
Uma das principais sambistas da música brasileira contemporânea, Fabiana Cozza retorna a Brasília para apresentar um espetáculo dedicado à obra de Dona Ivone Lara. Ao lado do cavaquinista Henrique Araújo, a cantora sobe ao palco do Clube do Choro, nesta sexta-feira (31/7) e no sábado (1º/8), às 20h30, dentro da programação do Complexo Cultural do Choro. Em entrevista ao Correio, Fabiana fala sobre a importância de Done Ivone Lara para a cultura brasileira, o processo de construção do repertório, a parceria com Henrique Araújo e a expectativa para os shows na capital.
Como você foi atraída à obra de Dona Ivone Lara? O que representa para você revisitá-la nesse espetáculo?
A obra de Dona Ivone Lara é um clássico da música popular brasileira no sentido da atemporalidade. É como ler Machado de Assis na literatura: é algo formador da minha constituição enquanto artista. Conheci o trabalho dela ainda adolescente, por meio da grande intérprete Maria Bethânia. Depois, quando comecei a estudar música, fui me aprofundando na obra, na personalidade artística e na história de Dona Ivone. Revisitá-la é algo perene na minha trajetória. É uma forma de manter viva uma memória que não pertence apenas ao passado, mas que se atualiza a cada passo que eu dou. O que Dona Ivone fez e deixou é de uma relevância e de um rebuscamento que precisam ser revisitados constantemente. A cada nova audição, sempre descobrimos algo que não havíamos percebido antes.
Qual é a importância de Dona Ivone Lara para o samba brasileiro?
Dona Ivone Lara é importante não apenas para o samba, mas para toda a cultura nacional. Ela nos ajuda a pensar o protagonismo de personagens negros criadores e também o protagonismo feminino negro. Eu arrisco dizer que Dona Ivone Lara foi a primeira musicoterapeuta negra brasileira, uma das primeiras negras, que, junto da grande Nise da Silveira, deu uma contribuição irretocável e imensurável para a luta antimanicomial. Ela já era uma mulher que fazia da música uma ferramenta social e de cuidado. O que essa senhora fez pela cultura e pela sociedade brasileira é imenso.
Como foi o processo de escolha do repertório para esse tributo?
Esse tributo nasce de um disco que eu gravei junto com Henrique Araújo, em 2018, que é O Canto da noite na boca do vento, um verso de uma canção de Dona Ivone. O álbum reúne canções conhecidas, mas também dá destaque a parcerias menos lembradas da obra de Dona Ivone Lara, como as realizadas com Paulo César Pinheiro e Nei Lopes, além da canção inédita A Dama Dourada, composta por Vidal Assis e Hermínio Bello de Carvalho em homenagem a ela. Agora, nessa versão mais intimista com Henrique Araújo, temos a oportunidade de olhar para a poesia, as melodias e a sofisticada harmonia dessas canções quase como se estivéssemos diante de um olho mágico. A cada movimento surgem novos desenhos, novas formas e novas cores. É assim que eu enxergo a obra de Dona Ivone Lara.
O que significa apresentar esse tributo no Clube do Choro de Brasília?
O Clube do Choro de Brasília tem uma história de grandes encontros e de grandes artistas. Grandes músicos, cantores e instrumentistas passaram e passam por lá. Hoje, com mais anos de carreira, tenho ainda mais consciência da honra que é fazer parte dessa história, de ser um desses nomes que luta, trabalha e milita pela preservação da memória da música popular brasileira. Eu também venho dessa escola do samba e do choro, que dá régua e compasso para tantos artistas e ajuda a internacionalizar a música brasileira em um lugar único de qualidade, beleza e complexidade. É essa diversidade que precisamos preservar, valorizar e reverenciar.
O que o público pode esperar desse encontro entre a sua voz, o cavaquinho de Henrique Araújo e a obra de Dona Ivone Lara?
Será um encontro muito sensível e amoroso. Henrique é um dos irmãos que a vida me deu. É um músico que conhece as filigranas do meu canto, que me ajudou e ensinou muito e que toca um cavaquinho bonito, sensível, potente e cheio de história. O cavaquinho dele carrega outros mestres que o formaram. O público de Brasília é um público amoroso, que adora música. Tenho grandes amigos na cidade e adoro voltar. Espero que as pessoas estejam conosco nessas duas noites para celebrar esse legado. Costumamos dizer que um ancestral permanece vivo enquanto está na nossa boca, nas nossas palavras e no nosso coração. Serão duas noites para celebrar a vida e a obra de Dona Ivone Lara. Quero deixar aqui um convite superespecial para que a turma toda de Brasília compareça.
*Estagiária sob a supervisão de Severino Francisco

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