Crônica

Rosa e os demônios encarnados

Alguns olhos de hoje podem se incomodar, como incomodou-se o poeta Manuel Bandeira, com o aparente conservadorismo de Rosa no tratamento da perturbadora paixão entre os dois jagunços

Por Sergio Leo—O local era uma das charmosas livrarias descoladas de Brasília; a noite, dedicada a um intelectual prestigiado, doutor Ítalo Moriconi, e seu livro saboroso, um guia para a leitura de Grande Sertão – Veredas, de Guimarães Rosa. Vivemos tempos de Rosa, alvo de recente biografia, do jornalista Leonêncio Nossa, e que terá outra publicada em breve, pelo professor da UnB Gustavo Castro. E tem festa na mesma livraria Platô, na Asa Sul, neste sábado, celebrando exatos 118 anos de nascimento do escritor.Leonêncio, aliás, preside um encontro, também amanhã, no Sebinho, na Asa Norte, dedicado ao Grande Sertão, que faz 70 anos.

A comemoração na Platô terá conversa com um grupo enriquecido por doutores de literatura. Quem mais conheço nesse time é um jornalista, José Rezende Jr., escritor premiado com um Jabuti, que, há trinta anos, tevea valentia de publicar, neste Correio Braziliense, entrevista, usando a linguagem do entrevistado, com o sertanejo que inspirou o personagem Manuelzão, de Rosa.

Na palestra de Moriconi, gemia uma pobre moça perto de mim, curiosa pelo livro, que nunca havia terminado de ler. Ela conhecia, claro, o spoiler mais famoso do Grande Sertão: que Reinaldo, ou melhor, Diadorim, é na verdade, uma mulher. Mas, que Riobaldo largou tudo e virou fazendeiro? Ai, gemia a moça, com medo de a revelação tirar parte do gosto da leitura. Diadorim morreu? Outro ai.Moriconi dava spoilers, mas tranquilizava. Como diz o próprio Rosa/Riobaldo, já no finzinho do livro (outro spoiler), aprender-a-viver é o próprio viver. Ler essas quase 600 páginas de veredas vale pelo caminhar por elas.O final não é o fim, afinal.

Alguns olhos de hoje podem se incomodar, como incomodou-se o poeta Manuel Bandeira, com o aparente conservadorismo de Rosa no tratamento da perturbadora paixão entre os dois jagunços, ao fazer, de um deles, mulher. Mas essa ambiguidade não deixa de ser atualíssima, argumenta Moriconi, se concluímos que Diadorim é um personagem contemporâneo demais da conta: um homem trans. Capaz de conquistar seu caminhoe defender seu amor enfrentando provas de machulência, como faz ao cobrir de pancada o jagunço que ousa fazer insinuações sobre a relação carinhosa entre os recém-chegados Reinaldo e Riobaldo.

O afeto não tem sexo. Ninguém sabe direito qual seria a relação da viúva de Hermógenes, vilão odiado, por Diadorim, que ela preparou para o enterro, revelando a Riobaldo que já conhecia o segredo do falso Reinaldo...Mas, confesso, nonada era isso que eu ia comentar nessa crônica.

Ao adentrar essas veredas, pretendia contestar Riobaldo, para quem o diabo não existe. O capeta existe, sim; e são os outros, como já dizia um francês. E estava visível naqueles que, na conversa com Ítalo Moriconi, semana passada, na hora das perguntas, encarnaram o demônio do ladrão de palestra. Este ser infernal que, na disposição de uma plateia passiva, decide que teria mais a falar do que o convidado estrela da conversa. Como havia desses, naquele dia!

Dois personagens, de roupa difícil de avaliar se desconstruídas pela boêmia alternativa ou pela dura realidade da situação de rua, iniciaram a sessão de perguntas sem perguntar; mas com fortes opiniões sobre Rosa. As barbas mal feitas e os cabelos despenteados pareciam indicar a existência de uma insuspeita comunidade de literatos vagantes pelas áreas públicas da capital.

Um deles, um tanto desconexo, poderia estar falando de James Joyce, ou de Paulo Coelho. Seguiu-se um engravatado, que rezou em voz alta sua devoção a Rosa e contestou, em tom de autoridade, as opiniões do escritor razão do encontro. Mas fiquem os ladrões de palestra em seu vagar. Como Riobaldo, conto menos do que foi, para em dobro não contar. Assim seja que aos leitores uma ideia se faça. Eu mesmo já não acerto o mote disso, já dizia o Rosa; viva ele.

 

Mais Lidas