o Brasil na Copa, vestindo uma camisa lindíssima presente de tio carcamano, com o lustroso escudo da squadra azzurra, a Itália adversária da seleção canarinho nessa partida.
Mas, me perdoe, como eu adivinharia que, nesse dia, uma das melhores seleções do Brasil seria eliminada da Copa, ao perder miseravelmente por 3X2 para os italianos? Que culpa tenho eu, senhor juiz? Deixo aqui um tributo aos brasileiros, especialmente cariocas do século passado que me viram passar, com os amigos desolados, pela praia de Copacabana, sem descontar naquele maluco de camisa da Itália a enorme frustração da derrota. Tempos menos violentos no Rio, aqueles.
Estar em impedimento, na pequena área onde se refugiam os isentões do mundo futebolístico, não é posição invejável. Por um lado, os alheios ao futebol ficam a salvo do pesado jargão de locutores que costumam dar bola fora repetindo viciosamente suas invenções. Mas o futebol é um segmento da língua brasileira falado até pelos pernas-de-pau jogados para escanteio nas conversas. Quem nunca pisou na bola levante o cartão vermelho.
Às vezes, claro, embola o meio de campo. Dia desses, numa crônica aqui neste espaço do jornal, reclamava eu das maldades contra a língua portuguesa e citei o verbo "escalar", usado no lugar de "aumentar", "agravar", "aguçar" ou "acirrar", por quem pensa ser elegante adotar termos mal traduzidos do inglês. Dizia eu: "escalar" é coisa de alpinista, ora. A falta de intimidade com o universo futebolístico me fez esquecer que "escalar" também bate um bolão no mundo do futebol, como bem me lembrou o leitor Marcos Martins de Souza.
Temo, porém, que ver as coisas pela lente do futebol tenha levado muita gente a encarar também a política como confronto entre torcidas organizadas, em que a busca de consensos é tratada como coisa de vira-casacas e qualquer divergência, com frequência, ganhe a agressividade de um mata-mata.
Só isso explica, por exemplo, que haja um time de pessoas nas redes (no caso, as redes sociais) contra Fernanda Torres no Oscar. É torcer para que o bom senso entre em campo, e, na cerimônia de premiação, domingo de carnaval, o cinema brasileiro marque esse golaço, sob delírio da galera. Vai que é tua, Fernandinha!!!!
Diversão e Arte
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