Crítica

Vencedor em Cannes, longa belga 'Jovens mães' estreia nos cinemas

Conquistando melhor roteiro em Cannes, o longa retrata a realidade de mães de primeira viagem em um abrigo

Crítica Jovens mães // Três estrelas 

Há 20 anos, à frente de Meninas, a brasileira Sandra Werneck lançou o documentário duro sobre a realidade de moças grávidas em alto ambiente de risco. Naquela época, os celebrados irmãos e cineastas Jean-Pierre e Luc Dardenne estreavam A criança, filme em que um casal usava um bebê como moeda de troca em ciranda de atos ilícitos. Anos após denunciar o desemprego (Dois dias, uma noite), o submundo do comércio (O silêncio de Lorna), relações com adoções (O garoto da bicicleta e O filho), os Dardenne exploram, no bom sentido, uma rede de cuidados ligada à maternidade.

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Vencedor do prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes, o longa belga disputou vaga nos pré-selecionados no Oscar 2026 (em que o brasileiro O agente secreto segue). Jovens mães é tão aspero quanto realista: solitárias, as mães de primeira viagem ganham o respaldo de um lar comunitário no qual formalizam amizades superficiais e atenção paliativa. Desinteressados de melodrama, os Dardenne optam pela edição seca (de Marie Helénè Dozo), incapaz de dar liga e integração ao convívio das mães do filme. Preza-se, daí, cada enredo desgarrado, com quê individual.

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Em Jovens mães, há bela canção que saúda as flores de urze (nascidas em arbustos comuns, que brotam ao acaso), descritas no poema O adeus. Até a citada sequência, muita coisa na tela acusa dor. Jessica (Babette Verbeek) pretende conhecer a mãe, papel de India Hair, e entender a razão de ter sido rejeitada enquanto bebê. Janaina Halloy Fokan dá vida na tela a Ariane, filha da personagem de Christelle Cornil, carente e dependente de álcool, além de apegada à neta, às vias de ser doada.

No filme, as tramas mais marcantes são as de Perla (a convincente etíope e estreante Lucie Laurelle) e as de Julie (Elsa Houben) e Dylan (Jef Jacobs), beneficiados com o nascimento de Mia, mas abalados pela dependência química de Julie. Por fim, o filme é feliz ao revelar o poder de ensinamentos permanentes, mas dificilmente o espectador esquecerá da crueldade involuntária da pequena e risonha Lili.

 

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