Crônica

Dostoiévski e as bets

Dados do próprio governo informam que os sites de apostas, nome técnico das bets, faturaram R$ 37 bilhões somente no ano passado

Por Beto Seabra—Difícil saber quando começaram os jogos de azar. Mas no Brasil, eles têm uma data de nascimento. Foi quando, no final do século 19, mais precisamente no ano de 1892, o barão João Batista Drummond, fundador do antigo Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, decidiu criar uma loteria para salvar o zoo. Nascia ali o jogo do bicho.

Nas décadas seguintes vieram os cassinos, que só foram proibidos em 1946, por decisão do então presidente Eurico Gaspar Dutra. Dizem que ele foi influenciado pela primeira-dama, Carmela Dutra, católica fervorosa e mais conhecida pelo apelido de Santinha. Os cassinos fecharam, o jogo do bicho continuou, mesmo ilegal, as loterias da Caixa cresceram até que em 2018 surgiram as bets.

Dados do próprio governo informam que os sites de apostas, nome técnico das bets, faturaram R$ 37 bilhões somente no ano passado. Com a Copa de 2026 é possível que neste ano esse valor seja extrapolado em muito. Tal cifra é bastante superior aos valores que o jogo legalizado em cassinos costuma arrecadar.

Dias atrás decidi reler O jogador, do escritor russo Fiódor Dostoiévski, lançado em 1867, décadas antes do jogo do bicho e dos nossos cassinos. É um romance curto com pouco mais de 150 páginas que, pela voz do personagem Aleksei Ivanovich, conta a própria história de Dostoiévski, que teve a vida arruinada pelo jogo.

E a história por trás de como o livro surgiu é, por si só, uma aposta arriscada. Endividado, Dostoiévski assinou um contrato leonino com seu editor, pelo qual deveria entregar em um ano um novo livro, sob pena de perder os direitos autorais de toda sua obra por uma década.

Faltando um mês para o dia fatal, ele enfim sentou-se para produzir O Jogador, que foi escrito em 26 dias com a ajuda de uma estenógrafa, pois o livro foi ditado em voz alta pelo autor. Um detalhe interessante é que essa profissional, Anna Grigórievna Snítkina, depois se tornaria sua esposa. Mas o fato é que Dostoiévski entregou o livro e se salvou da guilhotina do seu editor. O jogador, portanto, foi uma espécie de exorcização do vício que o levou à ruína. Nunca mais o escritor russo se sentaria numa mesa para jogar.

A leitura do livro de Dostoiévski deveria ser feita por todas as pessoas que fazem apostas em bets ou simplesmente gostam de fazer uma 'fezinha' no jogo do bicho ou em qualquer outro jogo de azar.

Dizem que a literatura não deveria servir para nada, além do próprio deleite da leitura ou, no máximo, para nos tornarmos pessoas melhores e mais empáticas. Mas tenho certeza de que a leitura de O jogador por quem costwuma gastar seus preciosos reais em bets seria uma forma de cura contra o vício. Não custa tentar. Ler costuma ser de graça, ao contrário do jogo, que pode custar muito mais caro que uma simples aposta.

 


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