Presença constante na mesa do brasileiro, o chocolate ganha mais força durante a Páscoa, quando se transforma em símbolo central das celebrações. Ao longo da semana santa, o produto à base de cacau assume diferentes significados, que transitam entre o afeto e a experiência gastronômica. O tradicional ovo de chocolate, por exemplo, remete à ideia de renascimento e vida nova, além de simbolizar um gesto de carinho na troca de presentes entre familiares e amigos.
"O chocolate é, antes de tudo, memória afetiva", define Amanda Figueiredo, proprietária do Mandiê. "É lembrança da infância, desde a caça aos ovos na Páscoa ao mimo que a gente ganha e aprende a dar, desde pequeno. Essa relação emocional é muito poderosa. Mas além disso, o chocolate é um ingrediente extraordinariamente versátil. Funciona em barra, lasca, bolos, biscoitos e recheios sofisticados. Nas mãos certas, ele se transforma em algo novo a cada criação", afirma a confeiteira.
Adriana Labarrère, proprietária do Labarr, concorda: "O chocolate tem uma conexão emocional muito forte com o brasileiro". Segundo ela, ele está presente em momentos de celebração, afeto e até conforto em dias difíceis. "Mas existe, também, um fator cultural: o Brasil sempre consumiu muito chocolate ao leite e produtos mais doces, o que criou um hábito de consumo frequente e acessível. Ao mesmo tempo, estamos vivendo uma mudança. O consumidor está começando a descobrir o chocolate como experiência — entendendo origem, porcentagem de cacau, ingredientes e qualidade", aponta a sócia.
"O que torna o chocolate especial é justamente essa dualidade: ele pode ser simples e afetivo, mas também complexo e sofisticado, dependendo de como é produzido", acrescenta. Um estudo em 2025 feito pelo Kantar WorldPanel, com dados coletados pela Mondelez, apontou que a presença do doce na casa dos brasileiros passou de 85,5% em 2020 para 92,9% em 2024. Ou seja, nove a cada 10 lares brasileiros têm alguma variação na despensa, como barras de chocolate, bombons e biscoitos.
Esse crescimento acompanha o aumento de lojas inclusivas, que comercializam produtos sem glúten e sem lácteos, como é o caso da Quitutices. "Antes, a busca era muito mais restrita a pessoas com diagnóstico médico. Hoje, há também um público que chega por escolha, interessado em alternativas que tragam mais bem-estar, mas sem abrir mão do sabor", conta Inaiá Sant'Ana, chef responsável pela casa.
"Durante a Páscoa, isso se intensifica. É uma data profundamente simbólica, de partilha, e ninguém quer ficar de fora desse momento. O que o público busca, no fim, é exatamente isso: poder participar", declara a cozinheira.
Sabores do cerrado
"A LaBarr nasceu de uma inquietação: por que um país que produz cacau de alta qualidade ainda consome, majoritariamente, chocolates que não valorizam essa matéria-prima?", questiona Adriana Labarrère, sócia da chocolateria localizada na 710/711 Norte. "Começamos produzindo dentro de casa, estudando profundamente o cacau brasileiro e entendendo que a qualidade não está no processo industrial em escala, mas na origem, na fermentação e no respeito ao ingrediente", explica a proprietária.
Hoje, a casa atua como uma fábrica bean-to-bar, controlando todo o processo, do grão até a barra, e atuando diretamente com produtores, desenvolvendo receitas com identidade brasileira. "Nosso diferencial está justamente aí: não fazemos apenas chocolate, fazemos chocolate com origem, com propósito e com uma linguagem própria. Valorizamos ingredientes do Brasil, criamos experiências sensoriais diferentes e conectamos o produto à cultura local, especialmente ao Cerrado e à identidade de Brasília", declara Adriana.
Para esta semana santa, a LaBarr criou uma coleção inspirada nos sabores do bioma do Distrito Federal, a partir de ingredientes como baru, pequi e pimenta-de-macaco. Entre os ovos de Páscoa, destacam-se o onça-pintada (R$ 167,30), com caramelo de cajá; o lobo-guará, com maracujá do Cerrado, cajá e seriguela (R$ 314); e o arara-canindé (R$ 314), com ganache de pequi e caramelo de cajá. As três opções são produzidas com chocolate 53% cacau.
Sucessos da casa
Amanda Figueiredo sempre sonhou em seguir carreira na cozinha. Foi durante a pandemia, porém, que o desejo começou a sair do papel. "Criei a torta crumble de maçã, meu primeiro produto e até hoje meu xodó. No primeiro mês, vendi 210 unidades. Ali, entendi que estava no caminho certo", lembra a proprietária da Mandiê, que hoje trabalha com 120 opções na doceria.
Para o feriado, Amanda destaca o sucesso da casa, as barras de chocolate recheadas (a partir de R$ 52), vendidas nos sabores limão, pistache, caramelo salgado e coco. Entre os ovos de Páscoa, o destaque é o de chocolate ruby com creme de pistache e framboesa (R$ 335). Outra estrela do cardápio é o assinatura Mandiê — macadâmia brûlée (R$ 198), com caramelo salgado e crocante de macadâmias, o mais vendido da confeitaria.
Além das sobremesas, Amanda destaca a qualidade das embalagens utilizadas na casa, que tornam os produtos ideais para presente, por exemplo. "Acreditamos que a experiência começa antes mesmo da primeira mordida", diz a proprietária. A casa trabalha sob encomenda, e os pedidos podem ser feitos pelo telefone (61) 99259-7078.
Doces inclusivos
Há 10 anos no mercado, a Quitutices surgiu em um momento em que quase não havia oferta estruturada de produtos sem glúten e sem lácteos em Brasília, segundo a chef Inaiá Sant'Ana. "Naquela época, encontrar insumos específicos era um desafio; muitos ingredientes que hoje estão mais acessíveis simplesmente não existiam no mercado ou eram de difícil obtenção. Alguns, inclusive, ainda hoje são produzidos artesanalmente aqui", relata a responsável pela cozinha.
"Desde o início, a proposta sempre foi ir além da simples adaptação de receitas: criamos uma confeitaria em que os produtos não deixassem a desejar em relação aos convencionais, tanto em sabor quanto em experiência", conta a chef.
Nesta Páscoa, a Quitutices trabalha com um menu especial, que celebra os 10 anos da casa e atende o público com restrição a glúten e lactose. Fazem parte do cardápio os famosos ovos de colher, nos sabores brownie com brigadeiro (entre R$ 110 e R$ 195), prestígio (entre R$ 85 e R$ 150) e brownie com ganache branca (entre R$ 110 e R$ 195).
Para os veganos, os destaques são os ovos trufados (250g) nos sabores brigadeiro na casca preta (entre R$ 175 e R$ 210), brigadeiro com geleia de morango na casca preta (entre R$ 185 e R$ 220) e prestígio na casca preta (entre R$ 115 e R$ 160). Todas as opções podem ser preparadas nas versões sem açúcar.
A casa atenderá com produtos à pronta-entrega hoje e amanhã, sujeitos à disponibilidade da cozinha. Os interessados devem consultar a loja pelo telefone (61) 98303-5396.
